07/01/2014

Após Mandela, a encruzilhada

Immanuel Wallerstein. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui) para onde foi traduzido desde o inglês por Gabriela Leite. Imagem John Adams. Immanuel Wallerstein é um dos intelectuais de maior projeção internacional na atualidade. Seus estudos e análises abrangem temas sociológicos, históricos, políticos, econômicos e das relações internacionais. É professor na Universidade de Yale e autor de dezenas de livros e um impulsor da escola do sistema-mundo. Mantém um site onde publica seus textos (http://www.iwallerstein.com/). Tradução revista por À revolta entre a mocidade, o negrito também é engádega nossa.
 
 
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Impasses que marcaram movimentos de libertação nacional ressurgem na África do Sul.
Que está em jogo? Quais as alternativas?


O ícone está morto. Longa vida a quê? O mundo assistiu, em dezembro de 2013, à incrível celebração no funeral de Nelson Mandela. Os elogios eram inacabáveis. Mais chefes de estado e de governo, passados e presentes, prestaram homenagem do que em qualquer outro funeral na história. Houve, é claro, algumas vozes contrárias entre os comentários, mas realmente muito poucas. Existia, certamente, uma boa parte de hipocrisia na celebração, mas também houve expressões de dor genuínas, e uma admiração verdadeira por alguém  extraordinário. Foi o último vivo a quem  a África do Sul chamava de Tata Madiba.

Mas e agora? A realidade para a África do Sul é que, qualquer que tenha sido o papel de Mandela na luta contra o apartheid e depois, na (re)construção do país e na passagem do poder político para outros, ele não pode mais desempenhá-lo. O país está agora em suas próprias maõs, para melhor ou pior — sem a graça especial concedida por um ícone vivo. Quais são seus conflitos internos presentes e sua atual posição geopolítica? E o que podemos esperar que ela seja, nas próximas décadas?

A primeira coisa que podemos esperar é um contínuo, talvez rápido, declínio da organização de Mandela, o Congresso Nacional Africano (CNA) [ANC nas siglas em inglês, N. de nosso]. O CNA foi a força que liderou a luta contra o apartheid (embora não a única). Contra dificuldades aparentemente enormes, a organização ganhou a batalha política. Alcançou sua demanda principal, um sistema político baseado em um voto por pessoa. Nas primeiras eleições da África do Sul sob sufrágio universal, Nelson Mandela foi eleito presidente, em 1994, e o CNA ganhou mais de dois terços das cadeiras no legislativo. Repetiu esta demonstração política de apoio nas duas eleições presidenciais subsequentes de Thabo Mbeki e Jacob Zuma, assim como na maior parte das eleições regionais e locais.

No entanto, já está visivelmente em declínio. Por quê? A primeira explicação é que todos os movimentos nacionais de libertação que ganharam poder após uma longa luta tiveram um período inicial de apoio eleitoral enorme, seguido por um declínio, frequentemente abrupto. Isso ocorre por três razões: (1) Expectativas populares de melhoras drásticas, especialmente na esfera econômica, não foram atendidas. Inclusive, em vários casos, a situação ficou pior, para um grande número de pessoas. (2) Ao mesmo tempo, existe uma grande corrupção entre os governantes eleitos e gente favorecida por eles, e há uma luta interna cada vez maior entre os principais líderes. (3) Com o tempo, uma parcela cada vez maior dos eleitores é jovem demais para ter memória direta da vida sob o regime anterior.

No caso da África do Sul, os problemas genéricos a todos os movimentos nacionais de libertação misturam-se a uma história política particular. O CNA articulou-se numa aliança política tripartite, que reunia também o Partido Comunista da África do Sul (PCAS) e o Congresso dos Sindicatos da África do Sul (Cosatu, em inglês). Ambas as organizações foram afetadas pelo declínio do CNA.

O PCAS desempenha há muito tempo um papel político bem além de sua força eleitoral. Isso levou-o a se aproximar muito da CNA, movido pelo medo óbvio de que qualquer divisão significaria um desastre eleitoral, tornando-o politicamente irrelevante. Certos membros do PCAS, ou ex-membros, tornaram-se alguns dos principais proponentes de uma orientação neoliberal para o governo. Outros têm reformulado suas aspirações socialistas, que agora veem como um projeto de muito muito longo prazo.

A Cosatu, diferente do PCAS, tem uma base numérica significativa. Mas é uma federação de sindicatos, que têm interesses variados, e cujos líderes fazem diferentes análises da situação política atual. Em versão resumida, os debates internos da Cosatu dão-se porque alguns grandes sindicatos estão prontos para romper com o CNA e estimular ativamente filiações partidárias alternativas. Outros clamam exatamente pelo oposto. Isso divide os sindicatos entre si e no interior de cada um. A Cosatu está a ponto de uma grande virada, envolvendo uma provável ruptura orgânica interna. Se os sindicatos vão continuar, depois disso, a ser um grande ator na cena da África do Sul na próxima década, é algo muito incerto.

Por fim, o próprio CNA está cada vez mais dividido. Houve dois rachas antes nisso, mas nenhuma das organizações resultantes pareceu avançar eleitoralmente. Hoje, um rompimento provavelmente teria consequências mais sérias. Há duas divisões básicas dentro do CNA. Uma é étnica, entre os líderes, enraizados em um ou outro dos maiores grupos – Xhosa e Zulu. A outra tem a ver com a segunda grande conquista sul-africana com repercussão mundial, o caráter não racial do regime. Existe agora uma grande facção que pede a rejeição do chamado “arco-íris” e da declaração de uma precedência “africanista” para o partido. A questão mais quente que isso envolve é a redistribuição da terra, ainda largamente nas mãos dos fazendeiros brancos.

Além dos conflitos internos, a África do Sul tem tido um papel relativamente importante na cena mundial, e sua atividade geopolítica tem sido objeto de críticas crescentes. O país é um dos cinco membros do BRICS (Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul) – o menor e mais fraco economicamente deles. Há muito debate na África do Sul sobre em que grau esta ligação permite aos outros, principalmente a China, tirar proveito das riquezas sul-africanas.

A África do Sul é ao mesmo tempo um peso-pesado no continente africano, e seu exército cumpriu um papel ativo na “manutenção da paz” em vários países. A questão: isso é subimperialismo, imperialismo direto que reflete os interesses econômicos da África do Sul, ou, ao contrário, uma expressão virtuosa de autonomia regional e solidariedade?

Por último, assim como em boa parte do mundo, existe um grande e crescente desemprego. E, como em grande parte do planeta, a reação política tem sido uma crescente xenofobia, levando a ataques a moçambicanos e outros, que imigraram em busca de melhora econômica.

De diversas maneiras, a África do Sul é um barril de pólvora, prestes a explodir. Ainda assim, do lado positivo, tem a Constituição mais progressista do mundo (considerando, é claro, que seja respeitada). Ainda goza de uma das arenas de debate político mais abertas e vivas. E tem um número impressionante de movimentos sociais de base.

Daqui a uma década, a África do Sul provavelmente parecerá muito diferente. A questão é: vai estar melhor ou pior?
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