25/02/2014

Democracia revolucionária

Amílcar Cabral (1924-1973)


No quadro de princípios de democracia revolucionária (…) cada responsável deve tomar com coragem a sua responsabilidade, deve exigir dos outros respeito pelas suas atividades e deve respeitar as atividades dos outros.

Por outro lado, não devemos esconder nada ao nosso povo, não devemos enganar o nosso povo. Enganar o nosso povo é criar bases para a desgraça do nosso Partido (…).

Temos que acabar com a mentira, temos que ser capazes de não enganar ninguém, sobre as dificuldades da luta, sobre os erros que cometemos, as derrotas que eventualmente tenhamos, e não podemos acreditar que a vitória é fácil (…).

(…) Nós fiamos nas aparências, na nossa própria imaginação, temos tendência para isso, para fiarmos na nossa imaginação.

A democracia revolucionária exige que combatamos todo o oportunismo, como eu já vos disse, que combatamos também a mania que os camaradas têm de perdoar os erros muito depressa. Eu sou responsável, tu cometes um erro, e perdôo-te, com a intenção seguinte: agora já sabes que estás nas minhas mãos. Isso não pode ser, ninguém tem o direito de perdoar os erros sem primeiro discutir os erros diante de toda a gente. Porque o Partido é nosso, de nós todos, não é de cada um, é de todos nós (…). Chegou a hora de parar com as desculpas. Há um trabalho para fazer, faz-se e faz-se bem, não há desculpas.

(…) uma luta é o seguinte: vitória permanente contra as dificuldades. Se não houvesse dificuldades não era luta, era um passeio, era um piquenique.

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Chegou a hora de sermos amigos daqueles que têm valor, aqueles que não prestam não podem ser nossos camaradas, nossos amigos. Quem trai o Partido, quem procura dividir-nos, quem faz planos para sabotar o Partido, quem serve o inimigo, quem convive com os inimigos do Partido, não pode sentar-se connosco, não pode comer connosco na mesma tijela, não pode beber do mesmo copo ou da mesma caneca, não pode dormir na mesma cama. Porque ou nós prestam, ou então não vale a pena continuarmos a nossa luta como estamos a fazer, porque, mais dia menos dia, afogam-nos no mar de grande confusão que nós mesmos podemos criar.

OS INSUBSTITUÍVEIS

Temos que ser capazes de evitar as manias de certos camaradas, de que se eles saírem do posto em que estão, estraga-se tudo, acaba tudo. Ninguém é indispensável nesta luta; todos nós somos necessários, mas ninguém é indispensável. Se alguém tiver que ir, que se vá embora e, se a luta parar, então é porque ela não prestava. (…) Porque um homem que fez uma obra que só ele é capaz de continuar, ainda não fez nada. Uma obra vale, na medida em que é obra de muita gente e há muita gente que é capaz de pegar nela para levar para a frente, mesmo que uma mão saia.

Mas há camaradas que tem manias na cabeça (…). Isso, para não falar de casos de outros camaradas que se são transferidos para outro lado, pensam logo que vão morrer, porque já criaram todas as condições de trabalho num lado e foram chamados para ir para outro lado. Que inconsciência! (…).

Devemos ser capazes de defender a verdade, dizer a verdade diante de toda a gente, sem medo, mesmo se depois da verdade aparecem dificuldades. Devemos dizer a verdade cara a cara, concretamente.

Os militantes não devem ter medo de responsável nenhum no quadro do nosso Partido. (…) O noso Partido deu a toda a gente a mesma força para não ter medo de ninguém, nós dissemos que estamos a lutar para acabar com o medo no seio do nosso povo na Guiné e Cabo Verde. Não devemos ter medo de ninguém, nem que for o militante mais humilde, não deve ter medo de ninguém, nem do Secretário Geral, nem de ninguém. Deve ter respeito como deve ser, porque isso é respeito por si mesmo.

E os responsáveis não devem ter receio dos militantes. Há responsáveis de quem os militantes, os combatentes, têm medo. (…) Mas eles também às vezes tem receio dos militantes. Se ouvem uma conversazinha, já querem saber o que é e porquê, porque têm medo que lhes vão criar problemas com a Direção do Partido. Temos que acabar com isso.

A democracia revolucionária exige de facto, que os responsáveis, os dirigentes, vivam no meio do povo, à frente do povo, atrás do povo. Devem trabalhar para o Partido na certeza de que estão a trabalhar para o povo da nossa terra. (…) Nas áreas liberadas, alguns camaradas têm usurpado esse poder ao nosso povo. Temos que passá-lo para as mãos do nosso povo; ainda estamos em guerra, é um bocado difícil, mas à medida que avançamos temos que passar o poder ao nosso povo, para ele ter a certeza de que o poder é seu de facto.

E ninguém no Partido deve ter medo de perder o poder. (…) Nós não devemos ter medo de nada, devemos contar claramente a verdade ao nosso povo, aos nossos militantes, aos nossos camaradas e, se não ficarem contentes e puderem, que corram connosco, que nos ponham fora. Mas nenhum de nós deve ter medo de nada, não devemos esconder a verdade para conservar o nosso lugar. Isso seria trair o interesse do nosso povo, da nossa terra e de todos aqueles que confiam em nós.

(…) estar com a nossa gente, para lhes ensinar, para lhes dar consciência, não contar-lhes mentiras, enganá-los com promessas falsas. Todos compreenderam.

Como eu disse, devemos avançar cada dia mais, para pôr o poder nas mãos do nosso povo, para transformar profundamente a vida do nosso povo, para pôr mesmo todos os nossos meios de defesa nas mãos do nosso povo, para ser o nosso povo quem defende a nossa revolução. Isso é que será de facto uma democracia revolucionária, amanhã, na nossa terra. Quem manda no seu povo, mas tem medo do povo, está mal. Não devemos nunca ter medo do povo.


No quadro da democracia revolucionária, como já disse, devemos passar para a frente os melhores filhos da nossa terra e cada dia devem ficar para trás os piores, aqueles que não prestam. Porque o nosso trabalho é preparar a nossa enxada, o nosso arado, o nosso martelo, com os quais vamos construir o futuro do nosso povo, na liberdade, no progresso e na felicidade. Vamos melhorar cada dia o nosso Partido, porque quanto melhor o nosso Partido estiver, mais certeza nós temos de conseguir aquilo que queremos para o nosso povo. Por isso mesmo, devemos fazer, como já dissemos, com que o nosso Partido seja cada dia daqueles que são capazes de o fazer cada vez melhor.
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