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25/05/2011

Líbia: Perguntas que é preciso colocar em cada guerra

Michael Collon. Artigo tirado de aqui. Michael Collon é jornalista, escritor e historiador belga.


Michael Collon já publicou vários livros sobre as estratégias da guerra dos EUA e da mídia nos conflitos precedentes, apresenta uma análise global do caso líbio, em três partes: I: Perguntas que é preciso colocar em cada guerra; II: Os verdadeiros objetivos dos EUA vão mais além do petróleo; III: Pistas para atuar. Publicamos, a seguir, a primeira parte deste ensaio:

PERGUNTAS QUE É PRECISO COLOCAR EM CADA GUERRA

27 vezes. Vinte e sete vezes os EUA bombardearam algum país, desde 1945. E cada vez tem-nos afirmado que estes atos de guerra eram "justos" e "humanitários". Hoje, dizem-nos que esta guerra é diferente das precedentes. O mesmo que foi dito da anterior. E da anterior. E de cada vez. Não estamos já na hora de pôr a preto e branco as perguntas que é preciso colocar em cada guerra para não deixar-se manipular?

Há sempre dinheiro para a guerra?

No país mais poderosos do globo, 45 milhões de pessoas vivem na extrema pobreza. Nos EUA, escolas e serviços públicos estão ruindo porque o Estado "não tem dinheiro". Na Europa, também acontece o mesmo, "não há dinheiro" para as pensões ou para a promoção do emprego.

Porém, quando a cobiça dos banqueiros desencadeia a crise financeira, então, em só uns dias, aparecem bilhões para os salvar. Isto permitiu aos banqueiros dos EUA repartirem no ano passado US$ 140 bilhões de lucros e bônus a seus acionistas e especuladores.

Também para a guerra parece fácil encontrar bilhões. Ora bem, são nossos impostos que pagam estas armas e estas destruições. É razoável converter em fumaça centenas de milhares de euros em cada míssil ou esbanjar cinquenta mil euros por hora de um porta-aviões? Ou será porque a guerra é um bom negócio para alguns? Ao mesmo tempo, uma criança morre de fome a cada cinco segundos e o número de pobres não cessa de aumentar no nosso planeta, apesar de tantas promessas.

Qual a diferença entre um líbio, um bareinita e um palestino? Presidentes, ministros, generais, todos juram solenemente que seu objetivo é unicamente salvar os líbios. Mas, ao mesmo tempo, o sultão do Barein esmaga os manifestantes desarmados, graças aos dois mil soldados sauditas enviados pelos EUA! Ao mesmo tempo, no Iêmen, as tropas do ditador Saleh, aliado dos EUA, matam 52 manifestantes com suas metralhadoras. Estes fatos ninguém os põe em dúvida, mas o ministro dos EUA para a guerra, Robert Gates, acabou de declarar: "Não acho que seja o meu papel intervir nos assuntos internos de Iêmen".(1)

Por que estes dois pesos e duas medidas? Por que Saleh acolhe docilmente a 5ª Frota dos EUA e diz sim a todo o que Washington ordenar? Por que o regime bárbaro da Arabia Saudita é cúmplice das multinacionais petrolíferas? Será que existem "bons ditadores" e "maus ditadores"? Como os EUA e a França podem pretender ser "humanitários"? Quando Israel matou dois mil civis nos bombardeios sobre Gaza, eles declararam uma zona de exclusão aérea? Não. Decretaram alguma sanção? Nenhuma.

Ainda pior, Solana, então responsável pelos Assuntos Exteriores da UE declarou em Jerusalém: "Israel é um membro da UE sem ser membro de suas instituições. Israel faz parte ativa de todos os programas de pesquisa e de tecnologia da Europa dos 27". Acrescentando ainda: "Nenhum país fora do continente tem o mesmo tipo de relacionamentos que Israel com a União Européia". Neste ponto, Solana tem razão: A Europa e seus fabricantes de armas colaboram estreitamente com Israel na fabricação de 'drones', mísseis e outros armamentos que semeiam a morte em Gaza.

Recordemos que Israel, que expulsou 700 mil palestinos das suas aldeias, em 1948, se recusa a devolver-lhe seus direitos e continua cometendo inumeráveis crimes de guerra. Sob esta ocupação, 20% da população palestina atual está ou passou pelas prisões israelenses. Mulheres grávidas foram obrigadas a darem à luz atadas ao leito e reenviadas imediatamente às suas celas com os bebês. Esses crimes são cometidos com a cumplicidade dos EUA e da UE.

A vida de um palestino ou de um barenita vale menos do que a de um líbio? Há árabes "bons" e árabes "maus"?

Para os que ainda acreditam na guerra humanitária...

Em um debate televisionado que tive com Louis Michel, ex-ministro belga dos Assuntos Exteriores e Comissário Europeu para a Cooperação e o Desenvolvimento, este me jurou, com a mão no peito, que esta guerra tinha como objetivo "pôr de acordo as consciências da Europa". Era apoiado por Isabelle Durant, líder dos Verdes belgas e europeus. Dessa forma, os ecologistas ("peace and love") viraram belicistas!

O problema é que a cada vez mais nos falam de guerra humanitária e que gente de esquerda como Durant se deixa enganar. Não fariam melhor em ler o que pensam os verdadeiros líderes dos EUA em vez de olharem e assistirem a TV? Escutem, por exemplo, a propósito dos bombardeios contra o Iraque, o célebre Alan Greenspan, durante muito tempo diretor da Reserva Federal dos EUA. Greenspan escreve em suas memórias: "Sinto-me triste quando vejo que é politicamente incorreto reconhecer o que todo mundo sabe: a guerra no Iraque foi exclusivamente pelo petróleo" (2). E acrescenta: "Os oficiais da Casa Branca responderam-me: ‘pois, efetivamente, infelizmente não podemos falar de petróleo’". (3)

A propósito dos bombardeios sobre a Iugoslávia escutem John Norris, diretor de Comunicações de Strobe Talbot que, nesse então, era vice-ministro dos EUA dos Assuntos Exteriores encarregado para os Bálcãs. Norris escreve em suas memórias: "O que melhor explica a guerra da OTAN é que a Iugoslávia se resistia às grandes tendências de reformas políticas e econômicas (quer dizer: negava-se a abrir mão do socialismo), e esse não era nosso compromisso com os albaneses do Kosovo". (4)

Escutem, a propósito dos bombardeios contra o Afeganistão, o que dizia o antigo ministro de Assuntos Exteriores, Henri Kissinger: "Há tendências, sustentadas pela China e pelo Japão, de criar uma zona de livre-câmbio na Ásia. Um bloco asiático hostil, que combine as nações mais povoadas do mundo com grandes recursos e alguns dos países industrializados mais importantes, seria incompatível com o interesse nacional americano. Por estas razões, a América deve manter a sua presença na Ásia..." (5)

O que vinha a confirmar a estratégia avançada por Zbigniew Brzezinski, que foi responsável pela política exterior com Carter e é o inspirador de Obama: "Eurasia (Europa+Ásia) é o tabuleiro sobre o qual se desenvolve o combate pela primacia global. (?) A maneira como os EUA "manejam" a Eurasia é de uma importância crucial. O maior continente da superfície da terra é também seu eixo geopolítico. A potência que o controlar, controlará de fato duas das três grandes regiões mais desenvolvidas e mais produtivas: 75% da população mundial, a maior parte das riquezas físicas, sob a forma de empresas ou de jazidas de matérias-primas, 60% do total mundial". (6)

Nada aprendeu a esquerda das falsidades humanitárias transmitidas pela mídia nas guerras precedentes? Quando o próprio Obama falou, tampouco acreditaram nele? Neste mesmo 28 de março, Obama justificava assim a guerra da Líbia: "Conscientes dos riscos e das despesas da atividade militar, somos naturalmente reticentes a empregar a força para resolver os numerosos desafios do mundo. Mas quando os nossos interesses e valores estão em jogo, temos a responsabilidade de agir. Vistos os custos e riscos da intervenção, temos que calcular, a cada vez, nossos interesses ante a necessidade de uma ação. A América tem um grande interesse estratégico em impedir que Kadafi derrote a oposição".

Não está claro? Então alguns vão e dizem: "Sim, é verdade, os EUA não reagem se não virem nisso o seu interesse. Mas ao menos, já que não pode intervir em todos os sítios, salvará àquela gente" Falso. Vamos demonstrar que são unicamente seus interesses os que procura defender. Não os valores. Em primeiro lugar, cada guerra dos EUA produz mais vítimas do que a anterior (um milhão no Iraque, diretas ou indiretas). A intervenção na Líbia, prepara-se para produzir mais...

Quem se nega a negociar?
Desde o momento em que colocarem uma dúvida sobre a oportunidade desta guerra contra a Líbia, imediatamente serão culpados: "então recusam-se a salvar os líbios do massacre? Assunto mal proposto. Suponhamos que todo o que se nos tem contado fosse verdade. Em primeiro lugar, pode-se parar um massacre com outro massacre? Já sabemos que nossos exércitos ao bombardearem vão matar muitos civis inocentes. Inclusive se, como a cada guerra, os generais nos prometem que vai ser "limpa"; já estamos habituados a essa propaganda.

Em segundo lugar, há um meio bem mais singelo e eficaz de salvar vidas. Todos os países da América latina propuseram enviar imediatamente uma mediação presidida por Lula. A Liga Árabe e a União Africana apoiavam esta gestão e Kadafi tinha-a aceitado (propondo ele também que fossem enviados observadores internacionais para verificar o cessar-fogo). Mas os insurgentes líbios e os ocidentais recusaram esta mediação.

Por quê? "Porque Kadafi não é de confiar", dizem. É possível. E os insurgentes e os seus protetores ocidentais são sempre de confiar? A propósito dos EUA, convém recordar como se comportaram em todas as guerras anteriores, cada vez que um cessar-fogo era possível. Em 1991, quando Bush pai atacou o Iraque, porque este invadia o Kuweit, Saddam Hussein propôs se retirar e que Israel se retirasse também dos territórios ilegalmente ocupados na Palestina. Mas os EUA e os países europeus recusaram seis propostas de negociação. (7)

Em 1999, quando Clinton bombardeou a Jugoslávia, Milosevic aceitava as condições impostas em Rambouillet, mas os EUA e a OTAN acrescentaram uma, intencionadamente inaceitável: a ocupação total da Sérvia.

Em 2001, quando Bush filho atacou o Afeganistão, os talibãs propunham a entrega de Bin Laden a um tribunal internacional se eram apresentadas provas do seu envolvimento, mas Bush rejeitou a negociação.

Em 2003, quando Bush filho atacou o Iraque, sob o pretexto das armas de destruição em massa, Saddam Hussein propôs o envio de inspetores, mas Bush o recusou porque ele sabia que os inspetores não iam encontrar nada. Isto está confirmado na divulgação de um memorando de uma reunião entre o governo britânico e os líderes dos serviços secretos britânicos, em julho de 2002: "os líderes britânicos esperavam que o ultimato fosse redigido em termos inaceitáveis, de modo que Saddam Hussein o recusasse diretamente." Mas não estavam certos de que isso iria funcionar.

Então tinham um plano B: que os aviões que patrulhavam a "zona de exclusão aérea" lançassem muitíssimas mais bombas à espera de uma reação que desse a desculpa para uma ampla campanha de bombardeios. (9) Então, antes de afirmar que "nós" dizemos sempre a verdade e que "eles" sempre mentem, asssim como que "nós" procuramos sempre uma solução pacífica e "eles" não querem se comprometer, teria que ser mais prudentes... Mais cedo ou mais tarde, a gente saberá o que se passou com as negociações nos bastidores e constatará, mais uma vez, que foi manipulada. Mas será muito tarde e os mortos já não os ressuscitaremos.

A Líbia é igual a Tunísia ou ao Egito?

Em sua excelente entrevista publicada há alguns dias por Investi'Action, Mohamed Hassan, professor de doutrina islâmica e especialista do Oriente Médio, colocava a verdadeira questão: "Líbia: levante popular, guerra civil ou agressão militar?" À luz de recentes investigações é possível responder: as três coisas. Uma revolta espontânea rapidamente recuperada e transformada em guerra civil (que já estava preparada), tudo servindo de pretexto para uma agressão militar. A qual, também, estava preparada. Nada em política cai do céu. Consigo explicar-me?

Na Tunísia e no Egito a revolta popular cresceu progressivamente em umas semanas, organizando-se pouco a pouco e unificando-se em reivindicações claras, o que permitiu derrotar os tiranos. Mas, quando analisamos a sucessão ultrarrápida dos acontecimentos em Benghazi, a gente fica intrigada. Em 15 de fevereiro houve manifestações de parentes de presos políticos da revolta de 2006.

Manifestação duramente reprimida como foi sempre na Líbia e nos demais países árabes. Dois dias escassos mais tarde, outra manifestação, desta vez os manifestantes saem armados e passam diretamente a uma escalada contra o regime de Kadafi. Em dois dias, incrivelmente, uma revolta popular se converte em guerra civil. Totalmente espontânea?

Para saber isso, é preciso examinar o que se oculta abaixo do impreciso vocábulo "oposição líbia". Em minha opinião, quatro componentes com interesses muito diferentes : 1º Uma oposição democrática. 2º Dirigentes de Kadafi "regressados" do oeste. 3º Clãs líbios descontentes da partilha das riquezas. 4º Combatentes de tendência islâmica. Quem compõe esta "oposição líbia"?

Em toda esta rede é importante sabermos de que estamos a falar. E sobretudo, que fação é a aceite pelas grandes potências...

1º Oposição democrática. É legítimo ter reivindicações ante o regime de Kadafi, tão ditatorial e corrupto como os outros regimes árabes. Um povo tem o direito de querer substituir um regime autoritário por um sistema mais democrático. No entanto, estas reivindicações estão até hoje pouco organizadas e sem programa concreto. Temos, ainda, no estrangeiro, movimentos revolucionários líbios, igualmente dispersos, mas todos opostos à ingerência estrangeira. Por diversas razões que expomos mais adiante, não são estes elementos democráticos os que têm muito que dizer hoje, sob a bandeira dos EUA nem da França.

2º Dignatários "regressados". Em Bengazhi, um "governo provisório" foi instaurado e está dirigido por Mustafá Abud Jalil. Este homem era, até 21 de fevereiro, ministro da Justiça de Kadafi. Dois meses antes, a Anistia Internacional tinha-o posto na lista dos mais horríveis responsáveis por violações de direitos humanos do norte da África. É este indivíduo o que, segundo as autoridades búlgaras, organizava as torturas de enfermeiras búlgaras e do médico palestino detidos durante longo tempo pelo regime.

Outro "homem forte" desta oposição é o general Abdul Faah Yunis, ex-ministro do Interior de Kadafi e antes chefe da polícia política. Compreende-se que Massimo Introvigne, representante da OSCE (Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa) para a luta contra o racismo, a xenofobia e a discriminação, estime que estes personagens "não são os 'sinceros democratas' dos discursos de Obama, mas foram dos piores instrumentos do regime de Kadafi, que aspiram a tirar o coronel para tomar seu lugar".

3º Clãs descontentes. Como sublinhava Mohamed Hassan, a estrutura da Líbia continua sendo tribal. Durante o período colonial, sob o regime do rei Idriss, os clãs do Leste dominavam e aproveitavam-se das riquezas petrolíferas. Após a revolução de 1969, Kadafi apoiou-se nas tribos do oeste e o Leste viu-se desfavorecido. É lamentável; um poder democrático e justo deve zelar por eliminar as discriminações entre as regiões. Pode-se perguntar se as antigas potências coloniais não incitaram as tribos rebeldes para enfraquecer a unidade do país. Não seria a primeira vez. Hoje, França e os EUA apostam nos clãs do Leste para tomar o controle do país. Dividir para reinar, um velho dito clássico do colonialismo.

4° Elementos da Al-Qaeda. Cabogramas difundidos pelo Wikileaks advertem que o Leste da Líbia era, proporcionalmente, o primeiro exportador no mundo de "combatentes mártires" no Iraque. Relatórios do Pentágono descrevem um cenário "alarmante" acerca dos rebeldes líbios de Bengazhi e Derna. Derna, uma cidade de escassos 80.000 habitantes, seria a fonte principal de yihaidistas no Iraque. Da mesma forma, Vincent Cannistrar, antigo chefe da CIA na Líbia, assinala entre os rebeldes muitos "extremistas islâmicos capazes de criar problemas" e que "as possibilidades [são] muito altas de que os indivíduos mais perigosos possam ter uma influência, caso Kadafi cair".

Evidentemente tudo isto se escrevia quando Kadafi era ainda um "amigo". Mas isto mostra a ausência total de princípios no chefe dos EUA e dos seus aliados. Quando Kadafi reprimiu a revolta islamista de Bengazhi, em 2006, fez isso com as armas e o apoio de Ocidente. Uma vez, somos contra os combatentes do tipo Bin Laden, outra vez, utilizamo-los. Vamos lá ver como.

Entre estas diversas "oposições" qual prevalecerá? Pode ser este também um objetivo da intervenção militar de Washington, Paris e Londres: tentar que "os bons" ganhem? Os bons do ponto de vista deles, é claro. Mais tarde, vai utilizar-se a "ameaça islâmica" como pretexto para se instalarem de forma permanente. Em qualquer caso uma coisa é segura: o cenário libio é diferente dos cenários tunisino ou egípcio. Ali era "um povo unido contra um tirano". Aqui estamos em uma guerra civil, com um Kadafi que conta com o apoio de uma parte da população. E nesta guerra civil o papel que jogaram os serviços secretos americanos e franceses já não é tão secreto...

Qual foi o papel dos serviços secretos?

Na realidade, o assunto líbio não começou em fevereiro em Benghazi, mas sim em Paris, em 21 de outubro de 2010. Segundo revelações do jornalista Franco Bechis (Libero, 24 de março), nesse dia, os serviços secretos franceses prepararam a revolta de Benghazi. Fizeram "voltar" (ou talvez já anteriormente) Nuri Mesmari, chefe do protocolo de Kadafi, praticamente seu braço direito. O único que entrava sem chamar na residência do líder líbio. Em uma viagem a Paris com toda sua família para uma cirurgia, Mesmari não se encontrou com nenhum médico, pelo conttrário, teve encontros com vários servidores públicos dos serviços secretos franceses e com próximos colaboradores de Sarkozy, segundo o boletim digital Magreb Confidential.

Em 16 de novembro, no hotel Concorde Lafayette, prepararia uma imponente delegação que devia viajar dois dias mais tarde a Benghazi. Oficialmente, tratava-se de responsáveis pelo ministério da Agricultura e de líderes das firmas France Export Céréales, France Agrimer, Louis Dreyfus, Glencore, Cargill e Conagra. Mas, segundo os serviços italianos, a delegação incluía também vários militares franceses camuflados como homens de negócios. Em Benghazi, encontraram-se com Abdallah Gehani, um coronel líbio ao que Mesmari lhes tinha apresentado como disposto a desertar.

Em meados de dezembro, Kadafi, desconfiando, enviou um emissário a Paris para tentar contactar com Mesmari. Mas este foi preso na França. Outros líbios vão de visita a Paris no dia 23 de dezembro e são eles que vão dirigir a revolta de Benghazi com as milícias do coronel Gehani. Ainda, Mesmari revelou inúmeros segredos da defesa líbia. De tudo isto resulta que a revolta no Leste não foi tão espontânea como nos foi dito. Mas isto não é tudo. Não só foram os franceses?

Quem dirige atualmente as operações militares do "Conselho Nacional Líbio" anti-Kadafi? Um homem justamente chegado dos EUA, em 14 de março, segundo Al-Jazzira. Apresentado como uma das duas "estrelas" da insurreição líbia, pelo jornal britânico de direita, Dail Mail, Khalifa Hifter é um antigo coronel do exército líbio exilado nos EUA. Foi um dos principais comandantes da Líbia até a desastrosa expedição ao Chade, no final dos 80; emigrou imediatamente para os EUA e viveu os últimos vinte anos na Virgínia. Sem nenhuma fonte de rendimentos conhecida, mas a muito pouca distância dos escritórios... da CIA (10). O mundo é um muito pequeno.

Como é que um militar líbio de alta patente pode entrar com toda a tranquilidade nos EUA, uns anos após o atentado terrorista de Lockerbie, pelo qual a Líbia foi condenada, e viver durante vinte anos, tranquilamente, ao lado da CIA? Por força teve que oferecer algo em troca.

Publicado em 2001, o livro Manipulations africaines (Manipulações africanas) de Pierre Péan, traça as conexões de Hifter com a CIA e a criação, com o apoio da mesma, da Frente Nacional de Libertação Líbia. A única façanha da tal frente será a organização, em 2007, nos EUA, de um "congresso nacional" financiado pelo National Endowment for Democracy(11), tradicionalmente o mediador da CIA para manter lubrificadas as organizações a serviço dos EUA.

Em março deste ano, em data não comunicada, o presidente Obama assinou uma ordem secreta que autoriza a CIA a empreender operações na Líbia, para derrocar Kadafi. O The Wall Street Journal, que informa disso, em 31 de março, acrescenta: "Os responsáveis pela CIA reconhecem ter estado ativos na Líbia desde fazia várias semanas, tal como outros serviços secretos ocidentais".

Tudo isto já não é muito secreto, circula pela Internet faz algum tempo; o que é estranho é que a grande mídia não diga nem uma palavra. No entanto, conhecem-se muitos exemplos de "combatentes da liberdade" armados deste modo e financiados pela CIA. Por exemplo, nos anos 80, as milícias terroristas da ‘contra’, organizadas por Reagan para desestabilizarem a Nicarágua e derrocarem seu governo progressista. Nada se aprendeu da História? Esta "Esquerda" européia que aplaude os bombardeios não utiliza a Internet?

Terá que se estranhar de que os serviços secretos italianos "delatem" assim as façanhas dos seus colegas franceses e que estes "delatem" seus colegas americanos? Isso só é possível se acreditarmos em histórias bonitas sobre a amizade entre "aliados ocidentais" Já falaremos... (Extraído do Investig’Action)

Notas:

1- Reuters, 22/3.

2- Sunday Times, 16 setembro 2007.

3- Washington Post, 17 setembro 2007.

4- Collision Course, Praeger, 2005, p.xiii.

5- Does America need a foreign policy, Simon and Schuster, 2001, p. 111.

6- Le Grand Echiquier, Paris 1997, p. 59-61

7- Michel Collon, Attention, médias Bruxelles, 1992, p. 92.

8- Michel Collon, Monopoly, - L’Otan á la conquête du monde, Bruxelles 2000, page 38.

9- Michael Smith, La véritable information des mémos de Downing Street, Los Angeles Times, 23 jun 2005.

10- McClatchy Newspapers (USA), 27 mars.

11- Eva Golinger, Code Chavez, CIA contra Venezuela, Liége, 2006.

30/03/2011

Líbia: revolta popular, guerra civil ou ataque militar?

Grégoire Lalieu e Michel Collon. Artigo tirado de aqui. Recentemente eu próprio escrevia um artigo que entronca com as consideraçons da parte final do artigo, disponível aqui.


http://www.cubadebate.cu/wp-content/uploads/2011/03/guerra-civil-en-libia-300x200.jpg
Depois de Tunísia e Egipto, chegou a revolução árabe a Líbia?

O que está a ocorrer pelo momento em Líbia é diferente. Na Tunísia e Egipto a falta de liberdade era flagrante. No entanto, foram as terríveis condições sociais as que realmente levaram aos jovens a se rebelar. Os tunecinos e egípcios não tinham nenhuma esperança no futuro.

Em Líbia, o regime de Muamar Gadafi é corrupto, monopoliza uma grande parte da riqueza do país e sempre reprimiu severamente qualquer tipo de oposição. Mas as condições sociais da gente de Líbia são melhores que nos países vizinhos. A esperança de vida em Líbia é maior que no resto da África. Os sistemas de saúde e de educação são bons. Líbia, por outra parte, é um dos primeiros países africanos que erradicaram a malária. Conquanto há uma grande desigualdade na distribuição da riqueza, o PIB por habitante é de 11.000 dólares -um dos mais altos do mundo árabe. Portanto, em Líbia não se dão as mesmas condições objetivas que deram local aos levantamentos populares na Tunísia e Egipto.

Então, como se explica o que está a ocorrer em Líbia?

Para entender corretamente os acontecimentos atuais devemos pôr no seu contexto histórico. Líbia foi no passado uma província otomana. Em 1835 França fez-se cargo de Argélia. Enquanto, Mohamed Ali, governador do Egipto baixo o Império Otomano, foi aplicando políticas a cada vez mais independentes. Com os franceses instalados em Argélia, por uma parte, e Ali Mohamed no Egipto, por outra, os otomanos temeram perder o controlo da região. Enviaram as suas tropas a Líbia.

Naquele momento, a Irmandade Senusi era muito influente no país. era fundada por Sayid Mohamed Ibn Ali como Senusi, um argelino que após estudar no seu próprio país e em Marrocos, foi pregar a sua versão do Islão a Tunísia e Líbia. Ao começo do século XIX, Senusi atraiu a numerosos seguidores mas não foi muito apreçado por uma parte das autoridades religiosas otomanas que o criticavam nas suas sermons. Após passar algum tempo no Egipto e na Meca, Senusi decidiu exilar-se definitivamente na Cirenaica, no este de Líbia.

A sua Irmandade  cresceu ali e organizou a vida da região arrecadando impostos, resolvendo conflitos intertribais, etc., inclusive tinha o seu próprio exército e oferecia os seus serviços de escolta às caravanas de comerciantes que passavam pela zona. Finalmente, a sua Fraternizada Senusi converteu-se no governo de facto da Cirenaica expandindo a sua influência inclusive até o norte do Chade. Mas então as potências coloniais européias instalaram-se na África dividindo a parte subsaariana do continente. Isso teve um impacto negativo nos Senusi. Assim mesmo, a invasão de Líbia por parte da Itália socavou gravemente a hegemonía regional da Irrmandade.

Em 2008 Itália pagou uma indemnização a Líbia pelos crimes dos colonialistas. A tal ponto foi terrível a colonização? Ou o que pretendia Berlusconi era ser visto com bons olhos poder concluir contratos comerciais com Gadafi?

A colonização de Líbia foi terrível. A princípios do século XX, um governo fascista começou a difundir propaganda dizendo que era necessário que Itália, que era derrotada pelo exército etíope na batalha de Adoua em 1896, voltasse a estabelecer a supremazia do homem branco sobre o continente negro. Era necessário limpar a grande nação civilizada da afrenta que lhe tinham infligido os bárbaros. Esta propaganda afirmava que Líbia era um país de selvagens, habitado por uns quantos nómadas atrasados e que seria bom para os italianos se instalar nessa amável terra, com a sua beleza de postal.

A invasão de Líbia surgiu da guerra italo-turca de 1911 -um conflito particularmente sangrento que terminou com a vitória da Itália em um ano depois. No entanto, a potência européia só ganhou o controlo da região de Trípoli e achou uma feroz resistência no resto do país, especialmente na Cirenaica. O clã Senusi apoiou a Omar a o-Mujtar, quem encabeçou uma notável luta guerrillera em bosques, grutas e montanhas. Infligiu graves perdas no exército italiano, embora este último estava muito melhor equipado e era superior numericamente.

Finalmente, a princípios da década de 1930, Mussolini tomou medidas radicais para acabar com a resistência. A repressão chegou a ser extremamente brutal e um dos principais carniceiros, o general Rodolfo Graziani, escreveria: "Os soldados italianos estavam convencidos de que se lhes tinha confiado uma missão nobre e civilizadora... Deviam-se a si mesmos cumprir com este dever humano a qualquer preço... Se não se pode convencer os líbios dos benefícios fundamentais que se lhes têm proposto, então os italianos têm que livrar uma luta contínua na sua contra e podem acabar com toda a população líbia com o fim de conseguir a paz, a paz do cemitério...".

Em 2008, Silvio Berlusconi pagou uma indemnização a Líbia por estes crimes coloniais. Por suposto, baseava-se em motivos ulteriores. Berlusconi queria ganhar-se a Gadafi com o fim de favorecer alianças económicas. No entanto, pode-se dizer que o povo líbio sofreu terrivelmente durante a época colonial. Não seria exagerado falar em termos de genocídio.

Como obteve Líbia a sua independência?

Enquanto os colonos italianos suprimiam à resistência em Cirenaica, o dirigente dos Senusi, Idris, exiliou-se no Egito com o fim de negociar com os britânicos. Após a Segunda Guerra Mundial, o império colonial europeu foi desmantelado progressivamente e Líbia independiçou-se em 1951. Com o apoio de Grã-Bretanha, Idris tomou o poder. No entanto, parte da burguesía *libia, baixo a influência do nacionalismo árabe que se estava a desenvolver no Cairo, queria que Líbia fizesse parte do Egipto. Mas os imperialistas não queriam que se formasse uma grande nação árabe. Portanto, apoiaram a independência de Líbia situando ao seu fantoche Idris no poder.

O rei Idris esteve de acordo?

Por suposto. Com a independência, as três regiões que compõem Líbia -Tripolitana, Fezzan e Cirenaica- viram-se unidas em um sistema federal. Mas há que ter em conta que Líbia é três vezes maior que França. Devido à falta de infraestrutura, as fronteiras do território não puderam ser claramente definidas até após que o avião se tivesse inventado. E em 1951, no país só tinha um milhão de habitantes. Por outra parte, as três regiões que se acabavam de unir tinham uma cultura e uma História muito diferentes. Por último, o país carecia de estradas que unissem as regiões para facilitar a comunicação. Líbia, de facto, encontrava-se em uma fase muito atrasada e não era uma verdadeira nação.

Pode explicar este conceito?

O estado-nação é um conceito vinculado ao aparecimento da burguesia e do capitalismo. Na Europa durante a Idade Média, a burguesía capitalista queria difundir os interesses empresariais na maior medida possível embora impediam-lho todas as limitações do sistema feudal. Os territórios estavam divididos em numerosas entidades pequenas a cujos comerciantes se lhes impunha um importante número de impostos se queriam transportar mercadorias de um local a outro. E isso sem considerar as diferentes obrigações com as que tinham que cumprir para os senhores feudais. Todos estes obstáculos foram eliminados pela revolução capitalista burguesa que permitiu criar estados-nação e grandes mercados nacionais sem obstáculos.

Mas a nação líbia criou-se em uma época na que ainda se estava em uma fase pré-capitalista. Carecia de infraestrutura; uma grande parte da população era nómada e de difícil controlo; as divisões na sociedade eram muito fortes, ainda se praticava a escravatura. Por outra parte o rei Idris não tinha um plano para o desenvolvimento do país. Dependia totalmente dos Estados Unidos e da ajuda britânica.

Por que recebeu o apoio dos Estados Unidos e de Grã-Bretanha? Tinha que ver com o petróleo?

Em 1951 ainda não se tinha descoberto o petróleo em Líbia. Mas os anglo-saxons tinham bases militares no país devido à posição estratégica que ocupa desde o ponto de vista do controlo do Mar Vermelho e o Mediterráneo.

Não foi até 1954 que o rico texano Nelson Bunker Hunt descobriu o petróleo líbio. Naquele momento, o petróleo árabe vendia-se ao redor de 90 centavos o barril. No entanto, o petróleo líbio comprou-se a 30 centavos porque o país estava muito atrasado. Era quiçá o mais pobre da África

Mas de todas formas o dinheiro afluia graças ao petróleo. Em que se usava?

O rei Idris e o seu clã Senusi enriqueceram-se pessoalmente. Também distribuíram parte dos rendimentos do petróleo aos chefes de outras tribos com o fim de apaziguar as tensões. Desenvolveu-se uma pequena elite graças ao comércio de petróleo e construiu-se alguma infraestrutura, principalmente ao longo da costa mediterránea, a área de maior importância para o comércio exterior. Mas as zonas rurais no coração do país seguiram muito depauperadas e os pobres começaram a inundar os bairros marginais ao redor das cidades. Isto continuou até 1969, quando três oficiais derrocaram ao rei, um dos quais era Gadafi.

Como é que a revolução se levou a cabo por oficiais do exército?

Em um país profundamente rasgado pelas divisões tribais, o exército era, de facto, a única instituição nacional. Líbia como tal não existia senão através do seu exército. Ademais, os Senuss do rei Idris tinham a sua própria milícia. Mas no exército nacional era onde se conheciam os líbios das diferentes regiões.

Gadafi tinha-se formado ao princípio em um grupo naserista mas mais tarde entendeu que essa organização não seria capaz de derrocar à monarquia, pelo que se uniu ao exército. Os três oficiais que derrocaram ao rei Idris estavam muito influenciados por Naser. Gamal Abdel Naser era um oficial do exército egípcio que derrocou ao rei Faruk. Inspirado pelo socialismo, Naser opunha-se à injerência do neo-colonialismo estrangeiro e pregou a unidade do mundo árabe. Por outra parte nacionalizou o Canal de Suez que até então era gerido por França e Grã-Bretanha, o que atraiu a hostilidade de Occidente e os bombardeios de 1956.

O panarabismo revolucionário de Naser foi uma grande influência em Líbia, especialmente no exército e mais ainda em Gadafi. Os oficiais líbios que levaram a cabo o golpe de Estado em 1969 seguiam a mesma agenda que Naser.

Quais foram os efeitos da revolução em Líbia?
Gadafi tinha duas opções. Ou deixava o petróleo líbio em mãos de companhias ocidentais como fazia o rei Idris convertendo a Líbia no mesmo que as monarquias petroleiras do Golfo -onde ainda se pratica a escravatura, as mulheres não têm direitos e os arquitetos europeus podem desfrutar construindo todo o tipo de construções estranhas com orçamentos astronómicos fornecidos pela riqueza dos povos árabes; ou podia seguir o caminho da independência dos poderes neo-coloniais. Gadafi elegeu a segunda opção. Nacionaliçou o petróleo líbio, o que enfureceu muito os imperialistas.

Na década de 1950, durante o governo de Eisenhower, circulava umha troça sobre a Casa Branca que baixo Reagan se converteu, de facto, em teoria política. Como se diferencia um bom árabe de um mau? Um bom árabe faz o que Estados Unido diz. A mudança obtém aviões, permite-se-lhe depositar o seu dinheiro em Suíça, convida-se-lhe a Washington, etc. Estes eram os que Eisenhower e Reagan chamavam bons árabes -os gajos de Arábia Saudita e Jordânia, os jeques e emires do Kuwait e o Golfo, o Sha do Irão, o rei de Marrocos e, por suposto, o rei Idris de Líbia. E os árabes maus? Esses eram os que não obedeciam a Washington, Naser, Gadafi, e mais tarde Saddam.

De todos modos, Gadafi não é muito?
Gadafi não é um mau árabe porque ordenasse disparar contra a multidão. O mesmo fizeram em Arábia Saudita ou em Bahréin e os dirigentes desses países ainda recebem todas as honras que Occidente pode outorgar. Gadafi é um mau árabe porque nacionaliçou o petróleo líbio que as empresas ocidentais achavam -até a revolução de 1969- que lhes pertencia. Ao nacionalizá-lo, Gadafi promoveu mudanças positivas em Líbia no que se refere a infraestruturas, educação, saúde, a posição da mulher, etc.

Bom, Gadafi derrocou à monarquia, nacionaliçou o petróleo, opôs-se aos poderes imperiais e provocou uma mudança positiva em Líbia. No entanto, 40 anos depois, é um ditador corruto que suprime toda a oposição e que, uma vez mais, abre o seu país às empresas ocidentais. Como se explica esta mudança?

Desde o princípio, Gadafi opôs-se às grandes potências coloniais e apoiou generosamente a vários movimentos de libertação em todo mundo. Acho que foi muito bom por essa razão. Mas para dar uma visão completa é necessário falar de que o Coronel era anti-comunista. Em 1971, por exemplo, enviou de regresso a Sudão um avião que transportava a dissidentes comunistas sudaneses que foram executados de imediato pelo presidente Nimeiri. A verdade é que Gadafi nunca foi um grande visionário. A sua revolução foi uma revolução nacional burguesa e o que estabeleceu foi o capitalismo de Estado. Para entender como o seu regime perdeu o rumo há que analisar o contexto -que operou em sua  contra- e também os erros pessoais cometidos por Gadafi.

Em primeiro lugar, já temos visto que Gadafi teve que começar desde zero em Líbia. O país estava muito atrasado. Não tinha gente formada da que dispor nem uma classe operária forte que apoiasse a revolução. A maioria das pessoas que recebia educação eram membros da elite que vendia a riqueza líbia às potências neo-coloniais. Obviamente essas pessoas não iam apoiar a revolução e a maioria abandonou o país com o fim de organizar uma oposição desde o estrangeiro.

Ademais, os oficiais líbios que derrocaram ao rei Idris estavam muito influídos por Naser. Egito e Líbia pretendiam unir em uma associação estratégica. Mas à morte de Naser em 1970, o projeto estava estancado e Egito converteu-se em um país contrarrevolucionário alinhado com Occidente. O novo presidente egípcio, Anwar a al-Sadat, aliou-se com Estados Unidos, liberou progressivamente a economia do país e iniciou uma aliança com Israel. Inclusive chegou a estourar um breve conflito com Líbia em 1977; imagine-se a situação em que se encontrou Gadafi: o estado que o tinha inspirado e com o que esperava estabelecer uma aliança tinha-se convertido de repente em inimigo.

Outro elemento da situação que operou na contramão da revolução líbia: a grave queda dos rendimentos do petróleo durante a década de 1980. Em 1973, durante a guerra árabe-israelita, os países produtores de petróleo decidiram impor um embargo que ocasionou que o preço do barril de petróleo se dispara. Este embargo proporcionou a primeira grande transferência da riqueza do Norte em direção ao Sul. Mas durante a década de 1980 produziu-se também o que poder-se-ia chamar a "contrarrevolução do petróleo" orquestrada por Reagan e os sauditas. Arábia Saudita aumentou consideravelmente a produção e inundou o mercado causando uma queda em massa dos preços. O preço do barril passou de 35 dólares a 8.

Não estava Arábia Saudita atirando pedras contra o seu próprio telhado?

Por suposto, teve um impacto negativo na economia saudita. Mas o petróleo não é o mais importante para Arábia Saudita. Os seus relacionamentos com Estados Unidos preocupam-lhe mais porque é o apoio de Washington o que permite à dinastia saudita manter no poder. Esta onda que afetou ao preço do petróleo resultou catastrófica para vários países produtores que se viram endividados. Tudo isto ocorreu tão só 10 anos após que Gadafi chegasse ao poder. O líder líbio, que chegou da nada, via como o único médio que tinha para construir algo desaparecia como neve fundida segundo se ia reduzindo o dinheiro do petróleo.

Assim mesmo, há que ter em conta que a contrarrevolução do petróleo também acelerou o colapso da URSS que nesse momento estava empantanada no Afeganistão. Com o desaparecimento do bloco soviético, Líbia perdido a sua principal fonte de apoio político e encontrou-se isolada na cena internacional e, ademais, foi incluída na lista de Estados terroristas da administração Reagan e ficou submetida a toda uma série de sanções.

Quais foram os erros de Gadafi?

Como já mencionei, não era um grande visionário. A teoria desenvolvida no enquadramento do seu Livro Verde é uma mistura de anti-imperialismo, islamismo, nacionalismo, capitalismo de Estado e outras coisas. Além da sua falta de visão política, Gadafi cometeu um grave erro ao atacar a Chade na década de 1970. Chade é o quinto país maior da África e o coronel, que sem dúvida pensava que Líbia era demasiado pequeno para dar cabida às suas ambições megalómanas, anexou-se da Faixa de Auzu. É verdadeiro que historicamente a Irmandad Senusi exercia a sua influência nessa região. E que em 1945 o ministro francês de Relacionamentos Exteriores, Pierre Laval, quis comprar a Mussolini, oferecendo-lhe a Faixa de Auzu [1]. Mas ao final Mussolini acercou-se a Hitler e o acordo ficou em letra morrida. [A data de 1945 penso tem que estar errada, já que nesse ano Mussolini estava morto e remata a segunda guerra mundial suicidando-se Hitler na chancelaria de Berlim; Nota do blogger].

Gadafi não obstante, queria anexar este território e entrou em uma luta contra Paris pela influência sobre esta ex-colónia francesa. Ao final, Estados Unidos, França, Egipto, Sudão e outras forças reaccionárias na região apoiaram ao exército de Chade, que derrotou às tropas líbias. Capturaram-se milhares de soldados e grandes quantidades de armas. O presidente de Chade, Hissène Terei, vendeu esses soldados à administração Reagan: a CIA utilizou-os como mercenários em Quénia e em Latinoamérica.

Mas o erro maior da revolução líbia foi ter apostado demasiado pelo seu petróleo. A maior riqueza de um país são os seus recursos humanos. Não se pode ter sucesso em uma revolução se não se desenvolvem a harmonia nacional, a justiça social e uma distribuição equitativa da riqueza.

No entanto, o coronel não eliminou as práticas discriminatórias que faziam parte da tradição líbia desde muito tempo atrás. Como se pode mobilizar à população se não se demonstra aos líbios que seja qual seja a sua origem étnica ou tribal, todos são iguais e podem trabalhar juntos pelo bem da nação? A maioria da população líbia é árabe, fala o mesmo idioma e compartilha a mesma religião. A diversidade étnica não é muito importante. fosse possível abolir toda a forma de discriminação com o fim de mobilizar à população.

Assim mesmo, Gadafi foi incapaz de educar ao povo líbio em matéria revolucionária. Não elevou o nível da consciência política dos cidadãos e não construiu um partido para apoiar a revolução.

No entanto, de acordo com o seu Livro Verde de 1975, estabeleceu os comités populares, uma espécie de democracia direta.

A tentativa de democracia direta estava influenciado por conceitos marxistas-leninistas. Mas os comités populares em Líbia não se baseavam na análise política nem em qualquer ideologia clara. Foram um falhanço. Também Gadafi não  construiu um partido político para apoiar a sua revolução. Ao final, separou-se do povo. A revolução líbia converteu-se no projeto de um homem. Tudo girava em torno deste líder carismático divorciado da realidade. E quando se abriu um abismo entre o líder e o seu povo, a força e a repressão vieram a encher o vazio. O excesso seguiu ao excesso, a corrupção estendeu-se, as diferenças tribais cristalizaram.

Hoje em dia essas divisões situaram-se à cabeça da crise líbia. Há, por suposto, uma parte de jovens líbios cansados da ditadura que foram influídos pelos acontecimentos na Tunísia e Egipto. Mas a oposição do este do país, que representa a sua parte do bolo após que a distribuição da riqueza seja muito desigual no enquadramento do regime de Gadafi, está-se a aproveitar desses sentimentos populares. Por outra parte, não sabemos muito a respeito deste movimento de oposição. Quem são?, qual é o seu programa?, se querem realmente empreender uma revolução democrática, por que recorreram às bandeiras do rei Idris, símbolo da época em que a Cirenaica era a província dominante do país? Se um faz parte da oposição de um país e como patriota quer derrocar ao seu governo, deve tratar do fazer corretamente. Não se pode provocar uma guerra civil no seu próprio país sem o pôr em risco de balcanização.

Na sua opinião, já não é só uma questão de uma guerra civil pelas contradições entre os diferentes clãs de Líbia?

É pior, acho. Já se deram anteriormente contradições entre as tribos mas nunca foram tão generalizadas. Aqui Estados Unidos está a avivar os lumes dessas tensões com o fim de poder intervir militarmente em Líbia. Desde os primeiros dias da insurreção, a secretária de Estado, Hillary Clinton, sugeriu armar à oposição. Desde o princípio, a oposição organizada pelo Conselho Nacional negou toda injerência estrangeira por parte de potências estrangeiras porque sabiam que qualquer interferência desacreditaria ao seu movimento. Mas hoje em dia parte da oposição pediu a intervenção armada.

Desde que desatou-se o conflito, o presidente Obama instou a que se tenham em conta todo o tipo de opções e o Senado estadounidense fez o apelo à comunidade internacional para impor uma zona de exclusão aérea sobre território líbio, o que supõe um verdadeiro ato de guerra. Ademais, o portaavions nuclear, o USS Enterprise, que estava estacionado no Golfo de Adém para lutar contra a pirateria,  transladou-se até a costa de Líbia. Dois barcos anfíbios, o USS Kearsarge e o USS Ponce, com vários milhares de infantes de marinha e as frotas de helicópteros de combate a bordo, também se estacionaram no Mediterráneo.

Na semana passada, Louis Michel, ex comissário de Desenvolvimento e Ajuda Humanitária da UE, propôs energicamente uma pergunta em um estudo de televisão sobre que governo teria o valor de levar o caso de uma intervenção armada em Líbia aos seus parlamentares. No entanto, Louis Michel não pediu nunca uma intervenção assim no Egipto ou em Bahréin. Por que?

É a repressão mais violenta em Líbia?

A repressão foi muito violenta no Egito embora a OTAN não enviou navios de guerra à costa egípcia para ameaçar a Mubarak. Não teve mais que um apelo para que se procurasse uma solução democrática.

No caso de Líbia há que ter muito cuidado com a informação que nos chega. Em um dia fala-se de 2.000 mortes e ao dia seguinte revisa-se a conta a 300. Também  está-se a dizer desde o começo da crise que Gadafi bombardeava ao seu próprio povo embora o exército russo, que está a observar a situação por satélite, desmentiu oficialmente essa informação. Se a OTAN prepara-se para intervir militarmente em Líbia podemos estar seguros de que os meios de informação dominantes vão difundir a sua propaganda de guerra habitual.

De facto, ocorreu o mesmo na Roménia com Ceausescu. Na Noiteboa de 1989, o primeiro-ministro belga, Wilfred Martiens, pronunciou um discurso na televisão. Afirmou que as forças de segurança de Ceaucescu acabavam de matar a 12.000 pessoas, o que não era verdadeiro. As imagens do famoso massacre de Timosoara circularam assim mesmo por todo mundo. Estavam destinadas a demonstrar a violência cega do presidente romanês. Mas mais tarde demonstrou-se que todo era preparado. Tinham-se sacado corpos do depósito de cadáveres e colocaram-se nas trincheiras com o fim de impressionar aos jornalistas. Também se disse que os comunistas envenenavam a água, que tinha mercenários sírios e palestinianos em Romênia, ou inclusive que Ceaucescu treinava a órfões como máquinas de matar. Todo era pura propaganda dirigida a desestabilizar o regime.

Ao final, Ceaucescu e a sua esposa foram assassinados após uma farsa de julgamento que durou 55 minutos. Por suposto, o presidente romanês, como Gadafi, não era um santo. Mas que aconteceu desde então? A Romênia converteu-se em uma semi-colónia européia. Explode-se a sua mão de obra barata. Numerosos serviços privatizaram-se em benefício das empresas ocidentais e estão fora do alcance económico de grande parte da população. E agora, a cada ano não são poucos os romenos que vão chorar envelope a tumba de Ceaucescu. A ditadura foi uma coisa terrível mas depois o país foi destruído economicamente; ainda pior [de facto inquéritos recentes demonstram que mais da metade dos romenos afirmam que viviam melhor sob o "comunismo"; Nota do blogger, ver aqui].

Por que Estados Unidos quer derrocar a Gadafi? Durante os últimos dez anos, o coronel foi muito suscetível a Occidente e privatizou uma parte importante da economia líbia, beneficiando às empresas ocidentais no processo.

Há que analisar todos estes acontecimentos à luz do novo equilíbrio de forças no mundo. As potências imperialistas estão em declínio enquanto outras forças vão em aumento. Recentemente China ofereceu-se a comprar a dívida portuguesa. Na Grécia, a população é a cada vez mais hostil a esta União Européia que se percebe como uma armadilha do imperialismo alemão. Sentimentos similares estão a crescer nos países do Leste. Por outra parte, Estados Unidos atacou o Iraque com o fim de obter o controlo do seu petróleo, mas ao final só uma única empresa estadounidense se está a beneficiar disso, o resto do petróleo está a ser explodido por empresas de Malásia e China. Em resumo, o imperialismo está em crise.

Ademais, a revolução da Tunísia realmente apanhou por surpresa a Occidente. A queda de Mubarak ainda mais. Washington tenta de recuperar a sua influência sobre estes movimentos populares mas o seu controlo desvanece-se. Na Tunísia, o primeiro-ministro Mohamad Ghanouchi, um produto direto da ditadura de Ben Ali, estava destinado a controlar a transição criando a ilusão de mudança. Mas a determinação do povo obrigou-o a renunciar. No Egipto, Estados Unidos contava com o exército para manter um sistema aceitável no seu local. Mas recebi informações que confirmam que em muitos quartéis militares de todo o país, os oficiais jovens se estão a organizar em comités revolucionários em apoio do povo egípcio. Inclusive prenderam a alguns oficiais relacionados com o regime de Mubarak.

A região poderia escapar ao controlo dos Estados Unidos. A intervenção em Líbia permitiria a Washington avariar o movimento revolucionário e evitar a sua propagaçom ao resto do mundo árabe e da África. Desde a semana passada, os jovens têm estado protestando em Burkina Faso, embora os meios guardam silêncio ao respeito. Como o guardam sobre as manifestações que estão a ter local no Iraque.

Outro perigo para os Estados Unidos é o possível aparecimento de governos anti-imperialistas na Tunísia e Egito. Se isto acontecesse, Gadafi já não estaria isolado e poderia incumprir os acordos atingidos com Occidente. Líbia, Egipto e Tunísia poderiam unir-se para formar um bloco anti-imperialista. Com todos os recursos que têm ao seu dispor, especialmente as grandes reservas de divisas de Gadafi, os três poderiam converter em uma potência regional importante, provavelmente mais importante de Turquia.

No entanto, Gadafi apoiou a Ben Ali quando o povo da Tunísia se rebelou.

Isso demonstra até que ponto é débil e está isolado e fora de contacto com a realidade. No entanto, o cambiante equilíbrio de forças na região poderia transformar as coisas. Gadafi poderia mudar de ombro o seu fuzil; não seria a primeira vez.

Como poderia se modificar a situação em Líbia?

As potências ocidentais e o movimento denominado de oposição recusaram a oferta de mediação de Chávez. Isso significa que não estão interessados em uma solução pacífica ao conflito. Mas os efeitos de uma intervenção da OTAN serão desastrosos. vimos o que ocorreu no Kosovo ou Afeganistão.

Por outra parte, a agressão militar poderia alentar os grupos islamistas a entrar em Líbia que poderiam tomar grandes depósitos de armas ali. A al-Qaida poderia infiltrar-se e converter Líbia em um segundo Iraque. Ademais, já há grupos armados em Níger que ninguém pôde controlar. A sua influência poderia estender-se a Líbia, Chade, Malí e Argélia. Com a intervenção militar, o imperialismo está a abrir as portas do inferno.

Para concluir, o povo líbio merece algo melhor que este movimento de oposição que está a afundar ao país no caos. Precisa um movimento realmente democrático que substitua ao regime de Gadafi e traga a justiça social. Em nenhum caso os líbios merecem uma agressão militar. As forças imperialistas em retrocesso parecem, no entanto, dispostas para uma ofensiva contrarrevolucionária no mundo árabe. Atacar a Líbia é a sua solução de urgência. Mas estão a disparar-se nos pés.

Nota:

1. Esta zona é rica em urânio - CPGB ml

Fonte: http://www.michelcollon.info/*Libya-popular-*uprising-*civilian.html