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23/06/2011

Marx por partida dupla

Ekkehard Knörer, escritor e crítico alemão. A tradução do artigo é de nosso e é tirado de aqui.



A quem pertence o pensador que goza de um maior interesse na actualidade? Em duas conferências simultâneas em Berlim reclamaram-no para si tanto filósofos como o partido Die Linke. Ekkerhard Knörer escreveu esta crónica mordaz para o semanário alemão Freitag.

Não cabe nem uma agulha no Audimax da Universidade Humboldt de Berlim. Centos de pessoas sentadas, nos corredores e, como o sítio já não dá mais de si, habilitou-se uma habitação em que se retransmite ao vivo a conferência. Jovens penteados à moda conversam em línguas estrangeiras e geolectos alemães, fotografam e escrevem-se mensagens com os seus telemóveis. Entre eles também senhoras e senhores maiores e muito maiores, de aparência indómita, explicando velhas batalhinhas. O interesse acordado pela conferência Re-thinking Marx era enorme desde faz duas semanas. O porquê, um não acerta a lhe-lo explicar visto o visto.
Já a introdução da organizadora da conferência, Rahel Jaeggi, resultou terrivelmente soporífera. Em extremo académica, tediosa, às vezes subtil e às vezes subtilmente um pouco mais tediosa que dantes. Um ato sem telefonemas à revolução, sem discurso. Impacto zero. Um pouco de teatro pós-dramático como ornamento vespertino. O desequilíbrio entre o tom dos sábios oficiais da Academia e o impulso da maioria do público resultava ligeiramente grotesco. Até o último da bicha acabou por dar-se conta de que a estrela não se encontrava no atril senão no título da conferência.

Marx + o meu tema favorito

Marx atrai às massas. Se sempre as atraiu ou agora as volta a atrair, tanto dá: Audimax cheio até os topos. Com isso, aquele auditório como local de reunião para Re-thinking Marx acabo quase por representar a tese central da conferência. Para Jaeggi e os seus convidados tratou-se mais exactamente de pôr cabeça abaixo a onzenava tese de Feuerbacht, ou segundo quem o veja, sobre os seus pés: "Os homens tentaram mudar o mundo com Marx; do que se trata é de interpretar de outro modo!". Em outras palavras: o objectivo era desandar a transformação de Marx e ir do político e revolucionário ao pensador e filósofo (social).

Elegeu-se como forma de reunião a conferência académica recarregada de tintas, com grandes mesas de debate e minúsculos seminários paralelos. Foi decepcionante ouvir como a maioria dos ponhentes se dedicou a tentar caçar a Marx com as redes da Teoria contemporânea em mãos, desde a teoria de género ao pós-colonialismo, ou ao empregar somente como nota a rodapé do seu tema favorito. A maneira totalmente atrapalhada em que alguém como Terry Pinkard tentou converter a Marx de maneira póstuma novamente ao hegelianismo foi uma saída de tom, sim, mas em nenhum caso a excepção. De Étienne Balibar ao menos veio uma referência aos acontecimentos actuais no seu gesto de aprovação amistosa da revolução espanhola. Pelo demais, business as usual. No dia de clausura-a as lâmpadas alumiaram muito bem a todos os participantes. Mas, e Marx? Um pouco pálido, lá, na ponta do nariz, ao longe...

A conferência foi acima de todo isso: um evento politicamente institucional de algum interesse, consciente dos seus efeitos ao pôr-se embaixo do faro académico. Rahel Jaeggi foi recentemente nomeada para uma das cátedras de filosofia mais vistosas da República federal. Na Humboldt-Universität é a sucessora do muito publicitado, e em nenhum caso de esquerdas, Volker Gerhardt, quem garaveta sobre novas construções teóricas e pensa em grandes e profundos temas. A substituição é uma palma universitária para a jovem geração da Teoria Crítica, na que deve se situar a Jaeggi. Que ninguém se assuste: não há que temer em nenhum caso uma revolução. Pois afinal de contas a que no seu momento tão radical Teoria Crítica é, na sua versão actual pós-Habermas, uma filosofia social com frequência perseguida no terreno do debate, mas na disciplina académica muito aceitada em ramos como a estética e a teoria política.

Em obras sólidas, trabalhadas e fiáveis circula o pensamento dos seus actuais representantes sobre conceitos e constelações como o reconhecimento (Axel Honneth), a normatividade e a liberdade (Christoph Menke) ou a apropriação e alienação (Rahel Jaeggi). A velha Escola de Frankfurt encontra assim novos amigos na França, a maioria deles convidados à conferência, embora persiste até verdadeiro ponto a resistência das universidades alemãs ao pensamento francês. A todopoderosa comunidade investigadora alemã põe os seus fundos -veja-se Re-thinking Marx- ao serviço e a prazer destes últimos. Por outra parte, a esta sorte de moderados radicais da filosofia social falta-lhes o carisma e o poder de atracção extra-académicos. De ter algum, vem-lhes de prestado pelo título de uma palestra em que figura o nome de Marx, a quem repensam baixo uma audiência selecta que, em qualquer caso, vai minguando à medida que avança o ato. 

Žižek  was here

Mudança de palco. Não cabe nem uma agulha no Astra Kulturhaus, no bairro de Friedrichshain de Berlim, junto às vias do S-Bahn. Centos de pessoas sentadas, no chão, nos corredores, só que aqui não há por nenhuma parte retransmissão ao vivo. No Astra Kulturhaus soa a música habitual. Bandas de indie como Eels e Death Cab For Cutie passarão por aqui neste mês. No caluroso sábado passado pela tarde a sala de actuações estava no entanto repleta de cadeiras. No pódio, a esquerda e a direita, uma bandeira vermelha com a inscrição "A Esquerda" (DIE LINKE) no centro. Ao fundo, um punho fechado sobre fundo negro, o cartaz da conferência e a sua engenhosa legenda: Marx is Muss. [1]

Na mesa de debate sentam-se Janine Wissler, política de Die Linke, quem suou tinta, jovial, repetindo as frases habituais que se requerem para este tipo de actos. Junto a ela Dietmar Dath, o declarado escritor de esquerdas radical fixe, que em uma ocasião trabalhou no sector da cultura como chefe de redacção de Spex e redactor de cultura do Frankfurter Allgemeine Zeitung. [2] Depois veio Alex Callinicos, trotskista ortodoxo e, como tal, muito apreciado nos círculos correspondentes. Todos eles no entanto mal eram a razão para o translado vespertino do público da conferência da Alte Feuerwache em Kreuzberg à maior e mais hip Astra Kulturhaus. Não, do telefonema às massas era outro o responsável: Slavoj Žižek.

O esloveno está considerado como a maior estrela da Teoria da nossa época, citado largamente nas universidades e fora delas. O filósofo como stand-up comedian e artista de um pensamento com o que se inflama a si mesmo uma e outra vez. Um fogo fátuo, todo punchlines e erros gramaticais e gesticulação selvagem, alguém que considera todo um sério lucro teórico se pode o reformular em forma de  brincadeira obscena. Žižek  não é somente a estrela da Teoria na sua qualidade de pensador magistral e performer de alto rendimento; é também quem, junto do seu compinche Alain Badiou, tentou trazer de volta o comunismo à linguagem filosófica.

No pódio todos estavam de acordo sobre a desejabilidade e possibilidade de atingir um comunismo democrático. As revoluções no mundo árabe ou as manifestações em Espanha tomam-se com todas as preocupações como sinais positivos. No entanto, Žižek  não se esteve de afirmar que o catálogo de reivindicações da juventude espanhola poderia o assinar de facto qualquer fascista. Em fim, ainda mais necessário, se concluiu, é oferecer teorias maduras como vanguarda de um pensamento que, eventualmente, encontre nas ruas às massas críticas.

O Marx de Lafontaine

A conferência Marx is Muss foi, em muitos sentidos, o complemento e a concorrência de Re-thinking Marx. Aqui no entanto também se procurava um plano para a acção. Tinha-a organizado afinal de contas o agrupamento Marx21, que em uma ocasião se chamou Linksruck e hoje quer agrupar o comunismo, a crítica ao sistema e a oposição radical no partido Die Linke, ao que se incorporou no 2007. Não amagam o seu raivoso anti-sionismo -segunda Flotilha de Gaza, ahoi!- e nas redes e em em o próximo número da revista Marx21 -mulhida, cultural- escreve-se amistosamente sobre Ken Loach ou Stéphane Hessel, brinda-se a oportunidade de escrever a figuras com um amplo capital cultural como Dath ou Žižek  ao lado de veteranos como Elmar Altvater ou Arno Klönne junto a Sahra Wagenknecht e Hans Modrow.

A gente de Marx21 são, não menos que Jaeggy & Co no seu campo, virtuosos da criação de redes. Na actual luta programática intrapartidária miraram com Marx is Muss um golpe certeiro. Para a sua conferência inaugural convidaram a Oskar Lafontaine, quem enviou no seu discurso de abertura um claro sinal aos camaradas: por uma oposição radical e contra toda esquerda germano-oriental partidária das alianças de governo. Marx21 reuniu para secundar esta linha de actuação à sua própria tropa e com Slajov Žižek  animaram o cotarro. Ao final pesou mais a política partidária que a teoria.

Seja como for, está fora de dúvida: Marx segue sendo, cabeça abaixo ou sobre os seus pés, de novo uma estrela.

Notas do t.: [1] Jogo de palavras de impossível tradução entre Marxismus (marxismo) e Marx is muss ("Marx é um must" ou "Marx é imprescindível"). [2] Spex é uma conhecida revista de música contemporânea independente bimensual. O Frankfurter Allgemeine Zeitung é o maior e mais conhecido diário económico da Alemanha, de orientação conservadora. 

30/03/2011

Hessel e Sanpedro

José Luis Sanpedro. Artigo tirado de aqui.

Resulta conmovedora e moi fermosa a fotografía na que Stéphane Hessel e José Luis Sampedro se saúdan colléndose fraternalmente das dúas mans. 
 
Ambos, o diplomático e escritor francés e o economista e escritor español, naceron no ano 1917 e teñen pois 94 anos. E na fotografía, realizada por Uly Martín, os dous vellos intelectuais comprometidos co progreso humano e social manifestan a través do seu sorriso e da súa ledicia -acaban de se atopar en Madrid no acto de presentación do libro Indignádevos- unha irmandade profunda e unha solidariedade que se proxecta sobre nós e irremisibelmente nos afecta. José Luis Sampedro é o autor do limiar da edición española de Indignez vous!, un excepcional panfleto (opúsculo) político, no sentido máis nobre e transcendente do termo, que é un fenómeno editorial en Francia con máis de 1 millón de exemplares vendidos en pouco máis de tres meses.

O Sampedro prologuista di que Indignádevos é "un grito, un toque de clarín que interrumpe el tráfico callejero y obliga a levantar la vista a los reunidos en la plaza". E Hessel, irmán de Sampedro no pensamento cívico e na activa esperanza revolucionaria, presenta o seu libro solicitando que exercitemos a nosa capacidade de indignación, a nosa capacidade de reacción fronte a un mundo que ten cada vez máis pobres, no que non se respectan os dereitos dos cidadáns e no que as garantías en temas de saúde, traballo e educación son cada vez menores. Hessel di que se caeu o Muro de Berlín tamén pode caer o sistema capitalista financeiro e Sampedro pide que a indignación, necesaria e urxente, se produza sen violencia, unha vía de insurrección pacífica semellante á que levaron a cabo figuras como Mandela, Martin Luther King ou o propio Gandhi, asasinado en 1948, o mesmo ano no que Sthéfane Hessel participaba na redacción da Declaración Universal dos Dereitos Humanos. Hessel e Sampedro xuntos, tal como os vemos na fotografía -dúas frontes lúcidas e a tensión feliz da irmandade- son unha lección inesquecíbel para todos.

29/03/2011

"Os governos nom soubêrom estar à altura dos jovens"

Stéphane Hessel. Artigo tirado de aqui e traduzido por nós para o galego-português. O autor é um ativista que recentemente publicou Indignai-vos!, obra que também tem sido editada na Galiza. Eu como moço pergunto-me também, em vendo o exemplo de dignidade de muitos militantes e ativistas históricos da esquerda, se a mocidade estivo "à altura" dos seus governos ou se fôrom e som cúmplices da sua podremia.

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Aos seus 93 anos, Stéphane Hessel (Berlim, 1917) converteu-se na voz da juventude com a sua manifesto Indignem-vos!. Numhas 50 páginas, este antigo membro da resistência francesa durante a II Guerra Mundial anima aos jovens a lutar contra a desvergonha dos poderes económicos que quase sequestraram a democracia. Ontem, Hessel, que se segue mostrando combativo através dos seus gestos e a sua voz, apresentou o livro em Madrid e falou com Público encol da a necessidade de não se deixar levar pela indiferença nem a apatia.

Que lhe fez escrever este alegato?

O nosso mundo é perigoso porque as potências financeiras têm mais poder que a democracia. Por isso devemos combater a favor das conquistas da democracia européia. A ameaça prove desse abuso dos poderes financeiros e isso justifica a minha indignação e depois o meu compromisso.

Quando você lutou em II Guerra Mundial o inimigo estava bem definido: o nazismo. Agora fala de poderes financeiros, mas quem são os maus?

Hoje há duas graves ameaças para a juventude: o aumento da brecha entre ricos e pobres e a degradação do planeta por causa das forças económicas e comerciais que levam a cabo uma sobreexploração e que podem pôr em perigo a sobrevivência para os 9.000 milhões de pessoas que chegaremos a ser no mundo.

Quais são as armas para lutar contra estas duas ameaças?

As armas devem ser políticas. Os cidadãos como você deveriam se comprometer em partidos políticos e associações de defesa dos direitos humanos para exercer pressão sobre os governos e recuperem a sua responsabilidade face à justiça social e o médio ambiente.

Alguns sugerem que os jovens não têm nada a ver com os do maio do 68. Falta compromisso coletivo?

É verdade que alguns se descorazonaram após os acontecimentos de maio do 68 e após ver que o grande esforço de ATTAC não serviu para fazer uma mudança nas nossas sociedades modernas. Mas acho que há que vencer essa deceção. Com os novos meios de comunicação, que realmente conseguem um grande impacto, é possível conseguir uma maior justiça social. Ademais, há muitos jovens que não se sentem indiferentes e sim se indignam. O que peço é que se escute a sua voz.

Na Europa está em declive a democracia? Entre os jovens também há um absoluto desencanto à hora de votar. Qual é a sua proposta?

Sim, foi-se desenvolvendo uma atmosfera de pensamento em que a democracia é algo muito bonito, mas não dá resultados. O que acho é que são necessárias novas forças políticas, em Espanha, na França, que se unam ao Partido Socialista com critérios medioambientais. Europa não pode permitir-se uma revolução de tendência totalitária como a da União Soviética, mas acho que há que tentar construir uma democracia socialista à que se unissem os Verdes.

Como valoriza que a Frente Nacional, de extrema direita, tenha um amplo apoio nos inquéritos da França?

A extrema direita sempre teve apoio na França. Mas acho que sempre será minoritário. É verdade que pode ser um 15-17% dos votos, mas não acho que vá para além.

Não lhe assusta?

O que me escandaliza é o grau de abstenção das eleições. Isto mostra a necessidade de compromisso e espero que nas presidenciais cresça a esquerda na França e no resto da Europa.

A socialdemocracia é a culpada de deriva européia? Muitos dos seus votantes sentem-se enganados.

Agora mesmo a socialdemocracia é minoritária no Parlamento Europeu portanto não a podemos acusar desta deriva que você assinala. É a Europa liberal a que dominou. Por tanto, se conseguimos um reforço da socialdemocracia na Europa, iremos na boa direção.

Mas os recortes e reformas ultraliberais puseram-nas em marcha também os governos social-democratas. E disseram-nos que essas eram reformas necessárias, embora não gostassem. Não existe alternativa?

Claro que sim. A alternativa é uma democracia autenticamente social. O combate para os jovens é que no Partido Socialista prevaleçam ideias ambiciosas para que as reformas sejam globais.

O problema é que há um sentimento de fraude entre os jovens. A esta geração prometeram-lhe todo e só lhes ficou um salário mileurista e hipotecas. Por que este engano?

Sentem-se defraudados e frustrados. Por esta fraude há que atuar e se comprometer. Desde depois, os governos não têm estado à altura do que se esperava deles com os jovens. É difícil que um governo esteja à altura, mas o grande problema é que os governos hoje em dia são insuficientemente sociais.

Tem o capitalismo nos dias contados?

Se falamos do mercado capitalista, este sempre existirá. Mas também podemos falar de uma economia global e solidária e não baseada só no benefício económico. Esta será a economia em que deveria se apoiar um mercado regulado.
 
Enquanto na Europa existe essa desafeção política, observamos as revoltas dos jovens no mundo árabe. Como as valoriza?

O encontro extremamente importantes. De facto, podem animar aos jovens europeus. É um exemplo ver o valor dos jovens na Tunísia, Egipto. Estes movimentos dos jovens podem interessar muito na Europa, já que são o estímulo para as mudanças.

No seu livro fala da insurreção pacífica. Que lhe parece a intervenção das forças ocidentais em Líbia?

Estou muito feliz e orgulhoso de que esta intervenção em Líbia se tenha levado a cabo baixo os auspícios da resolução 1973 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que é um organismo moralmente responsável baseado na Carta Fundacional das Nações Unidas. Por tanto, esta focagem não é de uma intervenção militar contra Gadafi, senão uma intervenção para proteger aos insurgentes da violência de um ditador. É uma situação complicada, mas acho que há que atuar baixo a hégira de uma instituição mundial cujo objetivo não é a guerra senão a paz.

A situação pode enquistar-se e converter-se em um avispeiro como Iraque?

Esse risco está aí e seria uma pena que acontecesse. Mas não resulta fácil golpear sem que isso se perceba como uma agressão contra o governo árabe. O que me tranquiliza é que outros países como Qatar, Egipto, a Une Árabe estão na coalizão. Por tanto, não estamos a falar de países ocidentais contra países árabes, senão de uma coalizão contra um ditador.

Diz no seu livro que os meios de comunicação "estão dirigidos por gente pudente". Até que ponto são os meios responsáveis da indiferença ante o ataque das forças financeiras?

Não há que ser ingrato com os jornalistas, já que levam a cabo um trabalho muito importante. O problema é que os poderes financeiros tentam copar a cada vez mais espaço. A privatização dos meios públicos não é um bom sinal.