04/05/2012

Grécia: Austeridade falhou de forma espetacular

Tirado de Esquerda.net (aqui).



O economista e investigador grego Yanis Varoufakis disse à agência Lusa que as políticas de austeridade baseadas no memorando da ‘troika’ para a Grécia falharam porque assentaram num diagnóstico errado do problema.

“Como um doente no hospital, se o diagnóstico for errado os medicamentos não são apropriados, e utilizar esses remédios não vai curar o doente”, disse Varoufakis ao jornalista Pedro Caldeira Rodrigues, da Lusa, em vésperas das legislativas antecipadas de domingo.

O economista foi conselheiro do ex-primeiro-ministro George Papandreou entre 2003 e 2006, quando o Partido Socialista Pan-Helénico (PASOK) estava na oposição. Mas demitiu-se do cargo no final desse ano e hoje é conhecido na Grécia como um dos mais veementes críticos das políticas de austeridade impostas pelos credores internacionais.

“Desde maio de 2010, quando foi assinado o primeiro memorando ou plano de resgate, e até agora, prova-se que a Grécia é um país confrontado com uma tripla crise: crise de dívida, crise inflacionista e crise de investimento. Simplesmente, não pode cumprir os compromissos e reduzir o défice através da austeridade”, afirmou.

Crise sistémica

Varoufakis afirma que a crise é sistémica e por isso não pode ser resolvida separadamente, país a país. “Imaginemos que estamos em 1931 nos Estados Unidos. Seria possível lidar com a crise da grande depressão no Ohio, ou em New Jersey? Não. Tinha de se abordar a Grande Depressão de uma forma sistémica, porque se tratava de um problema sistémico. Neste caso, não se pode abordar o problema apenas numa parte da união monetária, e esquecer o resto”, sublinhou.

E acrescentou: “Uma das decisões catastróficas da Europa foi imaginar que podiam lidar com a crise na Grécia de uma forma separada do resto do espaço europeu, e depois dirigirem-se para Dublin e tentar resolver o problema, e depois deslocarem-se para Portugal, continuando a insistir que não se trata de uma crise sistémica, mas antes de crises localizadas. Que cada caso correspondia a uma crise local e que deveriam ser abordadas localmente. Essa abordagem falhou e vai continuar a falhar”.

Resultado será um governo frágil

Para o economista, a Grécia está neste momento “a entrar no período em que a Argentina entrou durante a sua crise e antes do incumprimento”, em 2001, “num contexto de crise política, com governos fracos”.

Em relação às eleições de domingo, arrisca: “Infelizmente, as eleições de domingo vão ter como resultado, e de novo, um governo frágil. Será inevitável uma nova coligação entre o PASOK e a Nova Democracia (ND), nenhum partido conseguirá garantir uma maioria parlamentar, mas a coligação que se perspetiva será tão má como a que tivemos desde novembro”.

Sondagens proibidas

A divulgação das sondagens está proibida a partir dos 15 dias anteriores às eleições, e por isso as expectativas em relação aos resultados de domingo são difusas. Há no entanto informações que apontam para o pânico entre as direções dos dois partidos que apoiam o atual governo, a Nova Democracia e o Pasok.

O mais provável é que a Nova Democracia seja o partido mais votado, mas com pouco mais de 20%. Pela lei grega, a formação política mais votada tem um “bónus” de 50 deputados para mais facilmente obter maioria parlamentar. Parece, porém, de todo improvável que mesmo com este bónus consiga a maioria. Nesse caso, seria necessário formar uma coligação com o Pasok, e assim se juntariam os dois partidos pró-troika. Mas, mesmo assim, não é certo que tenham os 151 deputados para assegurar a maioria no Parlamento.

Por outro lado, as sondagens registam que os três principais partidos da esquerda, Syriza, comunistas (KKE) e Esquerda Democrática terão, juntos, mais de 30%. O partido mais votado da esquerda pode ser chamado a formar governo, se nem a ND nem o Pasok conseguirem formar um governo maioritário. O Syriza tem defendido um governo que cancele as medidas de austeridade, negoceie uma reestruturação e redução da dívida, adote uma política de crescimento e proponha uma reforma da União Europeia.. Um governo semelhante teria de contar com os restantes partidos da esquerda e o apoio da mobilização popular, defende o líder do Syriza, Alexis Tsipras.

Há que levar em linha de conta, ainda, com os Gregos Independentes, a direita anti-austeridade, formada pelo setor da ND que foi expulso por ser contra o memorando da troika, e a extrema-direita assumidamente fascista que poderá entrar pela primeira vez no Parlamento.
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