25/04/2013

Emerge uma nova esquerda

Daniel Bensaïd (1946-2010). Artigo tirado de Le site Daniel Bensaïd (aqui) e traduzido por À revolta entre a mocidade Publicado em El País, na segunda-feira 2 de noviembre de 2009.




As recentes eleições alemãs e portuguesas confirmaram a emergência em vários países da Europa de uma nova esquerda radical. Na Alemanha, Die Linke obteve o 11,9% dos sufragios e 76 deputados no Bundestag. Em Portugal, o Bloco de Esquerda atingiu um 9,85% e dobrou a sua representação parlamentar com 16 deputados. Esta nova esquerda surgiu no final dos anos noventa com a renovação dos movimentos sociais e o auge do movimento alter-mundialista.

A novidade reside no seu avanço eleitoral, que não se limita a um país ou dois, senão que esboça uma tendência europeia (ilustrada, entre outros, pela Aliança Vermelha e Verde na Dinamarca, Syriza na Grécia ou o Novo Partido Anticapitalista na França), ainda frágil e desigual, segundo os diferentes sistemas eleitorais. Por exemplo, o NPA e a Frente de Esquerdas têm na França um potencial acumulado de aproximadamente um 12%, mas não contam com nenhum parlamentar eleito, devido a um sistema uninominal a duas voltas que exclui toda representação proporcional e favorece o "voto útil" como mau menor.

Vários fatores explicam este fenómeno e, antes de mais nada, o afundimento ou o retrocesso dos partidos social-democratas e comunistas que estruturaram desde faz meio século a esquerda tradicional.

Os partidos comunistas, que se tinham identificado com o "campo socialista" e com a União Soviética, desapareceram ou viram dissolver-se a sua base social, a exceção relativa da Grécia e Portugal. Quanto à socialdemocracia, ao acompanhar e impulsionar as políticas liberais no enquadramento dos tratados europeus, contribuiu ativamente a desmantelar o Estado social do que obtinha a sua legitimidade. Baixo pretexto de "renovação", de "terceira via" e de "novo centro", tem-se metamorfoseado ademais em formação de centro esquerda, a semelhança do Partido Democrata italiano. À medida que os seus vínculos com o eleitorado popular debilitavam-se, reforçava-se a sua integração nos meios de negócios. O passo de Schröder ao conselho de administração de Gazprom, e a promoção de duas "socialistas" franceses (Dominique Strauss-Kahn e Pascal Lamy) à cabeça do FMI e da OMC simbolizam essa transformação de altos dirigentes socialistas em homens de confiança do grande capital. Paladina da "economia social de mercado" e do compromisso social, a socialdemocracia alemã já pagou pelisso, ao registar nas eleições do 27 de setembro uma perda de 10 milhões de eleitores em 10 anos.

Enquanto esta esquerda do centro a cada vez distingue-se menos da direita do centro, cresceu depois da queda do muro de Berlim uma nova geração que não conhecerá mais que as guerras quentes imperiais, as crises ecológicas e sociais, o desemprego, e a precariedade. Uma minoria ativa destes jovens retoma o gosto pela luta e a política, mas mantém a sua desconfiança ante os jogos eleitorais e os compromissos institucionais. Ao recusar um mundo inmundo sem chegar a conceber "o outro mundo" necessário, esta radicalidad pode tomar direções diametralmente opostas : a de uma alternativa claramente anticapitalista, ou a de um populismo nacionalista e xenófobo (a Frente Nacional na França, o National Front em Reino Unido), e inclusive a de um novo nihilismo. No entanto, é alentador constatar que o electorado de Die Linke, como o de Olivier Besancenot nas eleições presidenciais francesas de 2007, se caracteriza por ter um componente jovem, precário e popular, proporcionalmente superior ao dos outros partidos.

No entanto, a nova esquerda não constitui uma corrente homogénea reunida em torno de um projeto estratégico comum. Inscreve-se mais bem em um campo de forças polarizado, de um lado, pela resistência e os movimentos sociais, e do outro, pela tentação da respetabilidade institucional. A questão das alianças parlamentares e governamentais já é para esta esquerda uma verdadeira prova para valer. Rifundazione Comunista, que ainda ontem aparecia como o navio insígnia desta nova esquerda europeia, se suicidou ao participar no Governo Prodi sem impedir a volta de Berlusconi. Bem mais lá das táticas eleitorais, estas opções revelam uma orientação que Oskar Lafontaine resume com acerto : "Fazer pressão para restaurar o Estado social".

Por tanto, não se trata de construir pacientemente uma alternativa anticapitalista, senão de "fazer pressão" sobre a socialdemocracia para salvar dos seus demónios centristas e fazê-la voltar a uma política reformista clássica dentro do enquadramento da ordem estabelecida. Quanto a "restaurar o Estado social", para isso faria falta começar por romper com o Pacto de Estabilidade e o Tratado de Lisboa, reconstruir uns serviços públicos europeus e submeter o Banco Central Europeu a instâncias eleitas. Em resumem, fazer exactamente o contrário do que fizeram os governos de esquerdas durante os últimos 20 anos e seguem fazendo quando estão no poder. A moderação da socialdemocracia ante a crise económica e a sua declaração comum durante as últimas eleições europeias demonstram que a sua sometimento aos imperativos do mercado não é reversível.

Em mudança, no dia após as eleições portuguesas, Francisco Louça, o deputado que coordena o Bloco de Esquerda, recusou os cantos de sirena governamentais, ao declarar rotundamente que a sua formação estaria "na oposição", na contramão das privatizações anunciadas, do desmantelamento dos serviços públicos e do novo código de trabalho ; por tanto, na oposição do Governo Sócrates. Esta opção também está no coração das divergências entre o NPA de Olivier Besancenot, que recusa toda a aliança de governo com o Partido Socialista, e o Partido Comunista francês, claramente comprometido com a perspectiva de reconstruir a "esquerda plural", cujo governo conduziu ao desastre de 2002 com Lhe Pen na segunda volta das eleições presidenciais.

Estas duas opções atravessam, sem dúvida, a maioria dos partidos da nova esquerda e, em concreto, Die Linke, cuja coalizão com o SPD, já muito discutida na Câmara municipal de Berlim, tenderia a se generalizar como parece o anunciar a aliança travada ultimamente no land de Brandenburgo.

Deste modo, esboça-se a opção estratégica à que ver-se-á confrontada a nova esquerda. Ou bem se contenta com um papel de contrapeso e pressão sobre a esquerda tradicional privilegiando o terreno institucional ; ou bem favorece as lutas e os movimentos sociais para construir pacientemente uma nova representação política dos explodidos e oprimidos. Isto não exclui de nenhum modo que procure a mais ampla unidade de ação com a esquerda tradicional, na contramão das privatizações e as deslocalizações  e a favor dos serviços públicos, a proteção social, as liberdades democráticas e a solidariedade com os trabalhadores imigrados e sem papéis. Mas isto exige uma independência rigorosa com respeito a uma esquerda que gere lealmente os assuntos do capital, a risco de fazer aborrecer a política às novas forças emergentes.

A crise social e ecológica está ainda nos seus inícios. Para além de possíveis recuperações ou melhorias, o desemprego e a precariedade manter-se-ão em uns níveis muito elevados e os efeitos da mudança climática seguirão agravando-se. Efetivamente, não estamos ante uma crise como as que conheceu frequentemente o capitalismo, senão ante uma crise da desmesura de um sistema que pretende quantificar o incuantificável e dar uma medida comum ao inconmensurável. É provável que estejamos, por tanto, ao princípio de um seísmo, com recomposição e redefinições, do que sairá uma paisagem política dentro de uns anos totalmente recompuesto. Há que se preparar para isso e não sacrificar o surgimento de uma alternativa em médio prazo por operações de politiqueio e hipotéticos ganhos imediatos que trazem amargas desilusões.
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