01/05/2013

A distância que separa a necessidade da fraude é muito pequena. Sobre a "ciência" falsária e outras pragas


Daniel Raventós. Artigo tirado de SinPermiso (aqui) e traduzido por À revolta entre a mocidade.


Não é infrequente que pessoas inteligentes dêem crédito a coisas extremamente estúpidas. Ou, em outras palavras, que pessoas inteligentes e cultas, algo que não sempre e em todo o local vai da mão, façam uso da homeopatia, utilizem ímanes nos seus sapatos para extrair energia do nosso planeta, se atem pulseiras que atraem "energias" benéficas, achem que os azeites omega-3 originários do peixe melhoram a inteligência, ou estejam convencidas de que os varões terão no ano 3000 uns penes notavelmente maiores, por pôr cinco possibilidades de uma lista que desgraçadamente é muito longa. Porque longa é a lista de ciência vudú. Com estas duas últimas palavras, o catedrático de Física da Universidade de Maryland Robert L. Park refere-se a todas estas variedades da impostura: "ciência patológica, ciência lixo, pseudociência e ciência fraudulenta."

Ben Goldacre [1] é médico psiquiatra e autor da coluna semanal em The Guardian que leva por título Bad Science. Precisamente este é o título que elegeu para o seu livro (Paidós, 2011): Má ciência. Trata-se de um livro de quase 400 páginas e realmente recomendável para toda a pessoa de esquerdas interessada em aprofundar o conhecimento a respeito dos múltiplos e lucrativos fraudes que, às vezes em nome das ?ciências alternativas? ou diretamente e de forma falsaria em nome da ?ciência?, espreitam ao nosso arredor. Quiçá também possa interessar a uma pessoa de direitas que queira aprofundar o mencionado conhecimento, mas sem dúvida que não sentir-se-á cómoda com muitas das afirmações de Goldacre como esta:

"Em Kentish Town, uma área principalmente operária, a média da expectativa de vida é 70. A duas milhas de distância encontra-se Hampstead. A média da expectativa de vida ali é 80. No entanto, podes ir andando de um sítio a outro em meia hora. Isto é uma desigualdade fenomenal. O tratamento que fazem a média dos temas de saúde é muito de direitas e individualista. Trata-se do doente que merece sê-lo - és o que comes. É o eco de velhas e perniciosas ideias a respeito do pobre que se merece sê-lo".

Ou esta outra:

"Quem leva aos nossos ecrãs o problema da desigualdade social como fator das desigualdades na saúde?"

Ben Goldacre está, segundo confessa, muito habituado a revisar ensaios médicos. Por esse motivo também está muito treinado em destetrar erros em ditos ensaios, bem como exageros, minimização de riscos, etc. Especialmente preocupantes são aqueles casos completamente inúteis por ter ignorado algum, vários ou todos os requisitos necessários para que um ensaio resulte minimamente correto. Há técnicas conhecidas para avaliar a qualidade destas práticas. Assim, a muito utilizada Escala Jadad valoriza de 0 ao 5 o cumprimento ou não de sete pontos do tipo: "Descrevem os autores o método que utilizaram de aleatorizaçao?", "Utiliza o método duplo cego? (método que se emprega em ciência para evitar ou previr resultados que podem estar influídos pelo efeito placebo)", etc. Quanto mais cerca do 5 esteja um ensaio, maior qualidade do mesmo. Se está próximo de 0 trata-se de um ensaio muito deficiente e que dificilmente pode se contribuir de crédito para algo. A metaanálise, um método muito valorizado mediante o qual se agrupam todos os ensaios levados a cabo sobre um tema e se realizam determinadas operações, é especialmente útil quando teve bastantes ensaios, mas que tomados por separado são pouco concludentes. 

Em homeopatia, quando se realizaram metaanálises, a conclusão é meridiana: "a homeopatia não é melhor que o placebo". Dito de outra maneira, é atirar completamente o dinheiro investido em qualquer remédio homeopático. Quiçá seja útil recordar  que quando um remédio homeopático leva a indicação "30C" completaram-se 30 rondas de diluição  o que significa que contém menos de uma parte por milhão da substância original, o que significa à sua vez uma diluição de 1060, sim um 1 seguido de 60 zeros. É uma quantidade tão elevada que não estamos dotados para nos fazer facilmente uma verdadeira ideia. Goldacre ajuda-nos: "[I]magínense uma esfera de água com um diâmetro de 150 milhões de quilómetros (a distância da Terra ao Sol). Demoram-se oito minutos luz em percorrer esta distância. Pois bem, pensem em uma esfera de água desse tamanho com uma só molécula de outra substância nela: isso é uma dilución de 30C." Realmente seria de 30,89C, como o mesmo Goldacre puntualiza, "para os mais rigorosos". O grande mago e desenmascarador de fraudes supostamente científicos, James Randi, faz tempo que oferece um milhão de dólares (um milhão de dólares!) a quem "distinga de maneira fiável um preparado homeopático de um não homeopático usando o método que deseje." Ninguém reclamou a recompensa...

Embora a homeopatia ocupa bastantes páginas de Má ciência, também são minuciosa e despiadadamente derrubados outros casos de ciência vudú como a suposta correlação entre a vacina triplo vírica e o autismo, a libertação de toxinas em capachos de água, a gimnásia cerebral (exercícios físicos complexos que "potenciam a experiência do conjunto da aprendizagem cerebral") e um longo etcétera. Com bom critério, Goldacre não se centra em exemplos de ciência vudú (cabe recordar que não é uma expressão sua) marginais, senão em casos que em um ou outro país, ou em vários, gozaram de muita popularidade e, pelisso mesmo, movem muitos milhares de milhões de euros.

O autor de Má ciência teve que escutar de boca de muitos impostores que "está ao serviço da medicina oficial"[2] e das "multinacionais farmacêuticas". Era de esperar, claro. Mas nesse caso as acusações estão tão mau dirigidas e mau fundamentadas que são simples calunias. Goldacre dá muitas conferências a estudantes e profissionais da medicina. Precisamente, um dos seus títulos preferidos é "As andrómenas das farmacêuticas?. Em Má ciência podemos encontrar dados e informações interessantíssimos sobre a prática das farmacêuticas. Por exemplo: sobre como chega um fármaco ao mercado, como se inventam novas doenças, como se ocultam os efeitos secundários dos ensaios, como publicam repetidamente em diferentes revistas os resultados dos ensaios (assim é mais difícil detetar que se trata do mesmo ensaio e de não em media dúzia ou mais), como produzem os grandes sesgos de publicação de ensaios, como tentaram proibir a publicação de dados não favoráveis, etc. etc. Mas que as farmacêuticas cometam uma multidão de irregularidades quando não diretamente atentados à saúde pública, não significa ter que passar ao que muitos charlatões nos oferecem "a mudança". Não é a ciência vudú que contribuirá a impedir as barbaridades das farmacêuticas senão "entender um pouco o funcionamento da evidência empírica".

O tratamento jornalístico de determinados fraudes também não sai muito bem parado no trabalho de Goldacre. Quando se trata de notícias espetaculares (normalmente fraudes como se descobre tempo depois) relacionadas com a ciência, não são os jornalistas científicos os dedicados às tratar senão os jornalistas generalistas que habitualmente têm uma preparação científica nula, mas que lhes custa admitir semelhante evidência. Recordemos que Goldacre escreve regularmente em The Guardian  e conhece de primeira mão os meios de comunicação. Quem escreve sobre números "tem também a responsabilidade dos entender". E muitos jornalistas não os entendem. Por exemplo, a má interpretação do fenómeno conhecido como "regressão à média" [3]. Ou pior se cabe: há pessoas que não podem entender que existam poucas probabilidades de um acontecimento e que acabe finalmente acontecendo. Isto pode fazer suspeito a alguém que desgraçadamente não tem nada que ver com um assunto determinado, como se documenta também no livro. É muito difícil que a alguém lhe toque a lotería, mas a cada semana lhe toca a alguém. Ou dito com as palavras do grande físico Richard Feynman:

"Sabem uma coisa? Esta noite ocorreu-me algo do mais espantoso. Vinha para aqui, de caminho à conferência, e cruzei por no meio do estacionamento. E não se vão achar o que aconteceu: vi um carro com a matrícula ARW 357. Imaginam-se? De todos os milhões de matrículas que há em todo o Estado, que probabilidades tinha de que eu visse essa designadamente esta noite? Incrível...".

Esta parte do livro é especialmente instructiva.

O livro tem como subtítulo: Não te deixes enganar por curandeiros, charlatões e outros farsantes. São quase 400 páginas dedicadas a denunciar alguns desses enganos.

 Notas originais do autor:
[1] Autor do que publicamos um artígo e uma entrevista em Sin Permiso:

[2] Recomendo o divertido, magnífico e moi serio vídeo de Tim Minchin:
http://www.youtube.com/watch?v=3CqQvIZ_tnE&feature=youtu.be Lá podemos escutar afirmações do teor: “¿Sabem como se chama a medicina alternativa que funciona? Chama-se medicina”.

[3] Entende por “regresión a la media” aquele fenómeno pelo qual “cuando las cosas se hallan en sus puntos extremos, lo más probable es que estén a punto de iniciar el camino de vuelta hacia un punto medio”. Depois de visitar a um homeopata (ou a um telepata ou a um dispensador de “ energias” ou a um vaia você saber quem) por ter uma dor de costas, pode que remeta a grande moléstia  Muito possivelmente esta dor ia a remitir por “regresión a la media”. Ou, por outras palavras, não captamos a mencionada “regresión a la media” e equivocamo-nos de causativo. 
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