14/06/2013

Atenas resiste ao encerramento da televisão pública

Tirado do portal Esquerda.net (aqui).  "As emissoras públicas só saem do ar por duas razões: invasão por forças estrangeiras ou golpe de estado", afirmou Alexis Tsipras

Os transportes e serviços públicos gregos estão paralisados pela greve geral contra o fim da ERT. Apesar da chuva, mais de 100 mil pessoas manifestaram-se em frente à sede da estação. A decisão do primeiro-ministro só conta com o apoio do seu partido e dos neonazis da Aurora Dourada. Com uma crise política à vista, o Governo ameaça agora os operadores privados que retransmitem a programação que continua a ser assegurada pelos jornalistas e trabalhadores da estação.
Mais de cem mil pessoas concentraram-se em frente à sede da ERT em dia de greve geral contra o fim da emissora pública. Foto Alexsandros Vlachos/EPA
Com o fim do sinal de transmissão da ERT, os cidadãos gregos deixaram também de ter acesso aos restantes canais emitidos através da rede de serviço público, como o canal Parlamento, mas também aos canais de informação internacionais Deutsche Welle ou a TV5 francesa. Os trabalhadores e jornalistas continuam no edifício sede da televisão pública grega a assegurar a transmissão 24 horas por dia. E contam com a preciosa ajuda da União Europeia de Radiodifusão, que através dos seus satélites permite a retransmissão do sinal pelas outras televisões e rádios regionais em solidariedade com a ERT.
O presidente da UER, Jean-Paul Philippot, afirma que o encerramento do serviço público de tv de um dia para o outro pelo Governo de Antonis Samaras representa "o pior tipo de censura", depois do governo grego  "ter mandado a polícia cortar a emissora e impedir os jornalistas de fazerem o seu trabalho". 
E de facto, as últimas palavras do Governo não escondem essa censura, com o anúncio de que todas as estações de televisão e rádio que estão a retransmitir a emissão dos trabalhadores da ERT arriscam a perder as suas licenças. O sinal da televisão 902 TV, propriedade do Partido Comunista (KKE), já foi cortado pela empresa que controla a transmissão digital na Grécia e o ministro das Finanças, que assumiu a liderança da gestão da ERT, ameaçou a Rádio Kokkino, propriedade do Syriza, com intervenção da polícia se não silenciarem a retransmissão que é feita desde o corte do sinal da tv pública.
Crise política à vista
A revolta dos gregos com o encerramento súbito do serviço público de informação provocou a greve geral desta quinta-feira, convocada pelas principais centrais sindicais, com várias manifestações a convergirem para a sede da ERT, ameaçada com uma invasão policial. Os transportes estão parados, bem como a generalidade dos serviços públicos, enquanto os controladores aéreos anunciaram uma greve parcial durante a tarde.
Os 71 deputados do Syriza decidiram organizar-se em turnos de três horas para assegurarem dia e noite a proteção da sede da televisão pública do ataque policial. "As emissoras públicas só saem do ar por duas razões: invasão por forças estrangeiras ou golpe de estado", afirmou Alexis Tsipras dirigindo-se aos manifestantes à porta da ERT.
O principal partido da oposição marcou para a próxima segunda-feira um comício pela democracia. Segundo Yiannis Bournous, dirigente do Syriza, este comício intitulado "O regresso à Praça Syntagma" assinalará "o princípio do fim deste governo neofascista". 
Esta decisão do governo de Samaras sobre a ERT conta apenas com o apoio da Nova Democracia e dos neonazis da Aurora Dourada. Os parceiros de coligação de Samaras - o PASOK e a Esquerda Democrática - dizem-se contra o encerramento da ERT, mas não avançaram com nenhum cenário de rotura do atual governo da troika. Aos seus pedidos para uma reunião urgente com o primeiro-ministro, Samaras respondeu agendando o encontro para o início da próxima semana.
Com o despedimento de quase 2700 trabalhadores da emissora pública, o primeiro-ministro grego pretende cumprir, quase de uma penada, as metas assumidas pelo governo de coligação ND/PASOK/ED com a troika sobre despedimentos no setor público. A Comissão Europeia diz que não impôs esta medida ao governo de Atenas, mas também não condenou o corte da emissão da ERT.
Entretanto, sucedem-se algumas notícias e episódios sobre a forma como o governo tem lidado com a situação. Um dia depois de anunciado o nome da futura televisão grega (NERIT), alguém registou o domínio nerit.gr, que agora retransmite também a emissão da ERT. Agora ou o Governo muda o nome da estação ou terá de registá-lo noutro domínio, se não quiser pagar uma fortuna a quem o registou primeiro… 
O blogue Keep Talking Greece refere que volta a circular na imprensa grega a lista de assessores da ERT que o Governo contratou há poucos meses. Os contratos referem-se ao período após a mudança de tutela da empresa, com o novo ministro a permitir a contratação de dezenas de assessores. Os salários acordados foram sempre acima de dois mil euros, no caso das secretárias, e de quatro mil para outros assessores. Uma situação que não é estranha numa empresa que sempre foi colonizada com os boys da Nova Democracia e do Pasok.
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