06/07/2013

Rosa Luxemburgo, a antítese do comunismo totalitario

Artigo tirado de aqui


Lendo os textos de Rosa Luxemburgo pode-se apreciar em que medida se opõem ao espírito totalitario que caracterizou o comunismo nascido na revolução russa de 1917. Uma crítica lúcida ao desenvolvimento do socialismo de Estado não pode se limitar a Estaline, como tantas vezes se faz, senão começar com Lenine e Trotski. O militarismo prusiano assassinou de forma canalla, na noite do 15 de janeiro de 1919, tanto a Luxemburgo como ao seu colega Karl Liebknecht, duas destacadas figuras do movimento socialista alemão de começos do século XX. Rosa Luxemburgo nasceu em 1871 na região polaca de Galitzia, no seio de uma rica família judia, e aos 18 anos já tem que abandonar o país pela sua atividade revolucionária. A partir de 1896, Alemanha converte-se no centro da sua militancia; em 1905, participará na tentativa revolucionária russo daquele ano, pelo que esteve cativa em uma fortaleza em Varsóvia. Se militou durante certo tempo no Partido Social-democrata Alemão, em 1914 desenganaria-se pela traição cometida a causa-a operária e fundou o "Grupo Internacional", que transformar-se-ia depois na Liga Espartaquista e mais tarde, no final de 1918, no Partido Comunista da Alemanha.

Muitos viram em Rosa Luxemburgo uma figura, além de muito importante para o socialismo revolucionário, íntegra e exenta do autoritarismo de Lenine e outros marxistas. Tal e como se expressou, o comunismo desejado por esta mulher é a antítese do desenvolvido a nível internacional ao longo do século XX. Por um lado, Luxemburgo viveu em uma época em que a socialdemocracia alemã estava a começar a converter a doutrina de Marx em um foco de revisionismo e reformismo; esta autora distanciou-se dessas correntes oportunistas em infinidade de artigos, plasmados depois na obra Reforma social ou revolução. Não obstante, nesses textos Luxemburgo faz gala de certa ortodoxia marxista que redundaba no sectarismo, o qual lhe conduzia a não reconhecer outro socialismo que não fosse o do seu mestre. Nesse momento, ainda se quer ver a revolução proletária como uma necessidade dependente das condições económicas, tal e como formulou Marx em  O Capital; se mais tarde reivindicará, de forma mais lúcida, a luta sindical e a espontaneidade operária, nesse momento para ela são assuntos menores. Segundo esta visão, se subordinava a classe trabalhadora ao partido, algo que Lenine depois levaria até as últimas consequências; fazemos questão de que mais tarde Luxemburgo apartar-se-á desta postura elitista.

A experiência revolucionária de 1905 fá-lhe-á mudar de opinião e redige em um ano mais tarde a brochura Greve de massas, partido e sindicatos; ela mesma reconhecerá que a sua opinião sobre a greve geral se tinha convertido em obsoleta (recordemos que Engels já tratou de ridiculizar, em um panfleto contra Bakunine de 1873, a greve geral como método revolucionário). Luxemburgo reivindica agora o que já estava a fazer o sindicalismo revolucionário de influência anarquista, na França e em general nos países latinos, desde finais do século XIX. Não obstante, a autora segue depositando em última instância no Partido Social-democrata os interesses do proletariado; apesar disso, existe uma forte reivindicação do carácter popular e espontâneo de toda situação revolucionária e uma crítica a toda a organização "desde acima". Em definitiva, Luxemburgo, em uma fase de maduraçao do seu pensamento, concede à massa trabalhadora uma grande capacidade criadora e revolucionária, e de maneira implícita negam-se algumas conceções de Marx e Engels em questões de estratégia e realiza-se uma crítica antecipada à visão leninista da revolução como uma férrea disciplina organizada no partido.

Já em 1904, Luxemburgo criticaria o ultrancentrismo de Lenine, que considerava animado por um espírito policial, e lhe acusava de introduzir os esquemas conspirativas herdados de Blanqui na socialdemocracia russa; a autora faz ver aqui, já de maneira inequívoca, a sua repugnancia pela excessiva centralização e pela hegemonía de uma elite profissional de revolucionários. Com a revolução bolchequive, denunciará com força o cesarismo imposto por Lenine e Trotski às massas russas; os três pontos básicos que criticou foram a supressão da democracia, a reforma agrária e o problema das nacionalidades, por suposto desde uma ótica revolucionária. O programa de une-a Espartaquista dirá o seguinte: "O carácter da sociedade socialista consiste no facto de que a massa operária deixa de ser uma massa dirigida e se converte no próprio protagonista da vida político-económica, que passa a dirigir ela mesma em consciente e livre autodeterminação"; segundo este programa, o Estado em todos os seus níveis é substituído pelos órgãos dos trabalhadores. Em frente ao centralismo e jerarquización bolcheviques, Luxemburgo aboga por uma socialismo descentralizado, proletario e radicalmente horizontal; os pontos em comum com o anarquismo são inegáveis, apesar de que se manejam ainda certos conceitos marxistas discutíveis. Outra feição louvável de Luxemburgo é a sua rejeição do terror revolucionário, o seu desprezo absoluto do crime como médio para atingir objetivos revolucionários.

Rosa Luxemburgo é talvez a primeira figura revolucionária, dentro do campo marxista, que pôs em questão as teses do maestro desde posições netamente socialistas e com intenções científicas; assim ocorre na obra A acumulação do capital, escrita em 1912. A ortodoxia marxista recebeu com hostilidade um livro que refutaba algumas das teses expostas no capital; assim, se Marx achava que o capitalismo estava abocado uma catástrofe final, pela imposibilidad do proletariado de absorver a produção, Luxemburgo pensa que a crise produzir-se-á porque as possibilidades de expansão e de exploração das zonas subdesarrolladas serão a cada vez menores e a luta entre os países capitalistas irá a pior. Embora a tese de Luxemburgo, como é lógico, tenham que ser postas ao dia, supõem um avanço com respeito ao predito por Marx e antecipa lucidamente a expansão imperialista do capitalismo moderno. Dois anos após ter-se escrito a obra de Luxemburgo, estallaba a Primeira Guerra Mundial e confirmavam-se algumas das suas teses, a luta de interesses das grandes potências europeias pelas colónias e pelos mercados.
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