05/04/2011

Líbia: o justo e o injusto

Ignacio Ramonet. Traduçom para galego-português feita por nós. Original em castelhano aqui. Outras visons sobre o conflito aqui publicadas (é umha escolma nom estám todas): aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Umha opiniom dum dos gestores do blogue e tradutor desta entrada aqui. Boa leitura, melhor reflexom.

"Todos os povos do mundo que têm lutado pela liberdade têm exterminado ao fim aos seus tiranos."
Simón Bolívar.
.http://dulceetdecorumest.org/wp-content/uploads/2006/08/OneMansCollateralDamage.png.




Os insurgentes líbios merecem a ajuda de todos os democratas. O coronel Gadafi é indefendível. A coalizão internacional que o ataca carece de credibilidade. Não se constrói uma democracia com bombas estrangeiras. Por ser em parte contraditórias, estas quatro evidências nutrem verdadeiro mal-estar, designadamente no seio das esquerdas, com respeito à operação Amanhecer da Odisseia começada o passado 19 de março.

A insurreção das sociedades árabes constitui o maior acontecimento político internacional desde o derrube, na Europa, do socialismo autoritário de Estado em 1989. A queda do muro do Medo nas autocracias árabes é o equivalente contemporâneo da queda do muro de Berlim. Um autêntico terramoto mundial. Por produzir no área de maiores reservas de hidrocarburos do planeta, e no epicentro do "foco perturbador" do mundo (esse "arco de todas as crises" que vai do Paquistão ao Sahara Ocidental, passando por Irão, Afeganistão, Iraque, Líbano, Palestiniana, Somâlia, Sudão, Darfur e Sahel), a sua onda de expansão modifica toda a geopolítica internacional.

Algo se rompeu para sempre no mundo árabe o passado 14 de janeiro. Nesse dia, manifestantes tunesinos que desde fazia semanas reclamavam nas praças liberdade e democracia, conseguiram derrocar ao déspota Ben Alí. Começava o desgelo das velhas tiranias árabes. Em um mês depois, no Egito, coração da vida política árabe, um poderoso movimento de protesto social expulsava por sua vez do poder ao  general Mubarak. Então, como se de repente descobrissem que os regimes autoritários, desde Marrocos até Bahréin, fossem colosos com pés de areia, dezenas de milhares de cidadãos árabes se lançaram às praças gritando o seu fartazgo infinito dos ajustes sociais e das ditaduras (1).

A força espontánea destes ventos de liberdade surpreendeu a todas as chancelarias do mundo. Quando começaram a soprar sobre as ditaduras aliadas de Occidente (na Tunísia, Egipto, Marrocos, Jordânia, Arábia Saudita, Bahréin, Iraque, Yemen), as grandes capitais ocidentais, começando por Washington, Londres e Paris, sumiram-se em um prudente mutismo, ou alternaram declarações que revelavam o seu profundo mal-estar ante o risco de ver desaparecer aos seus "amigos ditadores" (2).

Bem mais surpreendente foi, durante esta primeira fase (de meados de dezembro em meados de fevereiro), o silêncio dos governos progressistas da América Latina, considerados por toda uma parte da esquerda internacional como o seu principal referente contemporâneo. Surpresa tanto maior já que estes Governos têm muito em comum com o movimento insurrecional árabe: chegava ao poder mediante as urnas, aupados por poderosos movimentos sociais (em Venezuela, Brasil, Uruguai e Paraguai) que, em vários países (Equador, Bolívia, Argentina), após ter resistido a ditaduras militares, também derrocava pacificamente a governantes corrutos.

Imediata devia de ter sido ali a solidariedade com as insurreções árabes, réplicas dos seus próprios levantamentos cívicos. Não o foi. E isso que o carácter esquerdista do movimento não oferecia dúvidas. O conhecido intelectual egípcio Samir Amin descreve-o assim: "As forças principais em movimento durante os meses de janeiro e de fevereiro eram de esquerdas. Demonstraram que tinham uma ressonância popular gigantesca pois chegaram a mobilizar a mais de quinze milhões de manifestantes em todo o Egipto! Os jovens, os comunistas, fragmentos das classes médias democráticas constituíram a coluna vertebral desse movimento" (3).

Apesar disso, teve que esperar ao 14 de fevereiro -ou seja três dias após a queda do odiado Mubarak e em um dia dantes do começo da insurreção popular em Líbia- para que, por fim, um líder latinoamericano qualificasse a rebelião árabe de "revolucionária" em uma declaração que explicava com lucidez: "Os povos não desafiam a repressão e a morte, nem permanecem noites inteiras protestando com energia, por questões simplesmente formais. Fazem-no quando os seus direitos legais e materiais são sacrificados sem piedade às exigências insaciáveis de políticos corrutos e dos círculos nacionais e internacionais que saqueiam o país" (4).

Mas quando, naturalmente, essa rebelião se estendeu aos Estados autoritários do mau chamado "socialismo árabe" (Argélia, Líbia, Síria), caiu de novo um pesado mutismo nas capitais do progresismo latinoamericano. Politicamente podia ainda se interpretar de duas maneiras: simples prolongamento do prudente silêncio que até então, globalmente, observava essas chancelarias com respeito a acontecimentos muito afastados dos seus principais centros de interesse;  ou expressão de um mal-estar político em frente ao risco de perder, no seu premo com o imperialismo, a aliados estratégicos...

Ante o perigo de que triunfasse esta segunda opção, vários intelectuais relevantes (5) avisaram de imediato que isso significaria algo impensável para Governos seguidores da mensagem universal do bolivarianismo. Porque seria afirmar que um relacionamento estratégico entre Estados é mais importante que a solidariedade com os povos em luta. O qual conduziria, mais tarde ou mais temporão, a fechar os olhos ante qualquer eventual atrocidade contra os direitos humanos (6). E neste caso o ideal solidário da revolução latinoamericana naufragaria no gelado oceano da Realpolitik.

No tabuleiro da política internacional, a Realpolitik (definida por Bismarck, o "chanceler de ferro" prusiano, em 1862) considera que os países se reduzem aos seus Estados. Jamais toma em conta às suas sociedades. Segundo ela, os Estados se movem só em função dos seus frios interesses e das suas alianças estratégicas (cuja finalidade essencial é a preservação do Estado, não a proteção da sociedade). Desde a paz de Westfalia em 1648, a doutrina geopolítica estabelece que a soberania dos Estados é intangível em virtude do princípio de não-injerência, e que um Governo, seja qual seja o modo em que chegou ao poder, tem total liberdade de fazer o que queira nos seus assuntos internos [Vid. este artigo de Noam Chomsky, aqui; nota do blogger].

Semelhante ideia da soberania -que segue sendo dominante- viu erosionada a sua legitimidade desde o final da Guerra Fria em 1989. E isso em nome dos direitos dos cidadãos, e de uma conceção mais ética dos relacionamentos internacionais. As ditaduras, cujo número se reduz de ano em ano, vão resultando a cada vez mais ilegítimas em critérios do direito internacional. E moralmente inaceitáveis porque, entre outros graves abusos, atiram as pessoas os seus atributos de cidadão.

Baseado neste razoamiento, desenvolveu-se nos anos 1990, o conceito de direito de injerência ou dever de assistência que conduziu, pese a aceitáveis pretextos de fachada, a desastres político-humanitários de grande envergadura em Cosova, Somália, Bósnia... E finalmente, baixo a condução dos neoconservadores estadounidenes, ao desastre total da guerra do Iraque (7).

Mas tão trágicos falhanços não interromperam a ideia de que um mundo mais civilizado deve ir abandonando uma conceção da soberania interna estabelecida faz quase quatro séculos em nome da qual poderes não elegidos democraticamente cometeram (e cometem) inúmeras atrocidades contra os seus próprios povos.

Em 2006, as Nações Unidas, na sua Resolução 1674, fizeram da proteção dos civis, inclusive contra o seu próprio Governo quando este usa armas de guerra para reprimir manifestações pacíficas, uma questão fundamental. Que modifica, pela primeira vez desde o Tratado de Westfália, -em matéria de direito internacional- a conceção mesma da soberania interna e do princípio de não-injerência. A Corte Penal Internacional (CPI), criada em 2002, vai em idêntico sentido.

E nesse mesmo espírito, muitos líderes latinoamericanos denunciaram com justa razão a passividade ou a cumplicidade de grandes potências democráticas ante os graves crimes cometidos contra a população civil, entre 1970 e 1990, pelas ditaduras militares em Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e tantos outros países mártires de Centro e Sulamérica.

Por isso surpreendeu que, quando em Líbia, a partir de 15 de fevereiro, começaram os protestos sociais pacíficas, imediatamente reprimidas pelas forças do coronel Gadafi com desmedida violência (233 mortos nos primeiros dias) (8), nenhuma mensagem de solidariedade com os civis reprimidos chegasse da América Latina. Nem também não ao estourar, o 20 de fevereiro, o "Tripolitaço": quando uns 40.000 manifestantes denunciaram a carestia da vida, a degradação dos serviços públicos, as privatizações impostas pelo FMI, e a ausência de liberdades.

Igual que durante o "Caracazo" do 27 de fevereiro de 1989 em Venezuela, essa insurreção tripolitana, retransmitida por dezenas de testemunhas oculares, estendeu-se como regueiro de pólvora por toda a capital, se multiplicaram as barricadas, ardeu a sede do Governo, as delegacias foram incendiadas, os locais da televisão oficial saqueados, o aeroporto ocupado e o palácio presidencial assediado. O regime líbio começou a esborralhar-se.

Em semelhantes circunstâncias, qualquer outro dirigente razoável entenderia que a hora de negociar e de abandonar o poder chegava (9). Não assim o coronel Gadafi. A risco de sumir ao seu país em uma guerra civil, o "Script", no poder desde faz 42 anos, explicou que os manifestantes eram "jovens aos que Al-Qaeda tinha drogado jogando-lhes píldoras alucinógenas no Nescafé"... (10).  E ordenou às Forças Armadas reprimir os protestos a canhonaços e com força extrema. O canal Al-Jazeera
mostrou os aviões militares ametralhando os manifestantes civis (11).

Em Bengasi, para defender-se contra a brutalidade da repressão, um grupo de protestatários assaltou um arsenal da guarnição local e apoderou-se de milhares de armas ligeiras. Vários destacamentos militares, enviados por Gadafi para sufocar em sangue o protesto, somaram-se, com tanques e armamento, à rebelião. Em condições muito desfavoráveis para os insurretos, começava a guerra civil. Um conflito imposto por Gadafi contra um povo que estava a pedir pacificamente a mudança.

Até esse momento, as capitais da América Latina progressista seguem silenciosas. Nem uma palavra de solidariedade, nem tão sequer de compaixão com os rebeldes civis que lutam e morrem pela liberdade.

Até que, o 21 de fevereiro, em uma tentativa de afastar qualquer acusação contra ela, a diplomacia britânica -cuja responsabilidade é central na reabilitação do coronel Gadafi a partir de 2004 na cena internacional- pela voz do ministro de Exteriores William Hague, anuncia que o líder líbio "poderia ter fugido do seu país e se estar a dirigir a Venezuela" (12).

É falso. E Caracas desmente-o rotundamente. Mas os meios de comunicação internacionais mordem a isca, e põem de imediato os focos sobre a conexão que o Foreign Office sugeriu. Minimizando os ostentosos recebimentos do ditador líbio em Roma, Londres, Paris ou Madrid, a imprensa mundial faz questão dos relacionamentos do "Script" com Caracas.  O próprio Gadafi cai na zelada e também menciona a Venezuela no seu primeiro discurso desde o começo dos protestos. Fá-lo para negar a sua fugida a esse país, mas isso dá pé a novas especulações sobre o "eixo Trípoli-Caracas". Gadafi acrescenta: "Os manifestantes são ratas, drogados, um complô de estrangeiros, de norte-americanos, da al-Qaeda e de loucos" (13).

Esta preguiçosa argalhada do "complô norte-americano" é retomada como argumento por vários dirigentes progressistas sul-americanos -Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, entre outros-, para expressar agora, a cada um ao seu modo, uma clara solidariedade com o ditador líbio (14) baixo os sofridos pretextos de que a "situação é confusa", que os "meios de comunicação mentem" e que "ninguém sabe quem são os rebeldes".

Nem uma frase de compunção para um povo sublevado contra um tirano militar que manda disparar contra os seus próprios cidadãos. Nenhuma alusão também não à famosa sentença do Libertador Simón Bolívar: "Maldito seja o soldado que volta as armas contra o seu povo", doutrina fundamental do bolivarianismo.

A imensidão do erro político sobrecolhe. Uma vez mais, uns governos progressistas concedem prioridade, em matéria de relacionamentos internacionais, a cínicas considerações estratégicas que se acham em perfeita contradição com a sua própria natureza política. Conduzir-lhes-á esse razoamento a expressar também o seu apoio a outro infrecuentável tiraninho local, Bachar Al-Assem, presidente da Síria, um país que vive baixo estado de alarme desde 1962 e cujas forças de repressão também não duvidaram em disparar com fogo real contra pacíficos manifestantes desarmados?

Relativo a Líbia, a única iniciativa latinoamericana positiva, foi a do presidente de Venezuela Hugo Chávez quem propôs, o 1 de março, o envio a Trípoli de uma Comissão internacional de mediação constituída por representantes de países do Sul e do Norte para tratar de pôr fim às hostilidades e negociar um acordo político entre as partes. Recusada por Seif al-Islão, o filho do "Guia", mas aceitada por Gadafi, esta importante tentativa de mediação será torpemente descartada por Washington, Paris, Londres e os próprios insurgentes líbios.

A partir daí, as chancelarias progressistas sul-americanas vão fazer questão do seu apoio a um perfeito alumiado. Faz, efetivamente, decénios que Muamar o Gadafi deixou de ser aquele capitão revolucionário que, em 1969, derrocou à monarquia, expulsou do seu país as bases militares estadounidenses e proclamou uma singular "República árabe e socialista".

Desde o final dos anos 1970, a sua errática trajetória e os seus delírios ideológicos (veja-se o seu disparatado Livro Verde) converteram-no em um ditador imprevisível, tornadiço e fachendoso. Semelhante àqueles tiranos loucos que América Latina conheceu no século XIX com o nome de "caudillos bárbaros" (15). Exemplos dos seus transtornos: a expedição militar de 3.000 homens que lançou, em 1978, em auxílio do sanguinário Idi Amín Dadá, outro demente presidente de Uganda... Ou a sua afição a um jogo erótico com garotas menores chamado "bunga bunga" que lhe ensinou ao seu sócio italiano Silvio Berlusconi... (16).

Gadafi jamais se submeteu a nenhuma eleição. Em torno da sua imagem estabeleceu um culto da personalidade que linda com o endeusamento. Na "massocracia" (Jamahiriya) líbia não existe nenhum partido político, só há "comités revolucionários". Tendo-se autoproclamado "Guia" vitálicio do seu país, o ditador considera-se acima das leis. Em mudança, o vínculo familiar é, segundo ele, fonte de Direito. Baseado em isso, por desejo, nomeou aos seus filhos para os postos de maior responsabilidade do Estado e os de maior rentabilidad nos negócios.


Depois da (ilegal) invasão do Iraque em 2003, temendo ser o seguinte da lista, Gadafi ajoelhou-se ante Washington, assinou acordos com a Administração de Bush, erradicou as suas armas de destruição em massa e indemnizou às vítimas dos seus atentados terroristas. Para comprazer aos "neocons" estadounidenses erigiu-se em um perseguidor de Osama Ben Laden e da rede Al-Qaeda. Estabeleceu também acordos com a União Européia para se converter em cancerbeiro retribuído dos emigrantes africanos. Pediu ingressar no FMI (17), criou zonas especiais de livre comércio, cedeu os jazigos de hidrocarburos às grandes transnacionais ocidentais e eliminou os subsídios aos produtos alimentícios de primeira necessidade. Iniciou o processo de privatização da economia, o que provocou um importante aumento do desemprego e agravou as desigualdades.

 O "Guia" protestou contra o derrocamento do ditador tunesino Ben Alí a quem considerava como "o melhor dirigente da história da Tunísia". Em matéria de inumanidade, as suas trasnadas são inúmeras. Desde o seu apoio a conhecidas organizações terroristas até a sua demonstrada participação em atentados contra aviões civis, passando pelo seu encarnizamento contra cinco inocentes enfermeiras búlgaras torturadas durante anos em prisão, ou o fusilamiento sem julgamento, no sinistro cárcere Abú Salim de Trípoli, em 1996, de um milhar de prisioneiros originários de Bengasi (18).

A atual revolta começou precisamente nessa cidade quando, o 15 de fevereiro, as famílias destes fuzilados, animadas pelos protestos nos países árabes, se jogaram à rua para exigir pacificamente a libertação do advogado Fathy Terbil quem, desde faz quinze anos, defende o direito a recuperar os corpos dos seus parentes executados (19). As imagens mostrando a brutalidade da repressão desta manifestação -difundidas pelas redes sociais e o canal Al-Jazeera- escandalizaram à população. Ao dia seguinte, os protestos tinham-se alargado em massa e estendido a outras cidades. Só em Bengasi, 35 pessoas foram assassinadas pela polícia e as milícias gadafistas (20).

Tão alto grau de ensanhamento contra a população civil (21) fez legitimamente temer, em meados de março, quando as hostes gadafistas começaram a cercar Bengasi, que se cometesse um banho de sangue. Em um discurso dirigido  "às ratas" dessa cidade, o "Guia" deixou muito claras as suas intenções: "Chegamos esta noite. Comecem a preparar-se. Ir-vos-emos sacar do fundo dos vossos armários. Não terá piedade" (22).

Em ajuda dos assediados líbios, que reclamavam a gritos ajuda internacional (23), deveriam ter ido em primeiro lugar os povos recentemente libertados da Tunísia e Egito. Era a sua responsabilidade principal. Mas lamentavelmente os Governos destes dois países não souberam estar à altura das circunstâncias históricas.

Nesse contexto de urgência, o Conselho de Segurança da ONU adotou, o 17 de março, a resolução 1973 que estabelece um regime de exclusão aérea em Líbia com o fim de proteger à população civil e fazer cessar as hostilidades (24). Liga Árabe dava o seu acordo preliminar. E, coisa excecional, a resolução foi apresentada por um Estado árabe: o Líbano (além de França e Reino Unido). Nem China, nem Rússia, que dispõem de direito de veto, se opuseram. Brasil e a Índia também não votaram na contramão. Vários países africanos pronunciaram-se a favor: África do Sul (a pátria de Mandela), Nigéria e Gabão. Nenhum Estado opôs-se.

Pode-se estar na contramão da estrutura atual de Nações Unidas, ou estimar que o seu funcionamento deixa muito que desejar. Ou que as potências ocidentais dominam essa organização. São críticas aceitáveis. Mas, por agora, a ONU constitui a única fonte de direito internacional. Nesse sentido, e contrariamente às guerras de Cosova ou do Iraque que nunca tiveram o aval da ONU, a intervenção atual em Líbia é legal, segundo o direito internacional; legítima, segundo os princípios da solidariedade entre democratas; e desejável, para a fraternidade internacionalista que une os povos em luta pela sua liberdade.

Poder-se-ia acrescentar que potências muçulmanas reticentes em um primeiro momento como Turquia acabaram por participar na operação.

Poder-se-ia recordar também que se Gadafi, como era a sua intenção, tivesse anegado em sangue a insurreção popular, enviaria um sinal de via livre aos demais tiranos da região. Alentando desse modo a esmagar eles também, sem miramentos, os protestos locais. Basta com observar que, assim que as tropas de Gadafi se aproximaram a sangue e fogo no meio da passividade internacional a Bengasi, os regimes de Bahréin e de Yemen não duvidaram já em disparar com fogo real contra os manifestantes pacíficos. Não o tinham feito até então. Mas apostaram à sua vez pelo imovilismo internacional.

A União Européia, designadamente, tem uma responsabilidade específica neste assunto. Não só militar. É menester pensar na próxima etapa de consolidação das novas democracias que vão ir surgindo nesta região tão vizinha. Apoiar a "primavera árabe" supõe assim mesmo o lançamento de um verdadeiro "Plano Marshall", ou seja, uma ajuda económica em massa "semelhante à que se ofereceu a Europa do Leste após a queda do muro de Berlim" (25).

Significa tudo isto que a operação Amanhecer da Odisseia não propõe problemas? Em absoluto. Em primeiro lugar, porque os Estados ou Organizações que a capitanea (Estados Unidos, França, Reino Unido, OTAN) são os "suspeitos habituais" implicados em múltiplas aventuras guerreiras sem a mínima abrangência legal, legítima ou humanitária. Embora desta vez os objetivos de solidariedade democrática parecem mais evidentes que os nexos com a segurança nacional dos Estados Unidos, cabe se perguntar desde quando lhes importou a estas potências a democracia em Líbia? Por isso carecem de credibilidade.

Segundo: existem outras injustiças nesta mesma região -o sofrimento palestiniano, a intervenção militar saudita em Bahréin contra a indefesa maioria chií, a desproporcionada brutalidade dos Governos de Iemen e da Síria...- ante as quais as mesmas potências que atacam a Gadafi fazem a vista grossa dando prova de uma dupla moral.

Terceiro: o objetivo deve ser o que fixa a resolução 1973, e só esse: nem invasão terrestre, nem vítimas civis. A ONU não deu licença para derrocar a Gadafi, embora bem parece que esse seja o objetivo final (e ilegal) da operação. Em nenhum caso esta intervenção deve servir de precedente para outras aventuras guerreiras contra Estados situados no ponto de olha das potências ocidentais dominantes.

Quarto: a história ensina (e o caso do Afeganistão demonstra-o) que é mais fácil entrar em uma guerra que sair dela. E quinto: o cheiro a petróleo de toda esta operação apesta. 

Os povos árabes estão sem dúvida sospesando o justo e o injusto da atual intervenção militar em Líbia. Na sua grande maioria apoiam aos insurgentes (embora siga-se sem saber bem quem são e embora se suspeite que vários elementos indesejáveis figuram no atual Conselho Nacional de Transição). Pelo momento, até finais de março, em nenhuma capital árabe produziram-se manifestações de rejeição à operação. Ao invés, como estimuladas por ela, novos protestos contra as autocracias intensificaram-se em Marrocos, Iemen, Bahréin... E sobretudo na Síria.

Obtida a zona de exclusão aérea e a salvo já a população civil de Bengasi, as duas principais exigências da Resolução 1973 estavam cumpridas no final de março. Embora outras demandas não o estavam ainda (a cessação o fogo por parte das forças gadafistas, e a garantia por estas de acesso seguro à ajuda humanitária internacional), a partir desse momento os bombardeios deveram cessar. Tanto mais quanto a OTAN, que não recebeu mandato internacional para isso, assumiu o 31 de março a liderança militar da ofensiva. A Resolução também não autoriza a armar, treinar e dirigir militarmente aos rebeldes. Porque isso supõe um mínimo de forças estrangeiras ("comandos especiais") presentes no solo líbio, o qual está explicitamente excluído pela resolução 1973 do Conselho de Segurança.

É urgente que os membros desse Conselho da ONU voltem agora a se consultar; que se tenha em conta a posição da China, Rússia, a Índia e Brasil para impor um alto o fogo imediato e procurar uma saída não militar ao drama líbio.

Uma solução que tome em conta também a iniciativa da União Africana, garanta a integridade territorial de Líbia, impeça toda invasão terrestre de forças estrangeiras, preserve as riquezas do subsolo contra a rapacidade de algumas potências foráneas, ponha fim à tirania, e reafirme a aspiração à liberdade e à democracia dos cidadãos.

Em Líbia, só uma saída política negociada por todas as partes será justa.

Notas do texto original:

(1) Vid. Ignacio Ramonet, “Cinco causas de la insurrección árabe”, Le Monde diplomatique en español, março de 2011.

(3) Christophe Ventura, "Entrevista con Samir Amin", Mémoire des luttes, París, 29 de março de 2011.
 
(4) Fidel Castro, "La Rebelión Revolucionaria en Egipto", Granma, La Habana, 14 de febrero de 2011.
 
(5) Vid, por exemplo, Santiago Alba e Alma Allende, "Del mundo árabe a América Latina", Rebelión, 24 de fevereiro de 2011; w Atilio Borón, "No abandonar a los pueblos árabes", Página 12, Buenos Aires, 7 de março de 2011.

(6) Erro que já cometeu por duas vezes a revoluç
ão cubana quando apoiou a intervenção militar do Pacto de Varsôvia em Praga para esmagar a insurreção popular checoslovaca em agosto de 1968, e quando aprovou  invasão do Afeganistão pela União Soviética em dezmbro de 1979.

(7) Vid. Ignacio Ramonet, Irak, historia de un desastre, Debate, Madrid, 2005.
 
(8) Agência Reuters, 21 de fevereiro de 2011.
(9) Em América Latina, ante protestos populares de grande envergadura, vários presidentes (eleitos democraticamente) resignaram-se a renunciar a seu cargo. Três deles em Ecuador: Abdalá Bucarán, "por incapacidade mental", em  1997; Jamil Mahuad, em 2000; e Lucio Gutiérrez, em 2002. Dous em Bolívia: Gonzalo Sánchez de Lozada, em 2003; e Carlos Mesa, em 2005. Um em Perú, Alberto Fujimori, em 2000. E um outro na Argentina, Fernando de la Rúa, em 2001.
 
(10) El País, Madrid, 24 de março de 2011.

 (11) The Guardian, Londres, 21 de febrero de 2011.
 
(12) Agencia AFP, 21 de fevereiro de 2011.
 


(14) O mais antiimperialista dos líderes árabes, Hassan Nasrallah, secretário geral do Hezbolá libanês,  declarou  que é "irracional" dizer que as revoluçoes árabes, e singularmente a líbia (que conta também com o apoio do Ir
ão), foram preparadas em cozinhas estadounidenses. Discurso do Hassan Nasrallah, 19 de março de 2011. http://www.rebelion.org/mostrar.php?tipo=5&id=&inicio=0

(15) Alcides Arguedas, Los Caudillos bárbaros, editorial Vda L. Tasso, Barcelona, 1929. Veja-se também Max Daireaux, Melgarejo, Editorial Andina, Buenos Aires, 1966.
 
(16) Cf. Quentin Girard, "Toi vouloir faire bunga-bunga?", Slate, París, 12 de novembro  de 2010. http://www.slate.fr/story/30061/bunga-bunga-berlusconi
 (17) Vid. "Le Rapport du FMI qui félicite la Libye", in Mémoire des luttes, París, 11 de março de 2011. http://www.medelu.org/spip.php?article761
 
(19) Cf. Evan Hill, "The day the Katiba fell", Al Jazeera English, 2 de março de 2011. http://english.aljazeera.net/indepth/spotlight/libya/2011/03/20113175840189620.html
 
(20) Ibid.
 
(21) Estes e outros crimes conduziram o fiscal chefe da Corte Penal Internacional, o argentino Luis Moreno Ocampo, a abrir uma investigaç
ão contra Muamar el Gadafi, acusado de "crimes contra a humanidade" pelo Conselho de Direitos Humanos das Naçoes Unidas.
 
(22) Agencia AFP, 17 de março de 2011.
 
(23) Léase Khaled Al-Dakhil, "Pourquoi tant d'hésitations?", Al-Hayat, Londres (reproducido por Courrier Internacional, París, 17 de março de 2011).

(25) Nouriel Roubini, "Un plan Marshall pour le printemps arabe", Les Échos, París, 21 de março de 2011.
Postar um comentário