13/01/2012

Contra o Irã e os direitos humanos

Por Saeed Kamali Dehghan, do The Guardian. Tirado por nós de Outras Palavras (aqui).  Tradução: Daniela Frabasile e Antonio Martins

Não há provas, mas cientista iraniano assassinado é vítima quase-certa de Israel. Possível cumplicidade anglo-americana acirra tensões em região crítica


Hoje, mais que nunca, as notícias do Irã estão cercadas de mistério. Seja no assassinato de um cientista nuclear, na explosão em uma base militar, na propagação de um vírus de computador ou na queda (ou captura) de um avião não-tripulado (drone) norte-americano, é difícil estabelecer com alguma certeza o que realmente aconteceu.

Mostafa Ahmadi Roshan, uma figura-chave da usina de enriquecimento de urânio no centro do Irã, morreu no último incidente, na quarta-feira de manhã. Segundo as informações iniciais, dois homens em motocicletas implantaram bombas magnéticas em seu carro (na foto), matando o cientista e ferindo outras pessoas. Dois outros cientistas nucleares, Masoud Ali Mohammadi e Majid Shahriari, foram mortos em ataques similares, em janeiro e novembro de 2010. Fereydoon Abbasi Davani, o atual chefe das operações atômicas do Irã, sobreviveu a uma tentativa de assassinato no dia em que seu colega, Shahriari, foi atingido.

Em julho do ano passado, Darioush Rezaeinejad, um estudioso iraniano, foi baleado por homens armados em motocicletas. O Irã negou o envolvimento dele em pesquisas nucleares e circulou a hipótese de que ele teria sido morto por engano, no lugar de um cientista com nome parecido.

Em novembro, houve uma explosão na cidade de Isfahan, próxima a instalações nucleares. Outra explosão em uma base militar matou o arquiteto do programa de mísseis do regime islâmico, junto com 16 de seus guarda-costas, da elite dos “guardas revolucionários”. Uma explosão similar no ano passado atingiu uma base de mísseis em Khorramabad, a região do Irã mais próxima a Israel.

O Stuxnet, um vírus de computador provavelmente desenhado para sabotar o enriquecimento de urânio no Irã atingiu muitas centrífugas do país no ano passado. Então, houve o caso misterioso do drone dado como desaparecido no Afeganistão, e depois ressurgido no Irã. É difícil ver todos estes incidentes sem relacioná-los. Tomados como um todo, sugerem que oponentes do regime iraniano lançaram uma campanha não-declarada para atingir os programas nuclear e de mísseis do Irã, possivelmente como alternativa à opção mais custosa de uma guerra aberta.

Ninguém assumiu responsabilidades. Israel é visto como suspeito natural, não apenas porque se recusou a negar o envolvimento, mas por sua história de operações secretas. O sequestro de Mordechai Vanunu1, e os assassinatos sistemáticos dos envolvidos no massacre do Setembro Negro são apenas dois exemplos.

Se Israel está por trás da campanha contra o Irã é um mistério. Um chefe militar israelense afirmou esta semana, em mensagem cifrada, que o Irã deveria esperar mais eventos “não-naturais” em 2012. Já o Irã acusou tanto Israel quanto os Estados Unidos. Ao contrário de Telavive, Washington negou envolvimento no assassinato de cientistas. Protestos na embaixada britânica em Teerã em novembro último, nos quais manifestantes portavam retratos de Shahriari, um dos assassinados, demonstraram que o Irã crê também em envolvimento da Inglaterra.

O Irã tem razão ao manter tais suspeitas. Sir John Sawers, chefe do serviço secreto M16, já endossou ações secretas contra o país “Precisamos de operações de inteligência para tornar mais difícil a países como o Irã desenvolver armas nucleares”, disse ele, num discurso em 2010. O papel do serviço secreto, acrescentou “é descobrir o que estes estados estão fazendo… e identificar formas de retardar seu acesso a materiais e tecnologia vitais”.

Os pontos de vista de Sawers foram repetidos tanto por dirigentes de Israel quanto dos Estados Unidos. “Não estamos satisfeitos ao ver os iranianos avançarem nisso [o programa nuclear]. Qualquer atraso, seja por intervenção divina ou outro fator, é benvindo”, afirmou recentemente o ministro da Defesa, Ehud Barak. Em outubro, Jack Keane, um veterano general estadunidense, reagiu a suspeitas de um compô iraniano para assassinar o embaixador saudita em Washington afirmando: “Por que não matamos [os guardas revolucionários]? Precisamos botar a mão em suas gargantas agora”.

Tais comentários não provam que estes países engajaram-se numa guerra secreta contra o Irã. Mas seja quem for o responsável pelos assassinatos e aparentes sabotagens, algo precisa ser dito: trata-se de atos inteiramente ilegais, do ponto de vista do direito internacional.

Seja um assassinato cometido por indivíduos, ou um estado estrangeiro atingindo nacionais de outros países, ou violando a soberania territorial da república islâmica, as leis internacionais e convenções de direitos humanos proíbem estas atividades.

Os apoiadores de uma guerra secreta contra o Irã veem-na como alternativa a bombardeios aéreos ou uma gerra em larga escala. Acreditam que, embora ilegal, é uma abordagem melhor, já que há menos vítimas civis e evita-se o confronto público com apoiadores do Irã (como a China e a Rússia).

Mas estas ações ilegais arruinarão todas as chances de diálogo com Teerã. Elas encorajarão o país a ser menos prudente e tornar-se mais radical sobre suas atividades nucleares. Ainda mais importantes, incitarão o Irã a reagir de modo similar, com suas próprias ações secretas. Se não interrompida, a guerra secreta contra Teerã pode fugir de qualquer controle.


1Referência a um técnico nuclear israelense que revelou em 1986, à imprensa britânica, segredos nucleares de seu país. Ele foi sequestrado em Roma pelo serviço secreto de Israel (o Mossad) e conduzido a Israel, onde foi condenado a 18 anos de prisão – onze dos quais cumpridos em solitária (ver Wikipedia)
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