13/04/2013

Fascismo e grande capital, palestra de J. R. Pauwels

Antom Fente Parada.

O historiador belga Jacques Pauwels (1946), que desde 1969 reside no Canadá, esteve ontem na livraria Couceiro de Santiago de Compostela para falar da relação entre fascismo e grande capital. Pauwels é um acreditado autor na matéria e autor de livros como The Myth of the Good War: The USA in Worl War II (traduzido ao espanhol por José Sastre na editora Hiru de Ondarribia sob o título El mito de la guerra buena. EE.UU. en la segunda guerra mundial) ou Big Business met  nazi-Duitsland (2009).

O acto organizado pelo Grupo de trabalho de mocidade de Anova-Irmandade Nacionalista começou com intervenções de duas moças desta organização que apresentaram ao autor e que, logo, através de Paula Verao sublinharam que a mocidade em Anova organiza-se como um grupo de trabalho e não como uma estrutura dentro doutra estrutura como as mocidades das forças políticas convencionais. Verao também fiz fincapé na importância da formação. A continuação falou Pauwels durante 20 minutos (com tradução para o galego) e, seguidamente, deu-se um pequeno bate-papo.

Segundo Pauwels, as grandes finanças e o capital financiavam os partidos fascistas e da análise do funcionamento do regime nazi também obtemos uma perspectiva excelente para vermos ainda com maior claridade como o capital se beneficiava desses regimes. 

O capitalismo alemão apoiava na República de Weimar (1919-1933) vários partidos,  mas a partir de 1929 vai-se ir decantando pelo NSDAP e pode-se dizer que os capitalistas, ontem e hoje, em períodos de crise apostam pelo fascismo. O capitalismo ajudou a Hitler a subir ao poder e este, por sua vez, beneficiou também com os seus crimes e com as suas guerras imperiais ao grande capital.

O NSDAP definia-se como nacional-socialista, mas a oratória acochava o fascismo e não era um partido operário, embora sim o votassem muitos operários. Em Mein Kampf, Adolf Hitler descreve o capitalismo como "um monstro de lama e lume", mas a sua não foi uma revolução. Tratava-se duma involução do grande capital  para recuperar a taxa de ganho. Apresentar-se como anti-capitalista era uma necessidade para ser um partido de massas e não deixa de chocar que 74% dos cidadãos do Estado espanhol hoje digam ser anti-capitalistas quando as forças de direita têm mais de 10 milhões de votos. Muitos gandeiros votaram NSDAP devido à crise que fazia insustentável o seu meio de vida. Hitler subvencionou os terratententes para manter os preços dos alimentos baixos (já que os ordenados eram baixos) e criou mão de obra barata    dos antigos camponeses que passariam às fábricas.

O hoje bem célebre Deutsche Bank fundou-se em 1870 e o seu primeiro presidente foi Georg von Siemens. A Krupp AG, hoje Thyssen Krupp AG, foi fundada por Friedrich Krupp em 181. Estas duas empresas são exemplos, do capital bancário e do capital industrial - cuja junção conforma o capital financeiro nas exposições de Rudolf Hilferding e Lenine- que tentaram desligar-se do III Reich após a II Grande Guerra (1939-1945). Porém o certo é que, como indica Pauwels, eles queriam a guerra porque aumentaria a demanda, e já que logo recuperariam a taxa decrescente de ganho que conduzira o sistema-mundo capitalista para a crise de 1929, e haveria mais trabalhadores produzindo e conumindo: tanques, aviões... o rearme e as políticas de infraestruturas e pleno emprego dos nazis foram um bom negócio para empresas como Opel, Porche...

Também favoreceu o grande capital norte-americano. Sem ir mais longe, a Fanta pertencente ao grupo The Coca-Cola company foi lançada durante a II Grande Guerra na Alemanha nazi em 1941. Devido as sanções que impediam a entrada de produtos no III Reich a fábrica de Coca-Cola não podia seguir operando devido a falta dos concentrados base para a fabricação de refrigerantes. Max Keith, chefe alemão da filial alemã,  permitiu a criação dum novo produto na tentativa de seguir com a actividade da fábrica e assim nasceu a Fanta, na sua origem apenas comercializada no mercado alemão. 

Como partido fascista o NSDAP, para além da sua retórica anti-capitalista, nem nacionalizou nem expropriou nada. Teve que pedir créditos à banca alemã a bom juro, que seriam pagos pelas expropriações dos dissidentes e de minorias como judeus. A acumulação da dívida possibilitou o rearme da Alemanha nazi e os ambiciosos projectos de auto-estratas e outras infra-estruturas que possibilitaram o pleno emprego. Para pagar os juros e a dívida era imprescindível ir a uma guerra de conquista, que produzira benefícios e fizera pagar aos povos conquistados a factura dos créditos do III Reich. 

Em 1936 era já palpável a possibilidade duma II Grande Guerra, que se pensava seria contra a URSS.  A guerra que necessitava Alemanha porque a URSS era um alvo excelente por duas razões. Duma parte, a URSS tinha praticamente todo o que a indústria alemã precisava quanto a matérias primas. França e a Grande Bretanha obtinham nas suas colónias petróleo e caucho, a URSS tinha no Caúcaso petróleo que paliaria a insuficiência produtora da Roménia (pertencente ao Eixe) e o caucho obteria-o Alemanha mediante um processo sintético a partir do carvão, muito abundante em Alemanha. Doutra parte, o Partido Comunista Alemão e a SPD foram esmagados por Hitler, mas ainda havia comunistas em Rússia pelo que a guerra se poderia apresentar perante o mundo como uma cruzada contra o comunismo. 

Existe ainda uma terceira razão não menos poderosa para o capital alemão: a URSS contava com milhões de pessoas que poderiam trabalhar como escravos sem ordenado aumentando os lucros da grande indústria germana e fazendo-a muito competitiva a nível internacional.  Muitas companhias puseram fábricas ao pé dos campos de concentração. Em Auschwitz a empresa que se beneficiava da mão de obra escrava era a IG Farben (Interessen-Gemeinschaft Farbenindustrie AG; "farben" em alemão significa "cores", "tintas"), nascida em 1925 e hoje conhecida como Bayer, BASF, AGFA e Hoechst (conglomerado Safoni-Aventis) após ser divida em 1951 pelos norte-americanos após a II Grande Guerra... Nasceu para recuperar a posiçao pré-dominante no mercado mundial que esse ramo industrial perdera durante a Grande Guerra (1914-1919) através da fusão de: AGFA, Casella, BASF, Bayer, etc. A Farben tinha praticamente o monopólio na indústria química no III Reich e foi a quarta maior empresa do mundo após a General Motors, U.S. Steel e Stantard Oil Company.

A fábrica de Auschwitz dedicava-se precisamente à fabricação de borracha sintética a partir do carvão, aprofundando a importância desse campo de extermínio. Em 1944 contava com 83.000 trabalhadores escravos. Não apenas ganhava vendendo borracha para a indústria militar alemã. A sua filial Degesch (Deutsche Gesellschaft für Schädilingsbekämpfung) tinha a patente e, já que logo era responsável da produção, do pesticida Zyklon B empregado nas câmaras de gás pelas SS. O que não se diz é que a tecnologia necessária para desenvolver a borracha sintética pertencia à Standard Oil Company de Rockfeller (hoje Exxon).

De por parte esta grande indústria e a bancocracia estavam praticamente isentos de impostos no III Reich. Diz-se que Hitler tinha o poder para culpá-lo de todo o sucedido no III Reich, nessas simplificações absurdas e personalistas tão abundantes por toda a parte, exculpando assim o capital financeiro. De fato, a mitologia sobre o fascismo na historiografia moderna apresenta-o como um acidente na história irrepetível, porque morto o cão rematou a raiva. Outra variante desta mitologia, convertida em doxa também no âmbito universitário galego e na educação obrigatória, culpa a todos os alemães do sucedido, obviando os milhares que resistiram e combateram o fascismo. A primeira vítima do fascismo foi o povo alemão.

O capital norte-americano foi o outro grande beneficiado das políticas militaristas do III Reich. Os EUA tinham fortes interesses e investimentos na República de Weimar e desde a primeira hora colaborariam com o III Reich. Texaco e Exxon forneciam o petróleo para os tanques da  Wehrmacht e os computadores que registavam nos campos de concentração os 6 milhões de judeus exterminados (sem contarmos ciganos, homossexuais e presos políticos...), com toda a informação centralizada e minuciosamente recopilada, eram da IBM (não nos concerne aqui, mas a informática nasceu da mão da indústria militar como tem analisado Noam Chomsky).

Outro regime fascista foi o de Mussolini, que também recebeu apoio do capital financeiro. Em Alemanha toda a elite apoiava o NSDAP: a indústria, a banca, os terratenentes e a Igreja católica (50% da população germana pertencia a esta confissão religiosa). Com Mussolini e Franco ocorre algo semelhante, apenas variando que o papel da Igreja era muito maior nos estados italiano e espanhol ou que, no caso de Franco, parte da burguesia industrial tinha interesses antagónicos ao capital rendista e aos terratenentes (uma dicotomia ainda hoje presente entre quem apoia ao PP e quem apoia a UPyD).


Para Pauwels o fascismo é uma solução para determinados tipos de crise. Uma saída óptima para o capitalismo nas crises cíclicas do sistema-mundo capitalista. Depois da II Grande Guerra seguiu-no sendo em numerosos estados: Franco, Salazar, Pinochet, Videla... Porém durante a guerra o grande capital viu também que a guerra era em si própria uma solução, algo que podemos enlaçar com a "destruição criativa" do capitalismo de que falava Shumpeter. Hoje há guerras em Mali, Síria, Afeganistão, Iraque... e a privatização e o lucro dado pela guerra chegou a níveis nunca antes vistos (veja-se, por exemplo, A doutrina do choque de Naomi Klein).O Imperialismo, agora denominado eufemisticamente Globalização, segue a procurar o controlo das matérias primas e a saquear povos permitindo o mantemento do conglomerado industrial-militar dos estados do centro do sistema-mundo capitalista.

De por parte, e como os nazis demonstraram, a guerra reforça o controlo social ao igual que o fascismo: a Patriotic Act, aprovada por George W. Bush na sua cruzada contra o "terrorismo islamista"  -curiosamente também para manter um "Reich" de mil anos com a teoria do American New Century-, é um claro exemplo e permite ver também como a lei e o direito burguês são parte essencial nas saídas das crises do capitalismo (por exemplo a reforma constitucional express no Reino de Espanha favorável aos interesses da banca).

O pacto Ribbentropp-Mólotov

Segundo Pauwels, a diferença do exprimido pela historiografia convencional, trata-se duma questão muito complexa. Aqui não se trata de defender a Estaline ou defender a democracia liberal, mas de fazer uma tentativa de analisar a história na procura da maior objectividade.

Em primeiro lugar, Estaline nunca quis um pacto com Hitler porque era consciente das intenções do III Reich (se bem quando finalmente se produz a Operação Barbarroja não acredita na invasão nazi até que se produz ao ter ainda o III Reich o frente ocidental aberto e o frente africano). Estaline pedira a Paris e Londres fazer uma aliança, mas estes disseram que não porque esperavam que Alemanha fizera a sua "cruzada contra o comunismo". Isto explica também porque Checoslováquia se entregou ao III Reich, era a estrada para a invasão da URSS.

Na primavera de 1939 Estaline ainda queria a aliança com Grande Bretanha e França. Quando finalmente Estaline pacta com Hitler, para desconcerto do comunismo internacional, resulta que já previamente todos os estados ocidentais o fizeram desde quando Hitler chega ao poder em março de 1933. O primeiro em assinar um tratado com Hitler foi a Cidade do Vaticano (respeitada pelo "nacionalista" e imperialista Mussolini não por acaso) através da figura do cardinal Pacelli que logo seria o papa Pio XII. O filme Amen recolhe isto bastante bem. O segundo em 1934 foi Polônia. O terceiro em 1935 Grande Bretanha e França em Munique... 

Com o pacto Estaline ganhava tempo para preparar-se para invasão, toda vez que o grado de desenvolvimento russo era em linhas gerais inferior ao alemão.  O pacto favorecia a ambas partes: Hitler podia concentrar-se em apenas um frente e a URSS ganhava amplos territórios e população ganhando 300 quilómetros (lembre-se que ainda assim os nazis chegaram a 30 quilómetros de Moscovo e detevo-os principalmente o adianto do inverno e a decisão de Estaline de não abandonar a capital). De facto, Gudarian e outros generais alemães criticaram esse acordo assinalando como um grande erro de cara o futuro. O pacto permitiu que não toda Polónia caíra sob a bota nazi. A ocupação da URSS, e não invasão pois como se explica então que as potências aliadas com Polónia não lhe declararam a guerra?, respondia a que o governo polaco partira para o exílio em Roménia pelo que a URSS podia ocupar território polaco sem governo conforme aos tratados vigentes na época e ao direito internacional.




















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