04/05/2013

Análise sucinto dos dados do CIS sobre a Galiza englobada na CC.AA.

Artigo de elaboração própria a partir dos dados fornecidos pelo CIS (setembro-outubro 2012).
Foto com candidatos de Alternativa Galega de Esquerdas nas passadas eleições nacionais da Galiza. No centro, o histórico dirigente e teórico do nacionalismo Xosé Manuel Beiras.


Se ontem se analisavam aqui os dados de abril a nível do Estado espanhol fornecidos pelo CIS (consultar aqui), hoje toca fazer uma análise sucinta dos dados desagregados por comunidas autónimas e, concretamente, os dados correspondentes à opinião da cidadania galega residente na Comunidade Autónoma da Galiza - que como é bem sabido não recolhe todos os territórios da Galiza histórica-. 

O primeiro que cumpre destacar é que os dados correspondentes a Galiza datam de setembro e outubro de 2012, quer dizer, no mesmo período em que o PP - embora perdesse votos- foi capaz de revalidar a sua maioria absoluta (21 de outubro) e ainda de aumentar deputados em virtude duma lei eleitoral feita para permitir a alternância PP-PSOE e as maioria absolutas na II Restauração bourbónica. 

É de pôr em relevo que apenas 0'2% vê como problema o galego. Um dado significativo após a efervescência conjuntaral de Galicia bilingüe (na campanha que levou a Feijoo ao poder), cujo nascimento está demostrado que foi financiado pela FAES. A FAES é think tank  ultraconservador, o que maior financiamento público recebe e ligado com o PP ainda que proponha políticas ultraliberais. Ou seja, a língua identifica-se como problema por parte duma minoria residual, menor ainda dos que identificam - com muito bom critério dito seja de passagem- a bancocracia como problema (0'5%). No entanto, ao igual que no conjunto do Estado, a maior preocupação das galegas e dos galegos é o desemprego (aprox. 70%). Também existe preocupação pela sanidade e a educação. 

E ao igual que acontece no último barómetro a nível estatal, o pessimismo vai in crescendo, veremos se a resignação também o faz. Até 74% da nossa cidadania interpreta que a Galiza está pouco (56'1%) ou nada (18'3%) pronta para superar a crise económica. Isto também pode relacionar-se com a percepção da Galiza como país pobre e atrasado, que presisamente não favorece  posições independentistas como as de Anova-Irmandade Nacionalista (repare-se que 15'7% dize que está bastante pronta e 0'2% muito pronta).

Quanto ao emprego de INTERNET, 70'5% segue sem empregá-lo nunca para obter informação sobre a política e a sociedade, enquanto 64'6% informa-se através dos noticiários da televisão. Na Galiza, portanto, este é um dado que se deveria ter muito em conta. Entre os jornais, La Voz de Galicia segue a ser o mais lido (39'7% da gente que lê jornais).

A questão nacional 

FIG. 1


Tratamento diferenciado merece entre os que nos declaramos soberanistas o sentimento de galeguidade. Na atualidade, mais da metade das galegas e dos galegos sente-se muito identificada com a Galiza (51'2%). Com Espanha desce o grau de proximidade, embora 37'5% diz sentir um muito elevado grau de identificação. 51'5% declara-se muito orgulhoso de ser galego e 42'9% está-o bastanteGaliza é vista como nação por 12'5%, e posicionam-se em contra 30'8% e 25'3% não se pronuncia. 

Quando se pergunta que significado se lhe dá a España 65'6% responde que é "o seu país", por enquanto 16% diz que é "um Estado do que é cidadão" e 8'6% "a nação da que se sente membro". Apenas 7% identifica España como "um Estado formado por várias nacionalidades e regiões" e um residual 1'1% sente que é "um Estado alheio" do que o seu "país" não forma parte. Aliás, 51'4% declara-se bastante orgulhoso de ser espanhol e 34'3% está muito orgulhoso.

Sentem-se igual de galegos que de espanhóis 69'9%. Mais galegos do que espanhóis 21'7% e mais espanhóis do que galegos 2'3% e apenas espanhóis 2'8%. Há que ter em conta que 92'2% dos que participam no inquérito nasceram na Galiza.

No que concerne à organizaçao territorial 49% dos galegos está a prol de que o Estado espanhol mantenha as comunidades autónomas, mas 11'4% querendo a autonomia pedem recortar competência. De por parte, já são 20'1% os que prefeririam um único Governo central sem autonomias (lembre-se também que na Galiza o franquismo sociológico é muito forte numa parte da população). Apenas 21'1% seria favorável a dispor duma maior autonomia, 25'5% preferiria que fosse menor e 41'7% que fosse igual. Seja como for, há amplos contingentes sociais que apostam pelo autogoverno e devem ser o alvo duma estrategia de ruptura democrática e aposta pela soberania nacional. De facto, 21'2% valora da existência das comunidades autónomas que servem para defender a nossa identidade e um 42'2% a maior proximidade com a cidadania.

Quanto à possibilidade de modificar o Estatuto de autonomia, o não sabe não contesta é a opção maioritária (34'1%), se bem é certo que esta opção apenas a mantêm retoricamente o PSOE e fundamentalmente o partido muito minoritário (de momento) CxG. Bem bastante necessária a reforma do Estatuto (25'4%), muito necessária 10'9%, pouco necessária 23'1% e totalmente desnecessária 5'9%.

No entanto, 35'9% vê com bons olhos que a Galiza poda intervir em assuntos europeus que nos concernam. O aumento de competências é apoiado por 26% e rejeitado por 17'5%. E, o mais importante, até 37'3% aposta por alcançar que todas as decisões que nos afetam podam tomar-se na Galiza.

Finalmente, e atendendo a comparativa (fig. 1) surdem-se sérias duvidas sobre se os dados do inquérito são minimamente fiáveis. Galiza, segundo o CIS, contaria com menos independentistas do que Asturies, Cantábria ou Madrid e os dados para Catalunya, Euskadi ou Nafarroa são também muito baixos. Se todo nacionalismo consequente é independentista no seu horizonte estratégico nao se entende como a soma do apoio eleitoral de Anova e BNG não permite a existência de mais galegas e galegos que, abertamente, se declarem independentistas.

Partidos políticos

Parece siginificativo que 85'2% das pessoas participantes no inquérito reconheçam que votaram nas eleições gerais de 2011 que permitiram a Mariano Rajoy chegar até a Moncloa, com os já bem conhecidos resultados. 39'3% votou aliás pelo PP, pelo PSOE 22'1% e pelo BNG 9'4%.  Em março de 2009 votaram 81'4%: 38'2% pelo PP, 21'5% pelo PSOE e 12'8% pelo BNG.

A força mais rejeitada pelos galegos é UPyD (57'1%), seguida de Esquerda Unida (46'8%), BNG (43'1%), PP (34%) e PSOE (31'2%).

A gestão de Feijoo, o "Habichuela", quem visto de perfil lembra perigosamente a Fernando VII (e lembra-nos aquilo exposto por Marx, em A guerra civil em França, de que a história se repete uma vez como tragédia e outra como farsa), é valorada por 31% das galegas e dos galegos como "má" ou "muito má" e 23'8% considera que foi boa ou muito boa. Feijoo é visto como "pouco" eficaz por 39'4%, mas valora-se - surpreendentemente- a sua "inteligência" (42'5%) e a sua "experiência" (40'1%; desconhecemos se agora também aqui se pode incorporar o seu currículo de narco-presidente), a sua "prudência" (43'5%; supomos que aí poderia-se incluir agora a regalia de Barreras a Pemex cozinada a lume lento e da que ainda por cima obteve rédito eleitoral) e a sua "honradez" (34%; já o paroxismo depois de todo o que sabe sobre a trajetória desta pessoa).

Apenas 18% estima que a atividade da Junta da Galiza tem sido "boa" ou "muito boa" e 34'9% consideram que foi "má" ou "muito má".

Mas como as eleições do 21 de outubro demonstraram tampouco existe uma querência maior pelas alternativas ao PP. A cidadania da Galiza suspende (48'1%) a labor da oposição com presença no Parlamento naquela altura, como é bem sabido PSOE e BNG. Um marginal 3'4% considerou-na "boa" e 40'6% "regular". Quanto ao que se faz no Parlamento, é valorado como "regular" por 45'4%, 26'2% viu-no como "mau" ou "muito mau" e apenas 11% como "bom".
As eleições do 21 de outubro trouxeram consigo uma importante descida de votos do PP que, principalmente foram para a abstenção. CxG, que repetidas vezes tinha dito que aspirava a penetrar no celeiro de votos do PP, ficou numa posição marginal na cena galega e tem reorientado a sua estrategia ao combate frontal com AGE antes do que com o BNG. De fato, AGE foi a única força que medrou de forma significativa, em grande parte porque tanto PSOE como BNG deixaram no caminho por volta da metade do seu eleitorado. AGE foi igualmente aglutinador dos votantes por primeira vez e ainda conseguiu atirar uma parte significativa (por volta de 10% dos seus apoios) do abstencionismo. 

Neste cenário é entendível que o BNG centre os seus esforços pré e pós eleições em sublinhar o eixo nacional por cima de por acento na esquerda. E entende-se assim igualmente a sua "linha soberanista" que desembocará numa plataforma de partidos em que, no mínimo, estarão presentes BNG, Nós-UP, Causa GZ e para dar um apoio suposto da "sociedade civil" a CiG e outras plataformas mais ou menos da órbita da UPG-BNG. Seja como for, é muito difícil que esta "linha" detenha a perda de apoios que o BNG leva sofrendo durante mais duma década, ainda quando de portas para fora a figura de Xavier Vence se queira vender como "moderada" e não ligada com a UPG.

Quanto ao PSOE segue com a estrategia de não agressão com AGE. Duma banda porque carece de projeto e direcção claras, e doutra porque boa parte das esperanças de deter a pasokização do mesmo passam por certo entendimento com Izquierda Unida como mostra o caso andaluz. A boa marcha da coligação entre Anova-Irmandade Nacionalista, Esquerda-Unida, Equo e Espaço Ecossocialista semelha que pode actuar reforçando a tendência alcista.


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