03/05/2013

Algumas dicas sobre o barómetro de abril do CIS: a II Restauração bourbónica na sua fase terminal?

Artigo de elaboração própria a partir dos dados fornecidos pelo barómetro do CIS (abril 2013). Imagem do artigo tirado de El País (aqui).


O último barómetro de CIS, antes de mais, confirma o continuado desgaste dos dous grandes partidos sistémicos que com a sua alternância eram os piares do regime nascido em 1975 da II Restauração bourbómica e que, o porta-voz nacional de Anova, tem denominado como "franquismo sem Franco". 

Assim, o PP segue perdendo apoios a pesar de desenvolver políticas agressivas que lhe permitam manter o apoio do eleitorado mais conservador e de extrema-direita (dando já o "centro" ou eleitorado mais moderado por perdido) com medidas como as do ministro Gallardón e a nova lei do aborto. Seja como for, o PP mantém 34% dos apoios, ou seja, dez pontos menos que o resultado que obteve nas eleições de novembro de 2011 e um menos que no último barómetro de fevereiro (também comentado dito seja de passagem neste mesmo blogue). Mariano Rajoy recebe uma valoração de 2'44%, e isso que segue uma estrategia de apenas aparecer na televisão e que sejam outros - a troika cañí de Montoro, De Guindos e Santamaría- os que anunciem os "recortes". Noutro inquérito mostra-se como a maioria dos votantes que perdem vão para a abstenção (que em geral desce drasticamente). 

Continua, ainda com melhor pé, a pasokização do PSOE, após  o seu suicídio político na última etapa do segundo Governo de José Luís Rodríguez Zapatero. Tanto é assim, que até na oposição o PSOE é incapaz de reduzir distâncias com o PP e, ainda por cima, o PP aumenta num ponto esta distância a respeito do PSOE. Hoje o PSOE está 5'8 pontos por baixo do PP em estimação de voto. O já citado outro inquérito, assinala que a maioria do voto perdido vai para a abstenção e, em segundo termo, para Esquerda Unida.

Neste cenário duas novas forças semelha que querem fazer a nível nacional uma operação semelhante a que Aliança Popular fizera com a UCD. Ocupar o seu espaço. Isto é particularmente grave no caso da extrema-direita de UPyD (7'4%) já que no Estado fagocitou durante longo tempo mais votos do PSOE do que do PP reforçando a hegemonia da direita e mostrando a possibilidade duma involução política em toda regra que exige unida às esquerdas na sua diversidade. Também contribuiu para deslocar ainda mais o "centro político" para a direita.  Na Galiza, UPyD aliementa-se do voto urbano do PP (especialmente da cidadania mais galegófaba) e ainda do sectores que tradicionalmente votavam EU e que não entenderam que esta força se juntara com o independentismo de Anova-Irmandade Nacionalista. De por parte, Rosa Díez é a melhor valorada a nível do Estado com 3'96% de valoração (o que implica que é bem vista pelo eleitorado tradicional tanto do PP como do PSOE). 


Esquerda Unida por sua parte oferece a possibilidade de que emerja uma outra esquerda, se bem existe o risco doutra "doma y castración" como a sofrida pelo PSOE ou o PCE na mal chamada Transición. Consolida-se como terceira força política com 9'9% da estimação de voto. 

No entanto, a maioria do voto perdido pelo PP e o PSOE vão para a abstenção e o voto branco e nulo. Aumenta então a orfandade política de boa parte do eleitorado e o receio perante as forças políticas em geral. No caso do PSOE, o transvase mais grande dá-se rumo a EU e em segundo lugar a UPyD. No caso dos votantes do PP, a primeira opção é UPyD e depois outros partidos (até o PSOE). Assim as cousas, aumenta o número de descontentes a um ritmo sem precedentes (entre 40 e 50% que iria para abstenção, voto nulo, voto em branco ou partidos-protesta como  Escaños en blanco), actitude também alentada pelo sistema que prefere isso à emergência duma esquerda real e transformadora. Uma esquerda que, com incidência nas massas, apenas existe na Galiza, em Catalunya, no País Valenciá, em Euskadi e em Andaluzia. 

O 54'6% dos enquisados considera muito má a situação económica e o 62'6% estima que foi a pior no último ano. Aliás, 73% considera que para o ano será a mesma foda ou ainda pior, algo que também é novidade no otimismo de pronta recuperação que a mídia conseguira inculcar nos cidadãos do Estado espanhol. Por outra banda, a maior preocupação segue a ser o desemprego, que como se prognosticou neste mesmo blogue rebasou a barreira psicológica dos 6 milhões (e seguirá aumentando de acordo com as, em nossa opinião, muito otimistas previsões do Governo Rajoy). Quanto à monarquia suspende com 3'68 o pior dado da série histórica.
Quanto ao modelo de Estado por volta de 38% quer aumentar a recentralização do Reino de Espanha (ainda que apenas 12% se coloca na escala esquerda-direita entre o 7 e o 10). E é apenas 21% o que quer maior descentralização ou até reconhecer o direito à autodeterminação dos povos (quando em teoria 37% se colocam na escala esquerda-direita entre 1-4). Isto serve também para ver como a cidadania do estado tende a situar-se na esquerda pelo que for, mas à hora de falar de medidas programáticas concretas a hegemonia da direita é clara no conjunto do Estado. Aliás, não chega a 20% ainda o conjunto de cidadãos que não se sentem espanhóis (e esse índice responde principalmente aos movimentos independentistas fortes existentes em Catalunya e Euskadi fundamentalmente).
Das pessoas inqueridas é também interessante fazer notar que apenas 17'3% participaram duma greve no último ano e 23% duma demonstração. E quanto a um mitin político a cifra reduz-se a 5'2% (mas quase 30% que nunca o fiz reconhece que o poderia fazer). 29% participaram dalguma recolhida de abaixo-assinados (78% fisicamente e apenas 7'7% por Internet). A politização da sociedade medra, num contexto complexo em que os partidos e a política se apercebem desde amplas capas de cidadãos como um problema. Confirma-se a nossa preocupação de que um populismo de extrema direita poda emergir com apoio de classes meias, bairros urbanos tradicionalmente operários e com o financiamento duma oligarquia industrial que prefere apostar por modelos mais proteccionistas perante a sua absoluta falha de competitividade e a incapacidade de aceder a crédito e recuperar a taxa descendente de ganho. 
O que não varia ainda é a marginalidade de Internet, por muito que os que nos movemos nestas canles adoitemos pensar que é uma ferramenta quase "revolucionária". Apenas 6'5% participaram no último ano num blogue, página ou foro de discussão política na rede.

Estimaçao de voto de outras forças políticas
CiU: 3'4%
Amaiur: 0'9%
PNV: 1'2%
ERC: 2%
BNG: 0'7%

Voto nulo: 0'2%

Abstenção: 22'7%

Indecisos: 21'5%




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