24/04/2014

A Geração da utopia

Trecho do romance A Geração da Utopia de Pepetela, pp. 232-234 da alinha 2 de "O polvo (abril de 1982)" tirado da 9ª edição do romance editada por Dom Quixote em outubro de 2008. Com esta formosa e profunda passagem comemoramos desde o nosso blogue o dia internacional do livro.
 
 
 
 
- Sabes tão bem como eu que o uísque é mais fácil de encontrar nesta terra que uma agulha. E se pode beber sem gelo.
- Fácil para ti que tens cartão de loja especial. No mercado há aos pontapés, mas demasiado caro para um pobre caçador. Claro, se tivesse um carro, podia trocar peixe por uísque em Benguela. Prometeram arranjar-me uma bicicleta, mas, azar, o delegado da indústria que fez a promessa foi transferido. São vinte quilómetros até à cidade, de bicicleta era um bom exercício. Mas tenho de esperar que seja transferido para aqui algum gajo que ainda se lembre de mim.
- Muita gente se lembra de ti, Aníbal.
- Para me apodarem de louco, eu sei.
 Sentaram-se sobre à mesa. Ele tinha dois pratos e garfos e até uma travessa para pôr o peixe. Serviram-se do pargo que fumegava e lançava o seu perfume para as nuvens. Ele lembrou de repente que não tinha limão, nem nada que o substituísse. O limão era importante para o pargo assado, mas paciência. Abriram uma garrafa de vinho. Sara falou:
- Deves concordar que a tua desaparição da cena política surpreendeu a muita gente. Ofereceram-te vários cargos, ao que constou. O Vítor disse-me que até para ministro. E tu vieste para aqui, longe de tudo, sem contactar com ninguém. É pelo menos um comportamento especial. Depois de uma vida inteira de luta...
- O Vítor, o Mundial... continua ministro, mas há tempos mudou de pasta. Ouvi no rádio. Como vês, estou informado. Tenho um rádio e à noite, quando estou com paciência, oiço os noticiários nacionais. Mas nem sempre, porque custa a engolir tantas palavras de ordem e discursos ocos. Basta um secretário qualquer do Partido para uma comuna, ou o delegado duma organização de massas dum município, fazer um discurso sem interesse, para passar logo na rádio. E o ouvinte que suporte os lugares-comuns, sem poder ripostar, porque oficialmente tratou-se de declarações importantes. Assim como qualquer reunião é decisiva, mesmo se foi dos fatos do bairro, fazendo uma análise profunda sobre a qual todos se debruçaram, como se estivessem à beira dum poço a olhar para baixo, como todos os dirigentes são destacados e pensam lucidamente, etc., etc., poupo-te a repetição dos adjectivos mais utilizados neste país, tu ouves isso todos os dias como militante disciplinada que és. Ou deves ser.
- Sou.
- Pois. Não te condeno, sempre foste muito dedicada. E não gostaria de te ofender por qualquer palavra, juro que não é minha intenção. Se muito bem distinguir as pessoas. Mas puxaste a conversa para a minha desaparição da cena e vens com o argumento de autoridade do Vítor, um sacana que prometeu enviar café e umas meias para o interior, meteu-se nas confusões da fronteira e até hoje estou à espera das meias... Aqui para nós, nunca entendi com o Mundial no derradeiro segundo se desviou na Revolta do Leste. Em 1972, quando partiu para a fronteira, já estava todo feito com eles. Não enganava ninguém. Mas depois cheirou o vento, ou teve um sonho anunciador. Mais tarde fui colando os bocados do que me contaram. Foi mantendo certo distanciamento dos dois campos, estando com um pé escondidado em cada um. No momento decisivo da opção, cortou as ligações com os revoltosos. E foi naturalmente subindo na organização. Teve enorme habilidade, tenho de reconhecer. O chamado salto do gato que cai sempre de pé.
- Não gostas dele.
- Talvez por ter gostado demasiado dele. Sabes, a desilusão é o pior que há. Era o meu mais novo, tratado com todo o carinho. Desculpava-lhe todas as pequenas falhas, defendia-o quando previsava, confiando nele. Afinal, não passa dum oportunista.
- Estás a exagerar, É um dirigente capaz...
- Como todos, enquanto são dirigentes. São todos capazes e honestos sem excepção. Quando um deixa de ser dirigente, então é que se se sabe que afinal era um incompetente e um corrupto. A mitologia do poder, ou a mitificação dos homens do poder. Passa-se em qualquer religião ou seita. O chefe da seita é um santo, um desinteressado, adorado pelos fieis. Quando cai, descobre-se que era o diabo e tem uma conta secreta na Suíça com milhões. Tudo isso é tão antigo e repete-se sempre em todos os regimes. Mas as pessoas não vêem, porque acham que a sua experiência é única e melhor que as outras. Uma fé, como a religiosa. Ora, uma fé não se combate, nem por explicações racionais.
- Fazes-me lembrar a Marta. Depois de tu saíres de Portugal, a Marta disse-me que tu só tinhas dois caminhos, ou morrer na guerra, o que seria o melhor para ti, ou desencantares-te. Adivinhou. Porque perseguias um sonho utópico de revolução. Afinal deiludiste-te mesmo.
- A Marta... Nunca mais soube dela, tens notícia?
- Não, quando estava em Paris acabei por perder o contacto.
- Enganou-se numa coisa, colocou a questão numa alternativa. Eu morri e desencantei-me. Os dois caminhos num só.
- O desencanto é sempre uma morte, não é?
Ele afagou distraidamente o tronco da mangueira. Sentiu, por trás da casca rugosa, a seiva movendo-se com volúpia.
- Isso da utopia é verdade. Constumo pensar que a nossa geração se devia chamar a geração da utopia. Tu, eu, o Laurindo, Vítor antes, para só falar dos que conheceste. Mas tantos outros, vindos antes ou depois, todos nós a um momento dado éramos puros e queríamos fazer uma coisa diferente. Pensávamos que íamos construir uma sociedade justa, sem diferenças, sem privilégios, sem perseguições, uma comunidade de interesses e pensamentos, o paraíso dos cristãos, sem suma. A um momento dado, mesmo que muito breve nalguns casos, fomos puros, desinteressados, só pensando no povo e lutando por ele. E depois... tudo se adulterou, tudo apodreceu, muito antes de se chegar ao poder. Quando as pessoas se aperceberam que mais cedo ou mais tarde era inevitável chegarem ao poder. Cada um começou a preparar as bases de lançamento para esse poder, a defender posições particulares, egoístas. A utopia morreu. E hoje cheira mal, como qualquer corpo em putrefacção. Dela só resta um discurso vazio.



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