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16/04/2012

Chomsky: O ataque ao Ensino Público

Avram Noam Chomsky. Artigo tirado do portal Esquerda.net (aqui). Os cortes de financiamento, os aumentos das propinas, a empresarialização das universidades, a instituição do ensino para o teste e outros mecanismos que pretendem destruir o interesse dos estudantes e moldá-los, são exemplos deste ataque. Por Noam Chomsky, publicado originalmente em Truthout a  4 de Abril de 2012 . Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net.



O ensino público está sob ataque em todo o mundo e, em resposta, realizaram-se protestos estudantis recentemente na Grã-Bretanha, no Canadá, no Chile, em Taiwan e noutros países.

A Califórnia também é um campo de batalha. O The Los Angeles Times informa sobre outro capítulo da campanha para destruir o que foi o maior sistema de ensino superior público do mundo: “Funcionários da Universidade Estadual da Califórnia anunciaram planos para congelar as matrículas na próxima primavera, na maioria dos campus, e para pôr em lista de espera todos os candidatos no próximo outono, dependendo do que for decidido sobre uma iniciativa fiscal na eleição de novembro.”

Cortes de financiamento semelhantes estão a ocorrer em todo o país. “Na maioria dos estados”, diz o New York Times, “são os pagamentos de propinas, não o dinheiro do estado, que cobrem a maior parte do orçamento”, de forma que “a era dos quatro anos nas universidades públicas a preços acessíveis, pesadamente subsidiadas pelo Estado, pode ter acabado”.

As faculdades comunitárias enfrentam cada vez mais problemas semelhantes – e os cortes de financiamento chegam ao ensino secundário.

A ideia de que beneficiamos, como nação, de uma educação superior, foi substituída pela crença de que são aqueles que recebem a educação que se beneficiam dela em primeiro lugar e por isso devem pagar a conta”, conclui Ronald G. Ehrenberg, administrador do sistema da Universidade Estadual de Nova York e diretor do Cornell Higher Education Research Institute.

A descrição mais precisa, penso eu, é “Erro de projeto” [Failure by Design], o título de um estudo recente do Economic Policy Institute, que desde há muito é uma importante fonte de informação confiável e de análise do estado da economia.

O estudo do EPI reexamina as consequências da transformação da economia, há uma geração, da produção doméstica à financeirização e à transferência da produção para outros países. Por projeto; sempre houve alternativas.

Uma primeira justificação para o projeto é o que o prémio Nobel Jospeh Stiglitz chamou de “religião” que afirma que “o mercado leva a resultados eficientes”, e que recentemente enfrentou mais um revés esmagador com o colapso da bolha imobiliária, ignorada por princípios doutrinários, desencadeando a atual crise financeira.

Houve também denúncias de alegados benefícios da expansão radical das instituições financeiras desde os anos 70. Uma descrição mais convincente foi dada por Martin Wolf, correspondente económico sénior do Financial Times: “Um setor financeiro fora de controlo está a devorar a moderna economia de mercado desde dentro, tal como uma larva da marabunta come o hospedeiro onde foi depositada.”

O estudo da EPI observa que o “Erro de Projeto” tem uma base de classe. Para os projetistas, foi um clamoroso sucesso, tal como revela a espantosa concentração de riqueza no 1% de topo, de facto no 0,1%, enquanto a maioria foi reduzida à virtual estagnação ou ao declínio.

Em resumo, quando têm oportunidade, “os Senhores da Humanidade” aplicam a sua “máxima vil” – “tudo para nós e nada para os outros”, como há muito explicou Adam Smith.

O ensino público massificado é uma das grandes conquistas da sociedade americana. Teve muitas dimensões. Um objetivo foi preparar agricultores independentes para a vida de trabalhadores assalariados que tolerassem o que encaravam como virtual escravidão.

O elemento coercivo não passou despercebido. Ralph Waldo Emerson observou que os líderes políticos defendem a educação popular porque temem que “Este país está a encher-se de milhares e milhões de eleitores, e é preciso educá-los para os manter longe das nossas gargantas.” Mas educados de forma correta: limitando as suas perspetivas e compreensão, desencorajando o pensamento livre e independente e formando-os na obediência.

A “máxima vil” e a sua implementação provocaram regularmente uma forte resistência, que por seu lado despertou os mesmos temores entre a elite. Há 40 anos, houve grande temor de que a população se estivesse a libertar da apatia e da obediência.

No extremo internacionalista liberal, a Comissão Trilateral – um grupo político não governamental a partir do qual foi desenhada em grande parte a administração Carter – tornou públicas em 1975 sérias advertências de que havia demasiada democracia, em parte devido a erros das instituições responsáveis pela “doutrinação dos jovens”. Na direita, um importante memorando de 1971, assinado por Lewis Powell, dirigido à Câmara de Comércio dos EUA, o principal lóbi empresarial, lamentava que os radicais estavam a tomar tudo – universidades, média, governo, etc. – e apelava à comunidade empresarial para que usasse o seu poder económico para reverter o ataque ao nosso apreciado modo de vida – que ele bem conhecia. Como lobista da indústria do tabaco, conhecia bem o Estado paternalista para com os ricos ao qual chamava de “mercado livre”

Desde então, muitas medidas foram tomadas para restaurar a disciplina. Uma é a cruzada pela privatização – pondo o controlo em mãos confiáveis.

Outra foi o grande aumento das propinas, até perto de 600 por cento, desde 1980. Este aumento produziu um sistema de ensino superior com “muito mais estratificação económica do que em qualquer outro país”, segundo Jane Wellman, ex-diretor do Delta Cost Project, que monitoriza estas questões. Os aumentos de propinas empurram os estudantes para a armadilha das dívidas de longo prazo e, assim, a subordinação aos poderes privados.

Dão-se justificativas de base económica, mas muito pouco convincentes. Em países ricos e pobres, incluindo o vizinho México, as propinas mantêm-se gratuitas ou simbólicas. Isto era assim também nos Estados Unidos, quando eram um país muito mais pobre, depois da Segunda Guerra Mundial e muitos estudantes conseguiam entrar nas universidades sob a lei GI1 – um fator de crescimento económico singularmente alto, mesmo pondo de lado o significado em termos de melhoria de vida.

Outro dispositivo é a empresarialização das universidades. Esta levou a um dramático aumento das camadas da administração, muitas vezes recrutadas fora em vez de serem oriundos da faculdade, como antes; e a imposição de uma cultura empresarial da “eficiência” – uma noção ideológica, não apenas económica.

Um exemplo disto é a decisão das universidade estaduais de eliminar os programas de enfermagem, engenharia e ciências da computação, porque são caros – e acontece que são profissões onde há falta de mão de obra, como informa o The New York Times. A decisão prejudica a sociedade, mas está de acordo à ideologia empresarial dos ganhos de curto-prazo sem consideração pelas consequências humanas, de acordo com a máxima vil

Um dos efeitos mais insidiosos afetam os professores e monitores. O ideal das Luzes na educação era plasmado na imagem do ensino como uma corrente que os estudantes seguiam a seu modo, desenvolvendo a sua criatividade e independência de espírito.

A alternativa, a ser rejeitada, é a imagem de derramar água num vaso – muito furado, como todos sabemos da experiência. Esta última abordagem inclui o ensino para o teste e outros mecanismos para destruir o interesse dos estudantes e procurar moldá-los, de forma a melhor controlá-los. Hoje, isso é tudo muito familiar.

1Lei que estabelecia uma gama de benefícios para os veteranos que regressavam da II Grande Guerra (os GI's), que incluíam empréstimos à habitação bonificados, empréastimos para arrancar um negócio ou uma fazenda, pagamento de propinas e despesas para frequetnar a universidade, o ensino secundário ou a educação vocacional, assim como um ano de compensação de desemprego. (N.T.)

15/04/2012

Metafísica contra maquinaria: Marx. Keynes, Minsky e a crise

Alejandro Nadal. Artigo tirado de SinPermiso (aquí) e traducido por nós.



Unha versión moi popular sobre as orixes da crise sostén que a avaricia conduciu aos operadores do sector financeiro ao exceso que xerou o desastre. É unha interpretación da crise que atopa moitos adeptos porque permite atopar fallas nas debilidades e vicios dunhas cantas persoas. O sistema está ben, só que sempre hai unhas cantas mazás podrecidas que todo o botan a perder.

De entrada esta representación da crise ten un problema. Suponse que o mercado é un dispositivo que se nutre do egoísmo e da ambición individual. Como di Adam Smith, é precisamente porque os individuos son egoístas e perseguen o seu interese persoal que se logra unha situación de harmonía social en e polo mercado. De aí a súa metáfora: é coma se cada un fose guiado por unha "man invisíbel" e polo seu egoísmo terminase facendo o ben para todos os demais. Como é que agora a ambición desmedida provoca as crises?

Ben, tamén se di que a desregulación do sector bancario fixo posíbel o desastre. A ambición sería o motor, mais a eliminación de controis sobre o sector bancario e financeiro abriu o camiño para o despregamento desas paixóns, traendo consigo graves implicacións macroeconómicas.

Porén aquí hai algo interesante. Resulta que se son as paixóns desmedidas as que procrean a crise, entón o que se necesita para previla é estabelecer os límites adecuados a tal frenesí. No caso actual, a crise teríase evitado se se puxesen límites á ambición desmedida. En síntese, o sistema económico está ben, mais ás veces algúns seres humanos descarrílano pola súa conduta malévola ou torta.

Claro, a retórica que utiliza a teoría económica busca expurgar calquera referencia á moral e prefírese usar a palabra "expectativas" en lugar de "paixóns": os axentes económicos teñen expectativas que se forman de maneira máis ou menos racional. E así, desde Keynes até Lucas, pasando por Minsky, os planos de investimento e consumo dos axentes que integran unha economía fórxanse a través dos esforzos para enfrontar a incerteza (Keynes) ou para frustrar as intervencións do goberno (Lucas).

A análise de Minsky é máis sofisticada, mais descansa na mesma idea. Do mesmo xeito que outros autores post-Keynesianos, Minsky ofrece un modelo máis serio sobre o funcionamento dunha economía monetaria capitalista que o que propón a teoría convencional. Na súa explicación sobre a dinámica dunha economía capitalista, o endebedamento e os bancos teñen un papel importante. (Aínda que os lectores sorprenderanse, nos modelos da teoría convencional, a que é utilizada para facer a apología do ultraliberalismo, os bancos non aparecen por ningún lado. Si, así como o len: nos modelos dos economistas do sistema, nin os bancos, nin o endebedamento teñen o lugar que merecen. Porén estoume  desviando do tema).

Aquí o importante é destacar que no modelo de Minsky sobre as crises financeiras o papel das expectativas é crucial. Nas fases de tranquilidade nunha economía capitalista, os axentes económicos, empresarios na economía real ou prestamistas no sector financeiro atopan que as súas expectativas sobre a evolución favorábel da economía están a confirmarse. Proceden a corrixilas á alza e iso conduce á apreciación dos seus activos, o que lles permite maior apalancamento e endebedamento. E iso conduce novamente a novas correccións na súa conduta como tomadores de risco e así sucesivamente. No entanto, aos poucos o proceso esgótase e arrinca un proceso de deflación. É a crise e no seu desenvolvemento, o compoñente subxectivo (a formación de expectativas) desempeña un papel fundamental.

Existe outra visión sobre as desfeitas que sofren as economías capitalistas. Nela o sistema económico conduce á crise independentemente da formación de expectativas ou das motivacións da conduta dos axentes. Nesta percepción o sistema económico é como unha maquinaria cuxas contradicións internas imprimen o dinamismo que conduce ás crises. Non se trata aquí de saber que pasa cando os axentes abrazan prognósticos máis ou menos optimistas sobre o futuro da economía, ou cando se equivocan nas súas anticipacións. A economía funciona de tal maneira que a crise é inevitábel, calquera que sexa o proceso e o resultado da formación de expectativas.

É ao que conduce a análise de Marx. As contradicións do capitalismo, e en especial a loita de clases, son a incubadora da(s) crise, independentemente das motivacións e expectativas dos axentes. Nin o sub-consumo, nin a sobre produción son suficientes para deter permanentemente o proceso de acumulación capitalista. En cambio, a lei tendencial sobre a caída da taxa de gaño erixe unha barreira para a expansión do capital que soamente pode resolverse en e a través da crise. Esa lei maniféstase sen implicar unha referencia ás anticipacións dos axentes.

É certo que hai paralelismos entre a análise de Keynes-Minsky e de Marx. Sen dúbida as súas análises son complementares e desembocan claramente na mesma conclusión: unha economía capitalista é inherentemente inestábel. Keynes diría que, ademais, é capaz de manter niveis socialmente inaceptábeis de desemprego durante moito tempo. Por iso é necesaria a acción do goberno e ábrese o debate sobre os diferentes méritos da política fiscal versus a monetaria, etc. Porén a diferenza profunda entre Marx e Keynes-Minsky é que no primeiro non hai maneira de evitar a crise. O capitalismo non é só "inherentemente inestábel", senón que é sinónimo de desigualdade e crise. A saída non é unha regulación adecuada ou unha intervención eficaz, senón a transición a un sistema socialmente desexábel.

17/06/2011

Liberdade natural vs. liberdade política

David Rodríguez Rodríguez. Artigo tirado do seu blogue.

No moi interesante La ciudad en llamas. La vigencia del republicanismo comercial de Adam Smith, David Casassas resitúa a Smith na tradición republicana á que pertence e desmonta algúns dos tópicos máis extendidos arredor do escocés como aquel que di ver nel a un dos pais intelectuais do neoliberalismo que hoxe causa estragos en medio planeta. No parágrafo que reproduzo a continuación, citado no libro de Casassas, o propio Smith clarifica os dous sentidos do concepto liberdade que hoxe, despois do desarme ideolóxico da esquerda e do continuado e eficacísimo traballo de creación de discurso dos think tanks da dereita, tan a menudo se confunden. Escribía Adam Smith n´ A riqueza das nacións:
Acaso haberá quen sosteña que impedir que un particular reciba en pago os billetes dun Banco, por unha suma grande ou pequena, cando non ten inconvinte en aceptalos, ou prohibir a un banqueiro que os emita cando os demais non teñen inconvinte en recibilos, é un atentado manifesto contra a liberdade natural, que a lei está obrigada a non violar. Estas regramentacións poden considerarse indiscutiblemente contrarias á liberdade natural. Pero o exercicio desa liberdade natural por parte dun contado número de persoas pode ameazar a seguridade da sociedade enteira, de xeito que pode e debe restrinxirse pola lei de calquera Goberno, desde o máis libre até o máis despótico. A obriga de construír muros para impedir a propagación dos incendios é unha violación da liberdade natural, exactamente da mesma natureza que as regulacións no comercio bancario das que acabamos de facer mención.

Liberdade natural vs. liberdade política (ou a liberdade dos que son igualmente libres). Velaquí o quid do asunto. Precisamente nesta confusión entre liberdade natural e política baseaba Roberto Blanco Valdés a súa última homilía na Voz de Galicia contraria a que a CRTVG siga a emitir exclusivamente en galego (é dicir, a que a radio e a televisión pública galega siga a ser, en terminoloxía de Adam Smith, un muro construído a favor da lingua máis débil e a favor, polo tanto, da liberdade política dos galego-falantes (daqueles que falan a lingua minorizada) en lugar de favorecer a liberdade natural da lingua máis forte, a liberdade natural dos castelán-falantes (dos que usan unha lingua de Estado que, por selo, goza de todas as vantaxes e medios). Discernindo ben estes dous conceptos, liberdade natural e liberdade política, podemos comprender moito mellor por que a esquerda sempre estivo a favor de medidas de discriminación positiva para calquera minoría social, de xénero ou nacional.

Cando nas prazas tomadas polos chamados Indignados se está a pedir, con moita lucidez, a construción de muros que salvagarden ás persoas das decisións dos mercados -como Adam Smith reclamaba a construción de muros entre a xente e os bancos- pero se ignora que tamén cómpre reivindicar eses muros, por pura solidariedade, en favor de todos aqueles que padecen algún tipo de discriminación social aparentemente non económica (pensemos na nula reivindicación da lingua galega polos Indignados do país ou nos comentarios do tipo "o feminismo sepáranos" escoitados na acamapada de Madrid a raíz da denuncia de discriminación de xénero na mesma) non só se está a ser incongruente e inxusto (porque se está a violentar a coherencia entre as distintas loitas) senón que, como escribía Casassas sobre Adam Smith, se está a considerar a vida social coma «un espazo neutro, politicamente aséptico, sen relacións de poder, no que a xente asina contratos libre e voluntariamente», algo que até aquel escocés do século XVIII, o que falara da man invisible do mercado, tiña claro que era falso.

25/04/2011

A privatização do planeta: um mundo demasiado grande para cair?

Noam Chomsky. Artigo tirado de Sin Permiso (aqui) e traduzido por nós.



O levantamento democrático no mundo árabe foi um espetacular exercício de coragem, dedicação e compromisso das forças populares que veio fortuitamente a coincidir com uma notável rebelião de dezenas de milhares de pessoas a favor do povoo trabalhador e da democracia em Madison, Wisconsin, e outras cidades norte-americanas. Há que dizer, porém, que se as trajetórias das revoltas no Cairo e em Madison chegaram a intersetar, estavam aproadas em sentido oposto: enquanto no Cairo encaminhavam-se à conquista de direitos elementares negados pela ditadura, em Madison apontavam à defesa de direitos que era conquistados com longas e duras lutas e que agora estão submetidos a um desapoderado assalto.

Um e outro caso são um microcosmos de tendências presentes na sociedade global que seguem uma variedade de cursos. A coisa não oferece dúvida: terão consequências de longo alcance. Tanto o que agora mesmo está a acontecer no decadente coração industrial do país mais rico e poderoso da história humana, como o que está a passar no que o presidente Dwight Eisenhower chamou "a área estrategicamente mais importante do mundo" ("uma estupenda fonte de poder estratégico" e "provavelmente o maior prêmio económico do mundo no campo do investimento estrangeiro", em palavras do Departamento de Estado dos anos 40, um prêmio que os EEUU trataram de se reservar em exclusiva, para si próprios e para os seus aliados, na incipiente Nova Ordem Mundial da época).

A despeito de todas as mudanças tidas desde então,  pode-se razoabilissimamente supor que os atuais decisores políticos mantêm basicamente a sua adesão ao julgamento do influente assessor do presidente Franklin Delano Roosevelt, A.A. Berle, segundo o qual esse controlo das incomparáveis reservas energéticas do Oriente Próximo traria consigo "um controlo substancial do mundo". E analogamente e por contraste, que a perda desse controlo ameaçaria o projeto de dominaçom global claramente articulado durante a II Guerra Mundial e persistentemente mantido ainda em frente às decisivas mudanças experimentadas pelo mundo desde então.

Desde que rompeu a Guerra em 1939, Washington antecipou que esta terminaria com os EEUU em uma posição de supremazia. Servidores públicos de alto nível do Departamento de Estado e especialistas em política exterior reuniram-se repetidamente durante a Guerra a fim de desenhar planos para o mundo de pós-guerra. Perfilaram uma "Grande Área" que os EEUU tinham que dominar, e que incluía o Hemisfério Ocidental, o Extremo Oriente e o antigo Império Britânico, com os seus recursos energéticos do Oriente Próximo. Quando Rússia começou a demoler os exércitos nazistas depois da batalha de Stalingrado, os objetivos da Grande Área começaram a se estender até abarcar a maior zona possível de Eurásia, e ao menos o seu núcleo económico na Europa Ocidental. Dentro da Grande Área, os EEUU manteriam um "poder indiscutíbel", com "supremazia militar e económica", ao mesmo tempo em que assegurar-se-iam de "limitar o exercício da soberania" dos estados capazes de interferir nos propósitos globais estadounidenses. Os circunstanciados planos do tempo de guerra não demoraram em se pôr por obra. [Isto desenvolve-o Chomsky mais polo miúdo no seu livro Estados falidos. O abuso de poder e o ataque à democracia, especialmente, no capítulo 4 intitulado "Fomento da democracia no estrangeiro"; Nota do blogger]

Sempre se reconheceu que Europa poderia optar por um curso independente. A OTAN concebeu-se em parte para contrarrestar a ameaça dessa independência. Não bem se dissolveu em 1989 o pretexto oficial que dava local à OTAN, a OTAN expandiu-se para o este, em flagrante violação das promessas verbais feitas ao dirigente soviético Mijail Gorbachov. Desde então, converteu-se em uma força de intervenção manejada pelos EEUU. O amplíssimo rádio de ação que se arroga expressou-no bem o secretário geral da OTAN, Jaap de Hoop Scheffer, ao informar em uma conferência da organização que "as tropas da OTAN têm que vigiar os oleodutos que transportam petróleo e gás em direção a Occidente", e mais em general, proteger as rotas navais utilizadas pelos cargueiros e outras "infraestruturas cruciais" do sistema energético.

As doutrinas da Grande Área dão manifesta licença para a intervenção militar arbitrária. Isso ficou patentemente sentado baixo a administração Clinton, que proclamou o direito dos EEUU a servir da força militar para garantir o "acesso irrestrito a mercados finque, fornecimentos energéticos e recursos estratégicos", e urgiu a manter "despregadas para a Europa e Ásia enormes forças militares, "a fim de modelar as opiniões da gente sobre nós" e de "modelar os acontecimentos que afetem às probabilidades da nossa segurança".

Idênticos princípios regeram a invasão do Iraque. À medida que foi-se fazendo evidente a incapacidade dos EEUU para impor a sua vontade no Iraque, os objetivos reais da invasão não podem seguir camuflando-se por trás de uma retórica insultante. Em novembro de 2007, a Casa Branca emitiu uma Declaração de Princípios exigindo que as forças estadounidenses se mantivessem indefinidamente no Iraque e unindo a sorte desse país ao privilégio de investidores norte-americanos. Dois meses depois, o presidente Bush informava ao Congresso de que vetaria a legislação que pudesse pôr limites ao permanente estacionamiento das Forças Armadas estadounidenses no Iraque ou "ao controlo, por parte dos EEUU, dos recursos petrolíferos do Iraque": umas exigências que os EEUU tiveram que abandonar, à vista da resistência iraquiana.

Na Tunísia e Egipto, os recentes levantamentos populares ganharam imponentes batalhas, mas, como informava o Carnegie Endowment, embora os nomes mudaram, os regimes permanecem: "Uma mudança nas elites dominantes e no sistema de dominação é ainda uma meta longínqua". O relatório analisa os obstáculos internos atravessados no caminho da democracia, mas ignora os exteriores, que, como sempre, são significativos.

Os EEUU e os seus aliados ocidentais estão resolvidos a fazer todo o que possam para previr uma autêntica democracia no mundo árabe. Para entender por que, basta jogar uma olhadela aos inquéritos de opinião realizadas no mundo árabe pelas agências norte-americanas de sondagens. Embora fez-se pouca publiquem dos seus resultados, não por isso deixam de ser conhecidos pelos planificadores estadounidenses. Revelam que maiorias abrumadoras de árabes vêem aos EEUU e a Israel como as maiores ameaças a que se enfrentam: assim vêem aos EEUU o 90% dos egípcios, e no conjunto da região, um 75% dos interrogados. Alguns árabes vêem como ameaça a Irão: um 10%. A oposição à política dos EEUU é tão forte, que uma maioria acha que a segurança melhoraria se Irão dispusesse de armamento nuclear (isso acha, por exemplo, o 80% dos egípcios). Outros quadros de opinião arrojam resultados semelhantes. Se a opinião pública pudesse influir nas decisões, os EEUU não só não poderiam controlar a região, senão que seriam expulsos dela junto de todos os seus aliados, o que socavaria os princípios fundamentais da dominação global.

A mão invisível do poder

O apoio à democracia é a província dos ideólogos e os propagandistas do sistema. No mundo real, o asco que pela democracia sente a elite é a norma. São abrumadoras as provas de que a democracia só é apoiada enquanto possa contribuir a objetivos sociais e económicos, uma conclusão à que relutantemente chegam os académicos mais sérios.

O desprezo da elite pela democracia revelou-se espetacularmente na reação às filtraçoes da WikiLeaks. As que maior atenção receberam, com comentários perto da euforia, foram os cabos nos que se informava do apoio dos árabes à posição dos EEUU em frente a Irão. A referência, claro, era aos ditadores árabes. As atitudes da opinião pública nem sequer recebiam menção. O princípio reitor foi claramente sentado pelo especialista do Carnegie Endowment para Oriente Próximo, Marwan Muasher, um ex alto servidor público do estado jordaniano: "Nada vai mau, tudo está baixo controlo". Em soma: se os ditadores nos apoiam, que teria que  preocupar-nos?.

A doutrina Muasher é racional e venerável. Para reduzir-nos a um só caso hoje particularmente pertinente, em um debate interno tido em 1958 o presidente Eisenhower manifestou a sua preocupação pela "campanha de ódio" contra nós livrada no mundo árabe, não pelos governos, senão pelas populações. O Conselho Nacional de Segurança (NSC, pelas suas siglas em inglês) explicou que no mundo árabe se tinha a percepção de que os EEUU apoiavam os ditadores árabes e bloqueavam a democracia e o desenvolvimento para se assegurar o controlo dos recursos da região. Pelo demais, essa percepção é basicamente correta, concluía o NSC, e isso é o que temos que fazer, secundar a doutrina Muasher. Estudos realizados pelo Pentágono depois do 11 de setembro confirmaram que o mesmo vale para hoje.

É normal que os vencedores arrojem a história ao lixo, enquanto as vítimas lha tomam muito em sério. Umas breves observações sobre este importante assunto talvez resultem aqui de utilidade. Não é a primeira vez que Egipto e os EEUU se enfrentam a problemas similares e se movem em direções opostas. Já ocorreu também a começos do século XIX.

Os historiadores económicos costumam sustentar que Egipto estava bem situado para empreender um rápido crescimento económico ao mesmo tempo que os EEUU [Veja-se por exemplo Eric Hobsbawn: A era do capital. 1848-1875; Nota do blogger]. Ambos países dispunham de uma rica agricultura, incluído o algodão, combustível da primeira revolução industrial: mas, a diferença do Egipto, os EEUU tinham que desenvolver a produção de algodão e uma força de trabalho mediante a conquista, o extermínio e a escravatura, com consequências que resultam evidentes ainda hoje nas reservas para sobreviventes e nos cárceres que têm proliferado rapidamente desde os tempos de Reagan para albergar à população que a desindustrialização ultraliberal fez demais.

Uma diferença fundamental foi que os EEUU conseguiram a sua independência, o que lhes deu liberdade para ignorar as prescripçoes da teoria económica, dadas na época por Adam Smith em uns termos parecidos aos que agora se pregam para as sociedades em via de desenvolvimento. Smith urgiu às colónias emancipadas a produzir matérias primas para a exportação e importar, em mudança, superiores manufacturas britânicas, e desde depois, a não tratar de monopolizar bens cruciais, singularmente o algodão. Qualquer outra senda, advertiu Smith, "longe de acelerar, atrasaria o ulterior incremento do valor da sua produção anual, e longe de promover, obstruiria o progresso do seu país para uma riqueza e uma grandeza reais".

Conseguida a sua independência, as colónias foram livres para ignorar este conselho e empreender, em mudança, o curso seguido por Inglaterra, o curso, isto é, de um estado independente capaz de promover publicamente o seu próprio desenvolvimento com elevadas tarifas arancelarias pensadas para proteger à sua indústria das exportações britânicas -pelo cedo, os têxtiles; depois, o aço e outros produtos- e para pôr por obra muitos outros mecanismos aceleradores do desenvolvimento industrial. A República independente procurou fazer-se também com o monopólio do algodão, a fim de "pôr a todas as demais nações aos nossos pés", sinaladamente ao inimigo britânico, como não se privaram de declarar os presidentes jacksonianos ao conquistar Texas e a metade de México.

No possível caminho análogo do Egipto atravessou-se, porém, a potência britânica. Lord Palmerston declarou que "nenhuma ideia de equidade pode ser obstáculo no decorrer de interesses tão grandes e supremos" como os britânicos no seu afã de preservar a sua hegemonia económica e política. Declarou-o expressando, de passagem, o seu "ódio" para o "bárbaro ignorante" de Muhammed Ali, que se tinha avilantado a propor um curso independente, e despregando a frota e o poder financeiro britânicos para pôr fim à luta do Egipto pela independência e o desenvolvimento económico.

Depois da II Guerra Mundial, quando os EEUU deslocaram a Grã-Bretanha da hegemonía global, Washington adotou a mesma posição, deixando claro que os EEUU não proporcionariam a menor ajuda a Egipto, a não ser que acatasse as normas usadas para os débis, normas, dito seja de passagem, que os EEUU seguiram violando, impondo elevados impostos ao algodão egípcio e causando uma debilitadora escassez de dólares. A interpretação habitual dos princípios do mercado.

Dificilmente surpreenderá, pois, que a "campanha de ódio" contra os EEUU que preocupava a Eisenhower se base na percepção de que os EEUU apoiam a ditadores e bloqueiam a democracia e o desenvolvimento, como fazem também os seus aliados.

Tem de acrescentar-se em defesa de Adam Smith que sim se percatou claramente do que ocorreria se Grã-Bretanha seguisse as regras da teoria económica ao uso, que agora chamamos "ultraliberalismo". Alertou de que se as industriais, os comerciantes e os investidores britânicos se abriam ao mundo, poderiam sacar benefícios, mas Inglaterra sofreria. Mas sentiu que deixar-se-iam guiar por um sesgo nacional, como se por uma mão invisível a Inglaterra não lhe estivessem reservados os desquites da racionalidade económica.

O passo é difícil de esquecer. É a única vez em que aparece a célebre frase da "mão invisível" em toda A Riqueza das nações. O outro fundador da economia clássica, David Ricardo, sacou parecidas conclusões, na esperança de que o sesgo nacional levaria aos homens de propriedade a "se contentar com as baixa taxas de benefício no seu próprio país, dantes que a procurar um emprego mais ventajoso da sua riqueza nas nações estrangeiras"; sentimentos, estes, que, acrescentava, "lamentaria ver debilitados". Predições aparte, os instintos dos economistas clássicos transbordavam de bom sentido.

As "ameaças" iraniana e chinesa

O levantamento pela democracia no mundo árabe compara-se às vezes com o registado na Europa do este em 1989, mas com razões bem duvidosas.  Em 1989, o levantamento democrático foi tolerado pelos russos, e apoiado pelas potências ocidentais conforme a doutrina-assa: acomodava-se patentemente aos objetivos económicos e estratégicos, o que fez dele um lucro nobilíssimo, honrado por doquer, a diferença das lutas que paralelamente se desenvolviam na América Central pela "defesa dos direitos fundamentais do povo", em palavras do Arcebispo de El Salvador, um das centenas de milhares de vítimas das forças militares armadas e treinadas em Washington. Não tinha nengum Gorbachov em Occidente durante esses horrendos anos, e segue sem o ter. E as potências ocidentais seguem sendo hostis à democracia no mundo árabe por muito boas razões.

As doutrinas da Grande Área seguem aplicando às crises e às confrontaçoes dos nossos dias. Nos círculos ocidentais de tomada de decisões políticas, o mesmo que entre os comentaristas políticos,  considera-se que, pelo mesmo que a ameaça iraniana representaria o maior perigo para a ordem mundial, a política exterior dos EEUU deveria se centrar primordialmente ali, deixando à política exterior européia o papel das educadas negociações diplomáticas.

Agora bem; em que consiste exatamente a ameaça iraniana? O Pentágono e os serviços de inteligência estadounidenses proporcionam-nos uma autorizada resposta. Nos seus relatórios do ano passado sobre a segurança global, deixaram claro que a ameaça não é de natureza militar. A despesa militar iraniana é "relativamente baixo em comparação com o resto da região", concluíam. A sua doutrina militar é estritamente "defensiva, concebida para frear uma possível invasão e forçar a uma solução diplomática das hostilidades". Irão só tem "uma capacidade limitada de projetar a sua força para além das suas fronteiras". Respeito da opção nuclear, "o programa nuclear do Irão, e a sua disposição a manter aberta a possibilidade de desenvolver armamento nuclear, é uma parte central da sua estratégia de disuasão". Até aqui as citas.

O brutal regime clerical iraniano, a coisa não oferece dúvida, representa uma ameaça para o seu próprio povo, mas dificilmente pode se dizer que ultrapassa nesta matéria aos aliados dos EEUU. Mas a ameaça radica em outra parte, e é, efetivamente, ominosa. Um elemento dela é a capacidade potencial iraniana para a disuasão, um ilegítimo exercício de soberania que poderia interferir na liberdade de ação dos EEUU na região. Resulta manifestamente óbvio por quê Irão procura construir uma capacidade disuasória: para explicá-lo, basta jogar umha vista de olhos à distribuição de bases militares e forças nucleares na região.

Faz sete anos, o historiador militar israelita Martin van Creveld escreveu que "o mundo foi testemunha de como os EEUU atacaram a Iraque, segundo terminou por se ver, sem a menor razão para isso. Se os iranianos não tratassem de construir armamento nuclear, estariam loucos de arremate", sobretudo achando-se, como se acham, baixo constante ameaça de ataque em violação da Carta das NN.UU. Que terminem construindo-o ou não, é uma questão sem responder, mas quiçá sim.

Isso é que a ameaça iraniana vai para além da capacidade disuasória. Também procura expandir a sua influência nos países vizinhos, sublinham o Pentágono e os serviços estadounidenses de inteligência, e assim, "desestabilizar" a região, como se diz na jerga técnica do discurso da política exterior: a invasão e ocupação militar norte-americanas dos vizinhos do Irão é "estabilização"; os esforços do Irão por estender para eles a sua influência, algo de todo ponto ilegítimo.

Esses usos linguísticos fizeram-se rotinários. Assim, o prominente experiente em política exterior James Chace usava propriamente o termo "estabilidade" no seu sentido técnico, quando explicava que, para conseguir "estabilidade" em Chile, era necessário "desestabilizar" o país derrocando ao governo eleito de Salvador Além e instalando a ditadura do general Augusto Pinochet. Há outras preocupações suscitadas por Irão dignas de ser exploradas, mas talvez baste o dito para ilustrar os princípios reitores e o estatus de que gozam na cultura imperial. Como sublinharam no seu dia os planificadores de Franklin Delano Roosevelt na alva do sistema mundial contemporâneo, os EEUU não podem tolerar "nenhum exercício da soberania" que interfira nos seus propósitos globais.

Os EEUU e Europa vão à uma em ponto a castigar a Irão pela sua ameaça à estabilidade, mas resulta útil recordar o isolados que estão. Os países não alinhados apoiaram vigorosamente o direito do Irão a enriquecer o urânio. Na região, a opinião pública árabe é ainda mais favorável ao desenvolvimento de armas nucleares por Irão. A maior potência regional, Turquia, votou contra as últimas sanções propiciadas por EEUU no Conselho de Segurança, e fê-lo junto a Brasil, o país mais admirado no Sul. A sua desobediência foi drasticamente censurada, e não por vez primeira: Turquia foi já azedamente condena em 2003, quando o seu governo secundou a vontade de 95% da sua população e se negou a participar na invasão do Iraque, demonstrando assim a sua débil noção de "democracia" ao estilo ocidental.

Depois da sua trasnada no Conselho de Segurança no ano passado, Turquia foi amonestada pelo chefe da diplomacia de Obama nos assuntos europeus, Philip Gordon: tinha que "demonstrar o seu compromisso como sócio de Occidente". Um académico que trabalha para o Conselho de Relacionamentos Exteriores se perguntava: "Como manter aos turcos no caminho que lhes toca?". Pois obedecendo ordens, como bons democratas. O Brasil de Lula foi amonestado em um editorial do New York Times: os seus esforços conjuntos com Turquia para abrir uma solução o problema do urânio enriquecido fora do enquadramento estabelecido pela potência estadounidense era uma "chata no legado do dirigente brasileiro". Em uma palavra: façam o que vos dizemos, a ver se não.

Uma interessante luz lateral, finalmente apagada, oferece-a o facto de que a negociação Irão-Turquia-Brasil gozou da prévia aprovação de Obama, provavelmente na ideia de que fracassaria, fornecendo, assim, uma nova arma contra Irão. Quando culminou com sucesso, a aprovação trocou em censura, e Washington aprestou-se a impor a trancas e barrancas uma resolução do Conselho de Segurança que ao final resultou tão débil, que até China a  subscreveu: agora castiga-se-lhe por ater-se à letra dessa resolução, em vez de secundar as diretrizes unilaterais de Washington.

Embora os EEUU podem tolerar a desobediencia turca, ainda se com desalento, China resulta farto mais difícil de ignorar. A imprensa alerta de que "os investidores e os comerciantes chineses estão a encher agora um vazio no Irão, na medida em que as empresas de muitas outras nações, *señaladamente européias, se vão: preocupa especialmente a expansão do seu papel dominante nas indústrias energéticas iranianas. Washington está a reagir com um ponto de desespero. O Departamento de Estado advertiu a China de que se deseja ser aceite na comunidade internacional -um termo técnico para referir-se aos EEUU a quenqueira que esteja de acordo com eles-, não pode "manter à margem e evadir-se das responsabilidades internacionais, [que] estão bem claras", e é a saber: secunda as ordens dos EEUU. É muito pouco provável que isso causasse a menor impressão na China.

Há muita preocupação também com a crescente ameaça militar chinesa. Um estudo recente do Pentágono alertava de que o orçamento militar chinês se acerca a "um quinto da despesa do Pentágono em operações bélicas no Iraque e Afeganistão", à sua vez uma fração do orçamento militar estadounidense, greve o dizer. A expansão das forças militares chinesas poderia "cegar a capacidade dos barcos de guerra norte-americanos para operar em águas internacionais frente da sua costa", acrescentava o New York Times.

Fora da costa da China, claro está; ninguém propôs ainda que os EEUU eliminem as forças militares que fecham as Caraíbas aos barcos de guerra chineses. A incapacidade chinesa para entender as regras da civilidade internacional fica ulteriormente ilustrada com as suas objeções aos planos para que o porta-aviões nuclear George Washington se some aos exercícios navais desenvolvidos a umas poucas milhas da costa chinesa, supostamente com capacidade para bombardear Beijing.

Em mudança, Occidente compreende cabalmente que essas operações estadounidenses se empreendem, todas, para defender a estabilidade e a sua própria segurança. O jornal liberal de esquerda New Republic expressa a sua preocupação por que "China envia dez barcos de guerra a águas internacionais, justo ante a ilha japonesa de Okinawa". É uma provocação, a diferença do facto, que nem se molesta em mencionar, de que Washington converta a ilha em uma grande base militar, desafiando os veementes protestos da população de Okinawa: isso não é uma provocação, conforme ao consabido princípio de que nós somos os proprietários do mundo.

Deixando de lado a arraigadíssima doutrina imperial, há boas razões para que os vizinhos da China se preocupem pelo crescente poder militar e comercial desta. E embora a opinião pública árabe apoia um possível programa iraniano de armas nucleares, nós, desde depois, não o deveríamos fazer. A bibliografia especializada em política internacional está cheia de propostas para evitar essa ameaça. Uma muito óbvia rara vez merece discussão: trabalhar a favor do estabelecimento de uma Zona Livre de Armas Nucleares (ZLAN) em a região. A proposta, uma vez mais, nasceu na conferência do Tratado de Não Proliferação (TNP) celebrada no quartel geral das Nações Unidas no passado mês de maio. Egipto, na sua qualidade de presidente das 118 nações que compõem o Movimento de Não Alinhados, fez um apelo para começar negociações para uma ZLAN em Oriente Próximo, como era lembrado, também por Occidente -incluídos os EEUU-, na conferência do TNP de 1995.

O apoio internacional a esta proposta é tão abrumador, que Obama não teve outro remédio que se somar formalmente a ela. Boa ideia, disse Washingtn na conferência; mas não agora. Os EEUU deixaram claro, ademais, que Israel deveria ficar à margem disso: não são admissíveis propostas que pretendam pôr o programa nuclear israelita baixo os auspícios da Agência Internacional de Energia Atómica ou que exijam informação sobre "as instalações e as atividades nucleares de Israel".

Baste isso para se fazer uma ideia do método com que se aborda o problema da ameaça nuclear iraniana.

A privatização do planeta

Embora a doutrina da Grande Área segue vigente, a capacidade para pô-la por obra diminuiu visivelmente. A cume do poder estadounidense deu-se depois da II Guerra Mundial, quando dispunha literalmente da metade da riqueza do mundo. Mas é, como é natural, foi declinando, à medida que outras economias industriais foram se recuperando da devastação bélica e a descolonização jogou tortuosamente a andar. A começos dos 70, a participação dos EEUU na riqueza mundial diminuía até o 25%, e o mundo industrial tinha-se feito tripolar: Norteamérica, Europa e o Leste asiático (então com base no Japão).

Teve também nos 70 uma mudança drástica na economia estadounidense, que derivou para a financiarização e a exportação da produção. Vários fatores convergiram para criar um círculo vizioso de radical concentração da riqueza, primordialmente na fração de 1% da população na cúspide: basicamente, altos executivos, gestores de fundos e investimento livre e gentes pelo estilo. Isso trouxe consigo a concentração do poder político, o que à sua vez trouxe consigo políticas públicas favoráveis ao incremento da concentração económica; políticas fiscais, normas de governança empresarial, desregulamentação, etc. Enquanto, os custos das campanhas eleitorais se dispararam, empurrando os partidos políticos para os petos do capital concentrado, crescentemente financeiro: os Republicanos, a consciência; os Democratas -que agora são o que dantes costumávamos chamar Republicanos moderados-, ao fundo.

As eleições converteram-se em uma farsa grotesca manejada pela indústria dos relacionamentos públicos. Depois da sua vitória de 2008, Obama ganhou um prêmio concedido por esta indústria à melhor campanha de mercadotécnia do ano. Os executivos do setor estavam eufóricos. Explicavam na imprensa do mundo dos negócios que desde a época de Regam vinha fazendo publicidade dos candidatos como se de uma mercadoria qualquer se tratasse, mas que a campanha de 2008 foi o seu grande lucro e que essa campanha mudaria o estilo publicitário das direções das grandes empresas. Espera-se que as eleições de 2012 custarão 2 mil milhões de dólares, basicamente contribuídos pela grande empresa privada. Não pode, pois, surpreender a ninguém que Obama esteja a eleger a dirigentes do mundo dos negócios para ocupar altos cargos. A opinião pública está enojada e frustrada, mas em tanto rejam os princípios de Muasher, isso carece de importância.

Enquanto a riqueza e o poder foram concentrando-se em uma estreita faixa, os rendimentos reais do grosso da população estancaram-se e a gente está a cada vez mais carregada de horas de trabalho, de dívidas e de inflação de ativos regularmente destruídos pela crise financeira que começou a amagar desde que o aparelho regulatório começou a ser desmantelado a partir dos anos 80.

Nada disso resulta problemático para os muito ricos, que se beneficiam de uma póliza pública de seguros chamada "demasiado grande para cair". Os bancos e as empresas de investimento podem fazer transações arriscadas, com grandes rendimentos, que quando o sistema inevitavelmente entra em falência sempre podem ir ao papai estado para que o contribuinte o resgate, isso sim, bem agarradinhos às suas instâncias dos livros de Friedrich Hayek e Milton Friedman.

Tal foi o processo mais comum desde os anos de Reagan, sendo a cada nova crise mais extrema que a anterior (para o grosso da população, claro está). Agora mesmo, o desemprego real se acha a níveis da Grande Depressão para boa parte da população, enquanto Goldman Sachs, um dos principais arquitetos da presente crise,  é mais rico que nunca. Acaba de anunciar, impertérrito, a cifra de 17,5 mil milhões de dólares em conceito de remuneraçones para os seus executivos no passado ano, e o presidente do seu conselho de administração, Lloyd Blankfein, só em conceito de bonos, receberá 12,6 milhões de dólares, enquanto o seu salário base se triplicará.

Não se adianta nada centrando neste tipo de factos. Consequentemente, a propaganda tem que procurar outros culpados: nestes últimos meses, aos trabalhadores do setor público, aos seus salariaços, as seus exorbitantes pensões de aposentação, e assim pelo estilo.  Tudo na melhor tradição do imaginário reaganita, com mamães negras levadas em limousinas pelos seus condutores a cobrar os cheques nas dependências públicas de bem-estar social, e outros modelos pelo estilo que não vale a pena sequer mencionar. Todos temos que nos apertar o cinto; bom, quase todos.

Os mestres e professores constituem um alvo particularmente adequado, como parte do deliberado empenho em destruir o sistema público de educação, desde os jardins de infância até as universidades, pela via da privatização: uma vez mais, uma política boa para os ricos, mas desastrosa para a população, bem como para a saúde em longo prazo da economia. Mas isso é outra das externalidades que há que deixar de lado, enquanto prevaleçam os princípios do mercado.

Outro alvo estupendo: os imigrantes. Isso foi assim ao longo da história dos EEUU, mais ainda em tempos de crises económica, mas agora exacerbado por um sentido de que o nosso país nos está a ser arrebatado: a população branca cedo será uma minoria. Pode-se entender o medo de indivíduos que se sentem agraviados, mas a crueldade das políticas migratórias resulta estupefaciente.


Que imigrantes se convertem em alvo desses ataques? No este de Massachusetts, que é onde eu vivo, muitos são maias que conseguiram escapar ao genocídio perpetrado nos altos guatemaltecos pelos assassinos preferidos de Reagan. Outros são mexicanos, vítimas do acordo NAFTA de livre comércio propiciado por Clinton, um desses raros acordos entre governos que conseguem prejudicar aos povos de todos os países participantes (três, neste caso: EEUU, México e Canadá). Quando o NAFTA foi aprovado no Congresso contra as objeçoes populares em 1994 foi quando Clinton iniciou também a militarização da fronteira entre México e os EEUU, antes razoavelmente aberta. Sabendo que os camponeses mexicanos não poderiam competir com o agro-negócio publicamente subsidiado nos EEUU  e que as empresas mexicanas não sobreviveriam à concorrência das trasnacionais estadounidenses. Transnacionais às que deve considerar-se como "nacionais", conforme o falso remoquete dos acordos de livre comércio: um privilégio, dito seja de passagem, só lembrado às pessoas jurídicas que são as empresas, não às pessoas de carne e osso. Como cabia esperar, essas medidas trouxeram consigo uma escorrentada de refugiados caídos no desespero, e à conseguinte histéria anti-imigratória entre as vítimas internas dessas mesmas políticas do estado e das grandes empresas privadas.

Algo muito parecido está a ocorrer na Europa, em onde o racismo é provavelmente mais virulento que nos EEUU. Um não pode menos de observar com estupor quando Itália se queixa do fluxo de imigrantes procedentes de Líbia, aquele palco do primeiro genocídio posterior à I Guerra Mundial -acontecido no agora libertado este do país- a mãos do governo fascista da Itália. Ou quando França, ainda hoje a principal protetora das brutais ditaduras que governam as suas antigas colónias, se arranja para passar por alto as odiosas atrocidades submetidas por ela na África, enquanto o presidente francês Nicolas Sarkozy alerta, sombrio, sobre a "onda de imigrantes" e Marine Lhe Pen lhe objeta que não faz nada pela prevenir. Não precisarei mencionar a Bélgica, que levar-se-ia a palma no que Adam Smith chamou "a selvagem injustiça dos europeus".

A ascensão dos partidos neofascistas em boa parte da Europa resultaria já um fenómeno suficientemente aterrador, ainda sem necessidade de recordar o que ocorreu no continente em um passado recente. Imaginem a reação, se os judeus fossem expulsos da França, condenados à miséria e a opresão, e comparem com a falta de reação quando isso mesmo ocorre com os ziganos, a população mais brutalizada da Europa, assim mesmo vítima do Holocausto.

Em Hungria, o partido neofascista Jobbik conseguiu um 17% dos votos nas eleições nacionais, algo que talvez não resulte tão surpreendente, se se recorda que três quartas partes da população acha estar pior agora que baixo a dominação soviética. Poderíamos sentir-no talvez aliviados pelo facto de que na Áustria o ultradereitista Jörg Haider conseguisse só  10% do sufrágio em 2008, se não fosse porque o novo Partido da Liberdade, que está ainda mais à sua direita, conseguiu ultrapassar  17%. Resulta escalofriante recordar que em 1928 os nazistas consiguiram menos de 3% do sufrágio na Alemanha.

Na Inglaterra, o Partido Nacional Britânico e a Liga de Defesa Inglesa, na direita ultrarracista, são força importantes. (O que está a passar em Holanda sabê-lo-ão melhor vocês que eu.) Na Alemanha, [ex social-democrata] Thilo Sarrazin lamenta-se de que os imigrantes estejam a destruir o país e consegue um supervendas com o seu lamento, enquanto a Chanceler Angela Merkel, ainda condenando o livro, declara que o multicultutralismo fracassou " estrondosamente": os turcos importados para fazer os trabalhos sujos na Alemanha fracassaram em ponto a voltar-se loiros de olhos azuis, autênticos ários.

Quem conservem um sentido para a ironia recordarão que Benjamin Franklin, uma as principais figuras da Ilustração, alertou de que as recentemente emancipadas colónias norte-americanas deveriam andar com tino à hora de admitir a imigração de alemães, porque eram demasiado morenos; e o mesmo os suecos. Até bem entrado no século XX, os mitos ridículos encol a pureza anglosajona eram comuns nos EEUU, inclusive entre presidentes e outras figuras de viso. O racismo na cultura literária foi uma obscenidade insalubre; mas pior foi na prática, sobra dizê-lo. É muito mais doado erradicar a poliomelite que esta horrível praga que uma e outra vez reaparece, e com maior virulência, em tempos de mal-estar económico.

Não quero terminar sem mencionar outra externalidade que passa por alto nos sistemas de mercado: o destino da espécie. Ao risco sistémico no sistema financeiro pode pôr-lhe remédio o sofrido contribuinte, mas ninguém virá a resgatar o médio ambiente que está a ser devastado. Que deva se devastado, é pouco menos que um imperativo institucional. Os dirigentes empresariais que estão a desenvolver campanhas publicitárias para convencer à população de que o aquecimento global antropogénico é um bulo esquerdista entendem perfeitamente a gravidade da ameaça, mas têm que maximizar os seus benefícios e as suas quotas de mercado em curto prazo. Se não o fazem eles, fá-lo-ão outros.

Esse círculo vizioso poderia terminar sendo letal. Para percatar-se do perentório do perigo, basta com jogar um vistaço ao novo Congresso dos EEUU, entroniçado pelo financiamento e a publicidade empresariais. Quase todos são negacionistas climáticos. Já começaram a cortar fundos destinados a medidas capazes de mitigar a catástrofe medioambiental. E o que é pior: algum deles acham para valer; por exemplo, o novo chefe do subcomité de meio ambiente, que vai por aí explicando que o aquecimento global não pode ser um problema porque Deus prometeu a Noé que não teria outro diluvio universal.

Se tais coisas estivessem a passar em algum estadinho remoto, até poderíamos sorrir. Mas estão a passar no país mais rico e poderoso do mundo. E dantes de que nos entre a risa parva, temos que recordar que a presente crise económica se remonta em não pequena medida à fé fanática em dogmas como o da hipótese da eficiência dos mercados, e em general, no que o prêmio Nóbel Joseph Stiglitz chamou faz já 15 anos a "religião" da omnisciência dos mercados: uma religião que impediu que os bancos centrais e os economistas profissionais se percatassem da existência de uma enorme bolha imobiliária sem a menor base nos fundamentos da vida económica e que, ao estourar, resultou devastadora para o conjunto da economia.

Todo isso, e bem mais, pode seguir o seu curso enquanto reja a doutrina Muashar. Enquanto o grosso da população se mantenha passiva, apática, entregue ao consumismo ou ao ódio contra os vulneráveis, os poderosos do mundo poderão seguir fazendo o que lhes venha em ganha, e aos que sobrevivam a isso não ficar-lhes-á senão contemplar o catastrófico resultado.

21/03/2011

Lisboa 1755 – Fukushima 2011

Àngel Ferrero. Artigo tirado da revista electrónica Sin Permiso e traduzido para o galego por nós.



David Casassas faz começar o seu livro sobre Adam Smith com uma cita da History of England de David Hume. «Enquanto a guerra [com os holandeses] prosseguia sem sucessos decisivos para nenhuma das partes», escreve Hume, «em Londres teve local umha calamidade que deixou à gente enormemente consternada. Um fogo que se tinha desatado no estabelecimento de um panadeiro, cerca da ponte, estendeu-se em todas direções com tanta rapidez, que todos os esforços para o extinguir resultaram infructuosos, até o ponto que deixou a umha parte considerável da cidade reduzida a cinzas. Os habitantes, incapazes de achar um pouco de alívio, ficaram reduzidos à categoria de meros espetadores da sua própria ruína; e os lumes, que inesperadamente os rodearam, foram lhes perseguindo de rua em rua. [...] As causas desta calamidade eram evidentes: a estreiteza das ruas de Londres, as casas construídas totalmente de madeira, a estação seca e um violento vento do este que se levantou.» Nas páginas seguintes, David Casassas descreve o impacto cognitivo que teve este acontecimento, inclusive cem anos depois, nos intelectuais britânicos e sinaladamente  em Adam Smith, para quem, comparando o fogo com a liberdade como "algo natural", tinha «sentido questionar qualquer iniciativa [...] para controlar a liberdade "natural", neste caso, dos banqueiros [...] Mas Smith apressa-se a assinalar, ato seguido, que, se está concentrada em poucas mãos de um modo inapropriado, essa "liberdade natural" pode pôr em perigo a "a sociedade inteira". Então, é preciso intervir para que não se dêem essas inapropriadas concentrações da "liberdade natural".» [1] As profundas consequências que teve no pensamento europeu do século XVIII o Great Fire of London de 1666 só foram superadas pelo terramoto de Lisboa de 1755. Este seísmo, seguido de incêndios e um tsunami, causou a prática destruição da capital lusa e um número de vítimas ainda hoje desconhecido, mas que, segundo coincidem as estimativas históricas mais fiáveis, superou os 10.000 mortos. A magnitude deste desastre e as descrições das terríveis imagens posteriores ao terramoto propagaram-se rapidamente por toda a Europa, o que, unido à bancarrota das ambições coloniais de Portugal, espoleou o pensamento ilustrado, especialmente as suas críticas à teodicea leibniziana e a monarquia absoluta.

Efetivamente, de te fabula narratur. Até o The Economist vê-se obrigado a reconhecer que «alguns desastres mudam a história: o tsunami do Japão poderia ser um desses desastres.» [2] Como influirá a catástrofe nuclear de Fukushima, para além das reações governamentais e cidadãs que já estão a ter local, é algo que nos anos por vir terão de mostrar. Quase como uma confirmação da máxima mülleriana de que o tempo histórico em ocasiões se acelera acima do nosso entendimento, Fukushima veio a ser o arremate de uma rápida sucessão de notícias ante as quais um não pode senão experimentar um sentimento de mal-estar e fim de siècle: desde a destruição de emprego e *desmantelamiento dos últimos restos do Estado social à crise alimentária, as revoluções no mundo árabe e a guerra civil Líbia. (Outras notícias, como a crise política em Costa de Marfim que ameaça com converter em uma guerra civil ficaram, uma vez mais, fora do foco jornalístico). Pelo cedo, folga dizê-lo, a questão ecológica será inacochável. Na última semana vimos desfilar pelos meios de comunicação aos doutores Pangloss do nuclear -flanqueados pelos inevitáveis todódologos- gavando as supostas bondades de umha energia que é, nos asseguram uma e outra vez, limpa, barata e segura. Mas por eficazes que pretendam os seus autores estes e outros sofismas, dificilmente convencerão à opinião pública internacional porque, como escreveu Rafael Poch, absolutamente todo «o que se pôde dizer no seu dia sobre Chernobyl, os defeitos de desenho daquela central, a lamentável irresponsabilidade laboral que imperava na URSS [...] ficaram em entredito. O motivo do atual acidente foi um grande terramoto, mas os terramotos são habituais no Japão, que é, com grande diferença, o país melhor preparado do mundo, o que mais sabe de terramotos e o melhor organizado contra eles.» [3] Pelo demais, todo o esforço parece destinado ao falhanço ante a mera lembrança, não digamos já a imagem constante, das máscaras *antigás, os trajes de *polipropileno e os contadores Geiger, por não falar das consqüências na saúde das milhares de pessoas afetadas pelo acidente nuclear de Chernobyl.O debate não limitar-se-á à energia nuclear senão que, como recorda Bernhard Potter em um recente editorial para o tageszeitung, as características da sua radiação -invisível e inodora, de efeitos a médio e longo prazo- alerta-nos também da existência de outras ameaças potenciais com as que convivemos diariamente, como os transgénicos ou alguns conservantes químicos. [4] Mas isso não é tudo. Segundo informou na passada quinta-feira a cadeia de televisão japonesa NHK, ao terramoto, o tsunami e à catástrofe nuclear -além das más temperaturas, que dificultam o resgate- pode acrescentar-se ainda um brote de H5N1 (comummente conhecida como gripe aviaria) que, de se estender, multiplicaria os estragos da devastação. [5] Como assinalou em várias ocasiões Mike Davis, este vírus se propaga velozmente graças às condições dos animais nas granjas da indústria agropecuária, produto do seu afã por obter maiores benefícios. [6] A demografía tokiota (13 milhões de habitantes, 35 milhões na área metropolitana), que faria virtualmente impossível a evacuação de toda a população em caso de se produzir uma fusão do núcleo ou uma fuga radiativa em massa, obriga a replantejar-se um modelo urbano baseado no crescimento desproporcionado das cidades e a estudar seriamente a partir de que momento concentrações de população tão elevadas deixam de ser uma vantagem a todos os níveis.

A escassez de informação tanto de TEPCO (a empresa energética responsável pela central nuclear de Fukushima) como do governo, e as notáveis diferenças entre a informação proporcionada por este último e pelos governos ocidentais (sobretudo os dos Estados Unidos e França), que recorda em parte o acontecido em Chernobyl, confirma o que, segundo tudo aponta já, será um dos cavalos de batalha deste século: a transparência informativa. Sem necessidade de ir mais longe, Wikileaks, a organização que deu o pistoletaço de saída desta luta e ao mesmo tempo demonstrado a escassa autonomia dos meios de comunicação no que a jornalismo de investigação se refere, revelou recentemente que a falta de transparência da companhia japonesa dista de ser uma novidade: no 2007 produziu-se já uma fuga depois de um terramoto, mas TEPCO, que verteu centos de litros de água contaminada ao mar, minimizou os danos. [7] Enquanto algumas autoridades do governo japonês chamam a acalma, outras reconhecem estar desbordadas pelos acontecimentos. Pior ainda: no mesmo dia em que o Organismo Internacional da Energia Atómica (OIEA) comunicava que a «situação em Fukushima Daichii segue sendo muito séria mas não piorou», Akio Komiri, o diretor de TEPCO, abandonava a roda de imprensa entre lágrimas, depois de reconhecer que a radiação libertada é suficiente como para matar às pessoas mais afetadas e que, se não se consegue devolver a referigeração à planta, não ficará mais remédio que enterrar a central nuclear em um sarcófago de cimento, como ocorreu em Chernobyl. [8] Umhas horas depois, quando a alerta subia já ao nível 5, o chefe do gabinete de governo do Japão, Yukio Edano, confirmava que se tinham achado altos níveis de radiação no leite e os produtos agrícolas produzidos na região, e, segundo France Press, também restos de iodo radioativo na água da torneira de Tokio. [9] A escassez de informação -quiçais procurada para não alarmar à população, mas que pode acabar gerando o efeito oposto pela desconfiança e o aparecimento de rumores- segue sendo estas últimas horas a pauta.

Em último local, esta crise nuclear, cujo desvincule ainda está por se ver, também nos ensinou uma ou duas coisas dos capitalistas. Segundo o ex diretor do Spetsatom (o organismo soviético para combater os acidentes nucleares) e antigo assessor da Associação Internacional da Energia Atómica (AIEA) Yuri Andreyev -autor de umha paráfrase einsteniana que vem que nem pintiparada: "a diferença do petróleo e o gás, a estupidez humana é inesgotável"- os japoneses prestaram-se «a ceder em segurança a mudança de considerações egoístas. [...] A localização das centrais do Japão, junto ao mar é a mais barata. Os geradores de emergência não os enterraram e, claro, inundárom-se de seguida.... Por trás de tudo isto há corrupção. Não tenho provas, mas não demorarão muito em aparecer. Como pode se desenhar uma central nuclear em uma zona de alto risco sísmico, ao lado do Oceano, com os geradores de emergência em superfície?. Chegou a onda e tudo ficou fora de serviço. Não é um erro, é um delito.» [10] Não pode causar mais que repugnáncia ver como os investidores fugiram despavoridos do Japão, obrigando ao país a fechar os seus parqués para evitar maiores perdas, enquanto o barril de Brent baixava 3'53 dólares (um descenso do 3'1%) devido ao declive da demanda que se espera durante as próximas semanas por parte do país asiático. Na passada quarta-feira um economista da Standard Chartered citado no Guardian calculava friamente os benefícios em longo prazo e declarava que o plano de reconstrução suporá um estímulo para a economia mundial: «acho que a economia do Japão "reagromará". [...] Como a guerra da Coreia, o terramoto pode transformar a economia com um enorme estímulo keynesiano.» [11] Com isso o capitalismo faz bom o apócrifo de José Estaline: a morte de uma pessoa é uma tragédia, a morte de milhares de pessoas, umha estatística.

NOTAS: 

[1] O incêndio teve local cerca de um ano e médio após luta contra uma grave epidemia de peste bubónica que se cobrou mais de 70.000 vítimas (a população de Londres era de 450.000 habitantes). David Casassas, A cidade em lumes. A vigência do republicanismo comercial de Adam Smith (Barcelona, Montesinos, 2010), p. 63 e ss.

[2] "Japan's hydra-headed disaster: the fallout", The Economist, 17 de março de 2011.

[3] Rafael Poch, "A onda de Fukushima atinge de pleno a Alemanha", La Vanguardia, 13 de março de 2011. 

[4] Bernhard Potter, "Kein Grund zur Beruhigung", tageszeitung, 16 de março de 2011, p. 1.


[6] Mike Davis, "A gripe porcina e o monstruoso poder da grande indústria pecuária", Sin Permiso, 28 de abril de 2009. Mike Davis. Tradução de Marta Domènech e María Julia Bertomeu: "Tem-se-nos acabado o tempo? A pandemia da gripe das aves asiático lume à porta", Sin Permiso, 19 de agosto de 2005. Tradução de Jordi Mundó. 

[7] "As lições atómicas que Japão não aprendeu", El País, 16 de março de 2011. 




[10] "Na indústria nuclear não há organismos independentes", entrevista de Rafael Poch,  La Vanguardia, 17 de março de 2011; "IAEA urges Japan to give more information on nuclear crise", The Guardian, 18 de março de 2011. [11] "Estoques tumble and manufacturers fear global shortage of car parts", The Guardian, 16 de março de 2011, p. 7.

18/11/2010

Raiva mal dirigida

Noam Chomsky. Artigo tirado de traduzido desde o castelhano para o galego da revista Sin Permiso na sua ediçom electrónica.

"Aquele radical incorregível do século XVIII, Adam Smith, referindo-se a Inglaterra, diria que os principais arquitectos do poder eram os donos da sociedade (por esses dias os mercaderes e industriais), e estes asseguravam-se de que as políticas do governo se atessem religiosamente a seus interesses, por penoso que fosse o impacto sobre a população inglesa ou pior, sobre as vítimas da selvagem injustiça dos europeus em outros países".

Nunca dantes tinha sido testemunha do grau de irritação, suspicácia e desencanto como ao que nos enfrentamos nos EUA pelas eleições de metade de mandato. Desde que os democratas chegassem ao poder, tiveram que lhas ver com a nossa monumental zangada pela situação sócio-económica e política em que estamos.

Num inquérito da empresa Rasmussen Records do passado mês, mais da metade da "cidadania americana" assegura ver com bons olhos o movimento Tea Party: este é o espírito do desencanto.

Os motivos de queixa são legítimos. Nos últimos 30 anos, os salários reais da maioria da população estancaram-se ou diminuíram, enquanto a insegurança trabalhista e a carga de trabalho seguiriam em aumento, o mesmo que a dívida. Acumulou-se riqueza, mas só nuns quantos petos, provocando desigualdades sem precedente algum.

Estas são as consequências derivadas da financiarização da economia que vem se produzindo desde os anos 70, e o correspondente abandono da produção doméstica. Avivando o processo, a mania desregulatória favorecida por Wall Street e apoiada por economistas fascinados pelos mitos da eficiência do mercado.

O público adverte que os banqueiros, responsáveis em boa parte da crise financeira, e aos que teve que salvar da falência, se encontram desfrutando de benefícios recorde e suculentas bonificações, e enquanto, as cifras de desemprego continuam no 10 por cento. A indústria acha-se a níveis da Grande Depresão:um da cada seis trabalhadores em desemprego, e com a pinta de que os bons trabalhos não vão voltar.
Negrito
A gente, e com razão, quer respostas, e não lhas dá ninguém, exceptuando umas poucas vozes que contam histórias com certa coerência interna: isso é, em caso que um deixe a incredulidade em suspenso e se aventure no seu mundo de disparate e engano.

Mas ridiculizar as trasnadas do Tea Party não é o mais acertado. Seria bem mais apropriado tentar compreender que é o que subjaze depois do encanto do popular movimento, e nos perguntar a nós mesmos por que uma série de pessoas justamente cabreadas estão a ser mobilizadas pela extrema direita e não pelo tipo de activismo construtivo que surgira em tempos da Depresão, tipo CIO (o Congresso das Organizações Industriais).

Nestes momentos, o que ouvem os simpatizantes do Tea Party é que toda instituição (governo, corporações e corpos profissionais) está podre, e que nada funciona.

Entre o desemprego e os embargos, os Democratas não têm tempo para denunciar as políticas que conduziram ao desastre. Pode que o Presidente Ronald Reagan e seus sucessores Republicanos tenham sido os grandes culpados, mas estas políticas já despontárom com o Presidente Jimmy Carter, e se intensificaram com o Presidente Bill Clinton. Durante as eleições presidenciais, o eleitorado principal de Barack Obama seriam as instituições financeiras, que afianzaram a sua primacia sobre a economia nas últimas décadas.

Aquele radical incorrectível de século XVIII, Adam Smith, referindo-se a Inglaterra, diria que os principais arquitectos do poder eram os donos da sociedade (por esses dias os mercaderes e industriais), e estes se asseguravam de que as políticas do governo se atessem religiosamente aos seus interesses, por "penoso" que fosse o impacto sobre a população inglesa ou pior, sobre as vítimas da "selvagem injustiça dos europeus" em outros países.

Uma versão mais moderna e sofisticada da máxima de Smith é "a teoria de investimento em partidos políticos" do economista político Thomas Ferguson, que considera as eleições como eventos nos que grupos de investidores se unem para poder controlar o estado, seleccionando para isso os arquitectos daquelas políticas que sirvam aos seus interesses.

A teoria de Ferguson resulta útil para predizer as estratégias políticas para longos períodos de tempo. Isto não é nenhuma surpresa. As concentrações de poder económico procurarão de maneira natural estender sua influência sobre qualquer processo político. O que ocorre é que, nos EUA, esta dinâmica é extrema

E mesmo assim, pode argumentar-se que os despilfarros empresariais têm uma defesa válida em frente às acusações de cobiza e desprezo pelo bem comum. A sua tarefa é maximizar os ganhos e a talhada de mercado; de facto, esse é seu dever legal. De não cumprir com essa obrigação, seriam substituídos por alguém que o fizesse. Também ignoram o risco sistémico: a possibilidade de que suas transacções prejudiquem a economia em seu conjunto. Esse tipo de "externalidades" não é da sua incumbência, e não porque sejam má gente, senão por razões de tipo institucional.

Quando a bolha estoura, os que tomaram os riscos correm ao refúgio do Estado-canguro. A operações resgate, uma espécie depóliza de seguro governamental, é um dos perversos incentivos que magnificam as ineficiências do mercado.

"A cada vez está mais estendida a ideia de que nosso sistema financeiro percorre um ciclo catastrófico", escreveram os economistas Peter Boone e Simon Johnson no Financial Times de janeiro. "A cada vez que sucumbe, confiamos em que seja resgatado pelas políticas fiscais e o dinheiro fácil. Este tipo de reacção mostra ao sector financeiro que: pode fazer grandes apostas, pelas que será generosamente recompensado, sem ter que se preocupar dos custos que ocasione, porque será o contribuinte o que os acabe pagando" através de resgates e outros mecanismos, e como consequência, o sistema financeiro "ressuscita outra vez, para apostar de novo e voltar a cair".

No dia do julgamento final é uma metáfora que também se aplica fora do mundo financeiro. O Instituto do Petróleo Americano, respaldado pela Câmara de Comércio e outros grupos de pressão, intensificou seus esforços para persuadir ao público de que abandone sua preocupação pelo esquentamento global provocado pelo homem, e segundo mostram as enquisas, com bastante sucesso. Entre os candidatos republicanos ao Congresso nas eleições de 2010, praticamente todo mundo recusa a ideia do quentamento global.

Os executivos responsáveis da propaganda sabem de sobra que o quentamento global é verídico, e o nosso futuro, incerto. Mas a sorte das espécies é uma "externalidade" que os executivos têm que ignorar, porquanto o que se impõe é o sistema de mercado. E desta vez o público não poderá sair ao resgate quando finalmente se desate o pior dos palcos possíveis.

Tomando prestadas as palavras de Fritz Stern, o distinguido estudoso da história alemã: "tenho idade suficiente como para me lembrar daqueles dias escalofriantes e ameaçadores em que os alemães desceram da decência à barbárie Nazista". Num artigo de 2005, Stern indica que tem o futuro dos Estados Unidos em mente quando repassa um "processo histórico em que o ressentimento na contramão de um mundo secular desencantado encontrasse a libertação no êxtase do escape da razão".

O mundo é demasiado complexo para que a história se repita, mas de todos modos, há lições das que se lembrar quando registemos as consequências de outro ciclo eleitoral. Não é pequena a tarefa à que terá de se enfrentar o que deseje apresentar uma alternativa à indignação e a fúria descarriada, que ajude a organizar os não poucos descontentamentos e saiba liderar o caminho para um futuro mais prospero.

15/11/2010

É un mito que a dereita non regula a economía, faino constantemente. Entrevista

David Casassas. Entrevista tirada de aqui. A orixinal apareceu en La Opinión de A Cruña en 9 de Novembro de 2010.

A publicación galega La Opinión A Coruña entrevistou a David Casassas, membro do comité de redacción de Sen Permiso, con motivo da presentación do seu libro La ciudad en llamas. La vigencia del republicanismo de Adam Smith (Montesinos, 2010). A entrevista, que reproducimos a continuación, realizouna a xornalista Isabel Bugallal.

Está empeñado en explicar que o liberalismo que tantas veces invocan os partidos conservadores, incluído o PP, nada ten a ver co ideario do autor de A riqueza das nacións, o economista e filósofo ilustrado Adam Smith. Así o expón en La ciudad en llamas. La vigencia del republicanismo de Adam Smith (Montesinos, 2010) o profesor de Teoría Social da Universidade Autónoma de Barcelona David Casassas, que onte presentou o libro na Coruña convidado pola agrupación dos Novos Republicanos.

-Liberalismo de dereitas?

- A doutrina liberal di: somos libres cando somos iguais ante a lei. A liberdade, pois, non ten fundamentos materiais, polo cal non hai que intervir na sociedade e na economía: iso favorece á dereita.

- Iso dicía tamén Adam Smith?

- En absoluto. O termo liberal, no sentido moderno, aparece en 1812, coas Cortes de Cádiz. Antes do século XIX, o termo 'liberal' significaba, simplemente, 'xeneroso' e neste único sentido utilizárono Adam Smith ou Locke -dos que agora se reclaman herdeiros certos adaíles do liberalismo-. A idea de liberdade de Smith ten unha base material: só hai liberdade cando se goza de autonomía material, un é libre cando é independente, e iso require intervención pública, tamén para Adam Smith. Pero o liberalismo rompe con esta idea.

- Ou sexa que a dereita o interpreta mal.

- Fai unha interpretación moi parcial. Politicamente, é un engano e, academicamente, unha patraña. Adam Smith non cría que os mercados fosen independentes da política, senón que os presentou como o resultado de certa acción política, e esa acción política ten a ver coa defensa dos intereses dunha clase privilexiada ou do conxunto da poboación. Para que "a man invisible" [a autorregulación do mercado] funcione, necesitamos a intervención do Estado na economía; a partir de aí, poderemos promover intercambios en condicións de liberdade e facer que os individuos sexan realmente libres.

- Quizais tería que dicirllo a Esperanza Aguirre ou ao ideólogo de Rajoy, José María Lasalle.

- Cando se fai propaganda a curto prazo e se sesgam os discursos, aténdese pouco a razóns académicas ou de rigor histórico. O mercado pode ser un instrumento da dereita, pero tamén da esquerda, e iso hai que dicirllo. A esquerda fixo moitos agasallos á dereita: "non nos interesa o individuo ou a democracia porque é algo burgués", dixo ás veces, e iso é unha bobada; "non nos interesa a liberdade, senón a igualdade"; "non queremos o mercado"... Coidado! Iso é un desatino. A esquerda ten que entender tamén que sempre houbo e haberá mercado e que o que hai que facer é tomalo moi en serio e regulalo para que o intercambio entre os individuos sexa xusto, pero non acabar co mercado. A esquerda debe repensar o mercado. Nese sentido, interésame moito máis falar coa esquerda que con Aguirre.

- Pouco Estado, pero logo hai que socorrer aos bancos.

- Iso de que a intervención estatal só ten a ver coa esquerda é unha patochada; a dereita intervén na economía, e de que maneira: por exemplo, salvando aos bancos. Pero hai moitas outras formas de intervir na economía: con política social, con políticas públicas, reforzando a posición de independencia da xente para que poida entrar nos mercados como axentes autónomos realmente capaces de obrar. Iso faría que houbese moita máis actividade económica, o que, entre outras cousas, axudaría a saír da crise. Iso da iniciativa privada non está mal, o problema é que está reservada só a uns cantos. Outro mito co que hai que acabar: é mentira que a esquerda queira regular o mercado e a dereita non; a dereita regúlao constantemente, pero en favor das oligarquías.

- Unha receita para Zapatero?

- Alguén que se pretenda de esquerda tería que recuperar o ideal do produtor libre, no sentido máis amplo, propio da economía clásica da Ilustración, e promover políticas que garantan a seguridade material do conxunto da poboación, políticas sociais e de benestar. Unha redistribución máis xusta da riqueza, políticas de sostemento de rendas, unha educación potente, unha sanidade de calidade, servizos de coidados ás persoas... todo isto é condición necesaria non só da igualdade, senón, fundamentalmente, da liberdade. A liberdade só é posible cando estamos nunhas condicións de seguridade non que nos adormentan, como din os liberais, senón que nos estimulan para operar no mercado de forma efectiva.

- Hai unha confusión perversa entre liberalismo político e liberalismo económico?

- Quizabes haxa confusión no feito de atribuír unha xénese liberal a ideas de orixe claramente republicana: as ideas de Locke, de Smith, de quen fixeron a revolución inglesa no XVII e a francesa e a americana no XVIII. Eles non optaron por un mundo liberal no que a igualdade ante a lei é criterio de liberdade. O que pasa é que, nos dous últimos séculos, fíxose unha utilización interesada destes supostos pais do liberalismo político e económico e presentáronos como adaíles dun capitalismo que en ningún modo aseméllase ao que deixaron nos seus escritos. Eles pensaron o republicanismo comercial, unha sociedade libre no mundo da manufactura e do comercio, antes da aparición, no XIX, do capitalismo industrial, que se foi estendendo e que rompeu por completo coa ética e a preceptiva política destes autores. Non sei se aos señores do PP lles interesa, mais os académicos serios sábeno.