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03/03/2014

Sobre o trabalho académico, o assalto neoliberal às universidades e como deveria ser a educação superior

Noam Chomsky. Artigo tirado de SinPermiso e traduzido por nós. Tradução para SinPermiso de Miguel Puñoenrostro.
 
 

O que segue é a tradução castelhana de uma transcrição editada em inglês de um conjunto de observações realizadas por Noam Chomsky via Skype o passado 4 de fevereiro para uma reunião de filiados e simpatizantes do sindicato universitário sócio à União de Trabalhadores do Aço (Adjunct Faculty Association of the United Steelworkers) em Pittsburgh, PA. As manifestações do professor Chomsky produziram-se em resposta a perguntas de Robin  Clarke, Adam Davis, David Hoinski, Maria Somma, Robin J. Sowards, Matthew Ussia e Joshua Zelesnick. A transcrição escrita das respostas orais realizou-a Robin J. Sowards e a edição e redação correu a cargo do próprio Noam Chomsky. A tradução castelhana do texto inglês realizou-a para www.sinpermiso.info Mínima Estrela.

Sobre a contratação temporária de professores e o desaparecimento da carreira académica

Isso é parte do modelo de negócio. É o mesmo que a contratação de temporais na indústria ou o que os de Wall Mart chamam "sócios", empregados sem direitos sociais nem abrangência sanitária ou de desemprego, a fim de reduzir custos laborais e incrementar o servilismo laboral. Quando as universidades se convertem em empresas, como veio ocorrendo assaz sistematicamente durante a última geração como parte de um assalto neoliberal geral à população, o seu modelo de negócio entranha que o que importa é a linha de base. Os proprietários efetivos são os fiduciários (ou a legislatura, no caso das universidades públicas dos estados federados), e o que querem manter os custos baixos e se assegurar de que o pessoal laboral é dócil e obediente. E em substância, as formas de fazer isso são os temporais. Bem como a contratação de trabalhadores temporários disparou-se no período neoliberal, na universidade estamos a assistir ao mesmo fenómeno. A ideia é dividir à sociedade em dois grupos. A um dos grupos se lhe chama às vezes "plutonomia" (uma palavra usada por Citibank quando fazia publicidade entre os seus investidores sobre a melhor forma de investir fundos), o setor no topo de uma riqueza global mas concentrada sobretudo em sítios como os EEUU. O outro grupo, o resto da população, é um "precariado", gentes que vivem uma existência precária.

Essa ideia assoma de vez em quando de forma aberta. Assim, por exemplo, quando Alan Greenspan testemunhou ante o Congresso em 1997 sobre as maravilhas da economia que estava a dirigir, disse redondamente que uma das bases do seu sucesso económico era que estava a impor o que ele mesmo chamou "uma maior insegurança nos trabalhadores". Se os trabalhadores estão mais inseguros, isso é muito "são" para a sociedade, porque se os trabalhadores estão inseguros, não exigirão aumentos salariais, não irão à greve, não reclamarão direitos sociais: servirão aos seus amos tão donosa como passivamente. E isso é ótimo para a saúde económica das grandes empresas. No seu dia, a todo mundo lhe pareceu muito razoável o comentário de Greenspan, a julgar pela falta de reações e os aplausos registados. Bom, pois transfiram isso às universidades: como conseguir uma maior "insegurança" dos trabalhadores? Essencialmente, não lhes garantindo o emprego, mantendo à gente pendente de um fio que pode cortar em qualquer momento, de maneira que melhor que estejam com a boca fechada, aceitem salários ínfimos e façam o seu trabalho; e se por ventura permite-se-lhes servir baixo tão miseráveis condições durante um ano mais, que se dêem com um canto nos dentes e não peça mais. Essa é a maneira como se conseguem sociedades eficientes e sãs desde o ponto de vista das empresas. E na medida em que as universidades avançam pela via de um modelo de negócio empresarial, a precariedade é exatamente o que se impõe. E mais que veremos no vindouro.

Esse é uma feição, mas outras feições que resultam também familiares na indústria privada: assinaladamente, o aumento de estratos administrativos e burocráticos. Se tens que controlar a gente, tens que dispor de uma força administrativa que o faça. Assim, na indústria norte-americana mais que em qualquer outra parte, se acumula estrato administrativo depois de estrato administrativo: uma sorte de esbanjamento económico, mas útil para o controlo e a dominação. E o mesmo vale para as universidades. Nos passados 30 0 40 anos registou-se um aumento drástico na proporção do pessoal administrativo em relacionamento o professorado e os estudantes das faculdades: professorado e estudantes mantiveram a proporção entre eles, mas a proporção de administrativos se disparou. Um conhecido sociólogo, Benjamin Ginsberg, escreveu um muito bom livro titulado The Fall of the Faculty: The Rise of the All-Administrative University and Why It Matters (Oxford University Press, 2011), no que se descreve com detalhe o estilo empresarial de administração e níveis burocráticos multiplicados. Nem que dizer tem, com administradores profissionais mais que bem pagos: os decanos, por exemplo, que antes costumavam membros da faculdade que deixavam o labor docente para servir como gestores com a ideia de reintegrar à faculdade ao cabo de uns anos. Agora são todos profissionais, que têm que contratar a vicedecanos, secretários, etc., etc., toda a proliferação de estrutura que vai com os administradores. Todo isso é outra feição do modelo empresarial.

Mas servir-se de trabalho barato -e vulnerável- é uma prática de negócio que se remonta aos inícios mesmos da empresa privada, e os sindicatos nasceram respondendo a isso. Nas universidades, trabalho barato, vulnerável, significa ajudantes e estudantes graduados. Os estudantes graduados são ainda mais vulneráveis, é escusado dizê-lo. A ideia é transferir a instrução a trabalhadores precários, o que melhora a disciplina e o controlo, mas também permite a transferência de fundos a outros fins muito diferentes da educação. Os custos, claro está, pagam-nos os estudantes e as gentes que se vêem arrastadas a esses postos de trabalho vulneráveis. Mas é um rasgo típico de uma sociedade dirigida pela mentalidade empresarial transferir os custos à gente. Os economistas cooperam tacitamente nisso. Assim, por exemplo, imaginem que descobrem um erro na sua conta corrente e chamam ao banco para tratar do emendar. Bom, já sabem vocês o que passa. Você chama-os por telefone, e lhe sai um atendedor de chamadas com uma mensagem gravada que lhe diz: "Queremos-lhe muito, e aí tem um menu". Talvez lhe menu oferecido contém o que você procura, talvez não. Se acerta a eleger a opção oferecida correta, o que escuta a seguir é uma musiquinha, e de momento em momento uma voz que lhe diz: "Faz favor, não se retire, estamos encantados de atendê-lo", e assim pelo estilo. Ao final, decorrido um bom tempo, uma voz humana à que poder-lhe propor uma breve questão. A isso os economistas lhe chamam "eficiência". Com medidas económicas, esse sistema reduz os custos laborais do banco; folga dizer que lhe carrega os custos a você, e esses custos têm de multiplicar pelo número de utentes, que pode ser enorme: mas isso não conta como custo no cálculo económico. E se olham vocês como funciona a sociedade, encontram isso por toda a parte. Do mesmo modo, a universidade impõe custos aos estudantes e a um pessoal docente que, ademais e o ter apartado da carreira académica, se lhe mantém em uma condição que garante um porvir sem segurança. Todo isso resulta perfeitamente natural nos modelos de negócio empresariais. É nefasto para a educação, mas o seu objetivo não é a educação.

 Efetivamente, se jogamos uma mirada mais retrospetiva, a coisa revela-se mais profunda ainda. Quando tudo isto começou, a começos dos 70, suscitava muita preocupação em todo o espetro político estabelecido o ativismo dos 60, comummente conhecidos como "a época das desordens". Foi uma "época de desordens" porque o país estava a civilizar-se [com as lutas pelos direitos civis], e isso sempre é perigoso. A gente estava-se politizando e comprometia-se com a conquista de direitos para os grupos chamados "de interesses especiais": as mulheres, os trabalhadores, os camponeses, os jovens, os velhos, etc. Isso levou a uma grave reação, conduzida de forma praticamente aberta. No lado da esquerda liberal do establishment, temos um livro chamado The Crise of Democracy: Report on the Governability of Democracies to the Trilateral Commission, compilado por Michel Crozier, Samuel P. Huntington e Joji Watanuki (New York University Press, 1975) e patrocinado pela Comissão Trilateral uma organização de liberais internacionalistas. Quase toda a administração Carter recrutou-se entre as suas bichas. Estavam preocupados pelo que eles chamavam a "crise da democracia" e que não dimanava de outra coisa do excesso de democracia. Nos 60 a população -os "interesses especiais" mencionados"- pressionava para conquistar direitos dentro da areia política, o que se traduzia em demasiada pressão sobre o Estado: não podia ser. Tinha um interesse especial que deixavam de lado, e é a saber: o do setor grande empresarial; porque os seus interesses coincidem com o "interesse nacional". Supõe-se que o setor grande empresarial controla ao Estado, de maneira que não há nem que falar dos seus interesses. Mas os "interesses especiais" causavam problemas, e estes cavaleiros chegaram à conclusão de que "temos que ter mais moderação na democracia": o público tinha que voltar a ser passivo e regressar à apatia. De particular preocupação resultavam-lhes as escolas e as universidades, que, diziam, não cumpriam bem a sua tarefa de "adoutrinar os jovens" convenientemente: o ativismo estudantil -o movimento de direitos civis, o movimento antibelicista, o movimento feminista, os movimentos ambientalistas- provava que os jovens não estavam corretamente adoutrinados.

Bem, como adoutrinar os jovens? Há mais de uma forma. Uma forma é carregá-los com dívidas desesperadamente pesadas para sufragar os seus estudos. A dívida é uma armadilha, especialmente a dívida estudantil, que é enorme, bem mais grande que o volume de dívida  acumulada nos cartões de crédito. É uma armadilha para o resto da sua vida porque as leis estão desenhadas para que não possam sair dela. Se, digamos, uma empresa incorre em demasiada dívida, pode declarar-se em quebra. Mas se os estudantes suspendem pagamentos, nunca poderão conseguir um cartão da segurança social. É uma técnica de disciplinamento. Não digo eu que isso se fizesse assim com tal propósito, mas desde depois tem esse efeito. E resulta assaz difícil de defender em termos económicos. Olhem vocês um pouco o que passa pelo mundo: a educação superior é em quase todas partes gratuita. Nos países com melhore-los níveis educativos, Finlândia (que anda em cabeça), ponhamos por caso, a educação superior é pública e gratuita. E em um país rico e bem sucedido como Alemanha é pública e gratuita. Em México, um país pobre que, no entanto, tem níveis de educação muito decentes se atendemos às dificuldades económicas às que se enfrenta, é pública e gratuita. Mas olhem o que passa nos EEUU: se nos remontamos aos 40 e os 50, a educação superior acercava-se muito à gratuitidade. A Lei GI ofereceu educação superior gratuita a uma grande quantidade de gente que jamais poderia aceder à universidade. Foi muito bom para eles e foi muito bom para a economia e para a sociedade; foi parte das causas que explicam a elevada taxa de crescimento económico. Inclusive nas entidades privadas, a educação chegou a ser praticamente gratuita. Eu, por exemplo: entrei na faculdade em 1945, em uma universidade da Ivy League, a Universidade de Pensilvania, e a matrícula custava 100 dólares. Isso seriam uns 800 dólares de hoje. E era muito fácil aceder a uma bolsa, de maneira que podias viver em casa, trabalhar e ir à faculdade, sem que te custasse nada. O que agora ocorre é ultrajante. Tenho netos na universidade que têm que pagar a matrícula e trabalhar, e é quase impossível. Para os estudantes, isso é uma técnica disciplinaria.

E outra técnica de adoutrinamiento é cortar o contacto dos estudantes com o pessoal docente: classes grandes, professores temporários que, sobrecarregados de tarefas, mal podem viver com um salário de ajudantes. E já que não tens segurança no posto de trabalho, não podes construir uma carreira, não podes ir a outro sítio e conseguir mais. Todas essas são técnicas disciplinantes, de adoutrinamiento e de controlo. E é muito similar ao que um espera que ocorra em uma fábrica, na que os trabalhadores fabris têm de ser disciplinados, têm de ser obedientes; e supõe-se que não devem desempenhar nenhum papel em, digamos, a organização da produção ou na determinação do funcionamento da planta de trabalho: isso é coisa dos executivos. Isto se transfere agora às universidades. E eu acho que ninguém que tenha algo de experiência na empresa privada e na indústria deveria se surpreender; assim trabalham.

Sobre como deveria ser a educação superior


Para começar, deveríamos eliminar toda a ideia de que alguma vez teve uma "idade de ouro". As coisas eram diferentes, e em certos sentidos, melhores no passado, mas distavam muito de ser perfeitas. As universidades tradicionais eram, por exemplo, extremamente hierárquicas, com muito pouca participação democrática na tomada de decisões. Uma parte do ativismo dos 60 consistiu na tentativa de democratizar as universidades, de incorporar, digamos, a representantes estudantis às juntas de faculdade, de animar ao pessoal não docente a participar. Esses esforços fizeram-se por iniciativa dos estudantes, e não deixaram de ter certo sucesso. A maioria de universidades desfrutam agora de algum grau de participação estudantil nas decisões das faculdades. E eu acho que esse é o tipo de coisas que deveríamos agora seguir promovendo: uma instituição democrática em que a gente que está na instituição, qualquer que seja (professores ordinários, estudantes, pessoal não docente) participam na determinação da natureza da instituição e do seu funcionamento; e o mesmo vale para as fábricas.

Não são estas ideias de esquerda radical, dito seja de passagem. Procedem diretamente do liberalismo clássico. Se lêem, por exemplo, a John Stuart Mill, uma figura capital da tradição liberal clássica, verão que dava por certo que os postos de trabalho tinham que ser geridos e controlados pela gente que trabalhava neles: isso é liberdade e democracia (se veja, por exemplo, John Stuart Mill, Principles of Political Economy, book 4, ch. 7). Vemos as mesmas ideias nos EEUU. Nos Cavaleiros do Trabalho, ponhamos por caso: um dos objetivos declarados desta organização era "instituir organizações cooperativas que tendam a superar o sistema salarial introduzindo um sistema industrial cooperativo" (veja-se a "Founding Ceremony" para as novas associações locais). Ou pense-se em alguém como John Dewey, um filósofo social da corrente principal do século XX, quem não só advogou por uma educação encaminhada à independência criativa, senão também pelo controlo operário na indústria, o que ele chamava "democracia industrial". Dizia que até tanto as instituições cruciais da sociedade -produção, comércio, transporte, meios de comunicação- não estejam baixo controlo democrático, a "política [será] a sombra projetada no conjunto da sociedade pela grande empresa" (John Dewey, "The Need for a New Party" [1931]). Esta ideia é quase elementar, e joga raízes profundas na história norte-americana e no liberalismo clássico; deveria constituir uma sorte de segunda natureza da gente, e deveria valer igualmente para as universidades. Há certas decisões em uma universidade onde não podes querer transparência democrática porque tens que preservar a privacidade estudantil, ponhamos por caso, e há vários tipos de assuntos sensíveis, mas no grosso da atividade universitária normal não há razão para não considerar a participação direta como algo, não já legítimo, senão útil. No meu departamento, por exemplo, tivemos durante 40 anos representantes estudantis que proporcionavam uma valiosa ajuda com a sua participação nas reuniões de departamento.

Sobre a "governança partilhada" e o controlo operário


A universidade é provavelmente a instituição social que mais se acerca na nossa sociedade ao controlo operário democrático. Dentro de um departamento, por exemplo, é bastante normal que ao menos para os professores ordinários tenha capacidade para determinar uma parte substancial das tarefas que conformam o seu trabalho: que vão ensinar, quando vão dar as classes, qual será o programa. E o grosso das decisões sobre o trabalho efetuado na faculdade caem em boa medida baixo o controlo do professorado ordinário. Agora, nem que dizer tem, há um nível administrativo superior ao que não podes nem eludir nem controlar. A faculdade pode recomendar a alguém para ser professor titular, ponhamos por caso, e estrelar-se contra o critério dos decanos ou do reitor, ou inclusive dos patronos ou dos legisladores. Não é que ocorra muito com frequência, mas pode ocorrer e ocorre. E isso é parte da estrutura de fundo que, ainda que sempre existiu, era um problema menor nos tempos em que a administração saía elegida pela faculdade e era em princípio revogável pela faculdade. Em um sistema representativo, precisas ter a alguém fazendo labores administrativas, mas tem que poder ser revogável, submetido como está à autoridade das gentes às que administra. Isso é a cada vez menos verdade. Há mais e mais administradores profissionais, estrato sobre estrato, com mais e mais posições a cada vez mais remotas do controlo das faculdades. Referi-me antes a The Fall of the Faculty de Benjamin Ginsberg, um livro que entra em um montão de detalhes sobre o funcionamento de várias universidades às que submeteu a detalhado escrutínio:  Johns Hopkins, Cornell e muitas outras.

O professorado universitário veio sendo mais e mais reduzido à categoria de trabalhadores temporários aos que se assegura uma precária existência sem acesso à carreira académica. Tenho conhecidos que são, efetivamente, leitores permanente; não conseguiram o estatus de professores ordinários; têm que concorrer a cada ano para poder ser contratados outra vez. Não deveriam ocorrer estas coisas, não deveríamos o permitir. E no caso dos ajudantes, a coisa tem-se institucionalizado: não se lhes permite ser membros do aparelho de tomada de decisões e se lhes exclui da segurança no posto de trabalho, o que não serve senão para amplificar o problema. Eu acho que o pessoal não docente deveria ser integrado também na tomada de decisões, porque também fazem parte da universidade. De modo que há um montão que fazer, mas acho que se pode entender facilmente por que se desenvolvem essas tendências. São parte da imposição do modelo de negócios em todos e a cada um das feições da vida. Essa é a ideologia neoliberal baixo a que o grosso do mundo tem estado vivendo nos últimos 40 anos. É muito daninha para a gente, e teve resistências a ela. E é digno de menção o que ao menos duas partes do mundo conseguiram em certa medida escapar dela: o Leste asiático, que nunca a aceitou realmente, e a América do Sul dos últimos 15 anos.

Sobre a pretendida necessidade de "flexibilidade"
"Flexibilidade" é uma palavra muito familiar para os trabalhadores industriais. Parte do telefonema "reforma laboral" consiste em fazer mais "flexível" o trabalho, em facilitar a contratação e o despedimento da gente. Também isto é um modo de assegurar a maximización do benefício e o controlo. Supõe-se que a "flexibilidade" é uma boa coisa, igual que a "maior insegurança dos trabalhadores". Deixando agora de lado a indústria, para a que vale o mesmo, nas universidades isso carece de toda a justificativa. Ponhamos um caso no que se regista submatriculación em algum sítio. Não é um grande problema. Uma das minhas filhas ensina em uma universidade; a outra noite chamou-me e contou-me que a sua carga lectiva mudava porque um dos cursos oferecidos registava menos matrículas das previstas. De acordo, o mundo não acabar-se-á, se limitaram a reestruturar o plano docente: ensinas outro curso, ou uma secção extra, ou algo pelo estilo. Não há que jogar à gente ou fazer inseguro o seu posto de trabalho por causa da variação do número de matriculados nos cursos. Há mil formas de ajustar a essa variação. A ideia de que o trabalho deve submeter às condições da "flexibilidade" não é senão outra técnica corrente de controlo e dominação. Por que não falam de despedir aos administradores se não há nada para eles este semestre? Ou aos patronos: pára que servem? A situação é a mesma para os altos executivos da indústria; se o trabalho tem que ser flexível, por que não a gestão executiva? O grosso dos altos executivos são assaz inúteis e ainda daninhos, de modo que nos livremos de eles! E assim indefinidamente. Só para comentar notícias destes últimos dias, ponhamos o caso de Jamie Dimon, o presidente do conselho de administração do banco JP Morgan Chase: acaba de receber um substancial incremento nos seus emolumentos, quase o duplo do seu paga habitual, em agradecimento por ter salvado ao banco das acusações penais que mandaria ao cárcere aos seus altos executivos: tudo ficou em multas por um monto de 20 mil milhões de dólares por atividades delituosas provadas. Bem, podemos imaginar que livrar de alguém assim poderia ser útil para a economia. Mas não se fala disso quando se fala de "reforma laboral". Fala-se de gente trabalhadora que tem que sofrer, e tem que sofrer por insegurança, por não saber de onde sacarão o pão amanhã: assim se lhes disciplina e se lhes faz obedientes para que não questionem nada nem exijam os seus direitos. Essa é a forma de operar dos sistemas tiránicos. E o mundo dos negócios é um sistema tiránico. Quando se impõe às universidades, te dás conta de que reflete as mesmas ideias. Não deveria ser um segredo.

Sobre o propósito da educação

Trata-se de debates que se retrotraem à Ilustração, quando se propuseram realmente as questões da educação superior e da educação de massas, não só a educação para o clero e a aristocracia. E teve basicamente dois modelos em discussão nos séculos XVIII e XIX. Discutiram-se com energia assaz evocativa. Uma imagem da educação era a de um copo que se enche, digamos, de água. É o que agora chamamos "ensinar para o exame": vertes água no copo e depois o copo devolve a água. Mas é um copo bastante furado, como todos tivemos ocasião de experimentar na escola: memorizas algo no que não tens muito interesse para poder passar um exame, e ao cabo de uma semana esqueceste de que ia o curso. O modelo de copo agora se chama "nenhum menino ao fundo", "ensinar para o exame", "carreira à cimeira", e coisas pelo estilo nas diferentes universidades. Os pensadores da Ilustração opuseram-se a esse modelo.

O outro modelo descrevia-se como lançar uma corda pela que o estudante possa ir progredindo à sua maneira e por própria iniciativa, talvez sacudindo a corda, talvez decidindo ir a outro sítio, talvez propondo questões. Lançar a corda significa impor certo tipo de estrutura. Assim, um programa educativo, qualquer que seja, um curso de física ou de algo, não funciona como funciona qualquer outra coisa; tem certa estrutura. Mas o seu objetivo consiste em que o estudante adquira a capacidade para inquirir, para criar, para inovar, para desafiar: isso é a educação. Um físico mundialmente célebre quando, nos seus cursos para primeiro de carreira, se lhe perguntava "que parte do programa cobriremos este semestre?", contestava: "não importa o que cubramos, o que importa é o que descubram vocês". Têm que ganhar a capacidade e a autoconfiança nesta matéria para desafiar e criar e inovar, e assim aprenderão; assim farão vosso o material e seguir adiante. Não é coisa de acumular uma série afixada de feitos com que depois possam soltar por escrito em um exame para esquecer ao dia seguinte.

São dois modelos radicalmente diferentes de educação. O ideal da Ilustração era o segundo, e eu acho que o ideal ao que deveríamos aspirar. Nisso consiste a educação para valer, desde o jardim de infância até a universidade. O verdadeiro é que há programas desse tipo para os jardins de infância, e bastante bons.

Sobre o amor à docência

Queremos, desde depois, gente, professores e estudantes, comprometidos em atividades que resultem satisfatórias, desfrutáveis, atividades que sejam desafios, que resultem apaixonantes. Eu não acho que isso seja tão difícil. Até os meninos pequenos são criativos, inquisitivos, querem saber coisas, querem entendê-las, e a não ser que te saquem isso à força da cabeça, o anseio perdura de por vida. Se tens oportunidades para desenvolver esses compromissos e preocupar por essas coisas, são as mais satisfatórias da vida. E isso vale o mesmo para o pesquisador em física que para o carpinteiro; toenes que tentar criar algo valioso, lidar com problemas difíceis e os resolver. Eu acho que que isso é o que faz do trabalho o tipo de atividade que queres fazer; e fazê-la ainda que não estejas obrigado à fazer. Em uma universidade que funcione razoavelmente, encontrarás gente que trabalha o tempo todo porque gostam o que fazem; é o que querem fazer; tem-se-lhes dado a oportunidade, têm os recursos, tem-se-lhes animado a ser livres e independentes e criativos: que melhor que isso? E isso também pode fazer em qualquer nível.

Vale a pena refletir um pouco sobre alguns dos programas educativos imaginativos e criativos que se desenvolvem nos diferentes níveis. Assim, por exemplo, no outro dia alguém me contava de um programa que usa nas faculdades, um programa de ciência no que se propõe aos estudantes uma interessante questão: "Como pode ser que um mosquito voa baixo a chuva?" Difícil questão, quando se pensa um pouco nela. Se algo impactasse em um ser humano com a força de uma gota de água que atinge a um mosquito, abatê-lo-ia imediatamente. Como pode, pois, o mosquito evitar o aplastamento imediato? Como pode seguir voando? Se queres seguir dando-lhe voltadas a este assunto -dificilíssimo assunto-, tens que fazer incursões nas matemáticas, na física e na biologia e te propor questões o suficientemente difíceis como para as ver como um desafio que acorda a necessidade das responder.

Isso é o que deveria ser a educação em todos os níveis, desde o jardim de infância. Há programas para jardins de infância nos que se dá à cada menino, por exemplo, uma coleção de pequenas peças: seixos, conchas, sementes e coisas pelo estilo. Propõe-se então à classe a tarefa de descobrir quais são as sementes. Começa com o que chamam uma "conferência científica": as crianças falam entre si e tratam de se imaginar quais são sementes. E, claro, há algum maestro que orienta, mas a ideia é deixar que os meninos vão pensando. Depois de um momento, tentam vários experimentos tendentes a averiguar quais são as sementes. Dá-se-lhe à cada menino uma lupa e, com ajuda do maestro, rompe uma semente e olha dentro e encontra o embrião que faz crescer à semente. Esses meninos aprendem realmente algo: não só algo sobre as sementes e sobre o que as faz crescer; também aprendem algo sobre os processos de descoberta. Aprendem a gozar com a descoberta e a criação, e isso é o que permitir-te-á te comportar de maneira independente fosse do aula, fora do curso.

O mesmo vale para toda a educação, até a universidade. Em um seminário universitário razoável, não esperas que os estudantes tomem apontes literais e repitam todo o que o teu digas; o que esperas é que te digam se te equivocas, ou que venham com novas ideias desafiantes, que abram caminhos que não era pensados antes. Isso é o que é a educação em todos os níveis. Não consiste em instilar informação na cabeça de alguém que depois a recitará, senão que consiste em capacitar à gente para que cheguem a ser pessoas criativas e independentes e possam encontrar gosto na descoberta e a criação e a criatividade a qualquer nível ou em quaisquer domínios aos que lhes levem os seus interesses.

Sobre o uso da retórica empresarial contra o assalto empresarial à universidade

Isso é como se propor a tarefa de justificar ante o proprietário de escravos que ninguém deveria ser escravo. Estão aqui em um nível da indagação moral no que resulta assaz difícil encontrar respostas. Somos seres humanos com direitos humanos. É bom para o indivíduo, é bom para a sociedade e até é bom para a economia em sentido estreito o que a gente seja criativa e independente e livre. Todo mundo sai ganhando de que a gente seja capaz de participar, de controlar os seus destinos, de trabalhar com outros: pode que isso não maximize os benefícios nem a dominação, mas por que teríamos que preocupar desses valores?

Um conselho às organizações sindicais dos professores precários

Já sabem melhor que eu o que há que fazer, o tipo de problemas aos que vos enfrentam. Segam adiante e façam o que tenham que fazer. Não vos deixem intimidar, não vos amedrentéis, e reconheçam que o futuro pode estar nas nossas mãos se queremos que o esteja.

30/10/2013

Desobedecer a universidade-empresa, entrevista

Tullio Gregory. À revolta entre a mocidade, blogue coletivo de formaçom e informaçom desde umha ótica de esquerdas, traduz este artigo desde Sin Permiso (aqui). Boa leitura. Tullio Gregory (1929) estudou Filosofia na Universidade La Sapienza de Roma, em que foi, a partir de 1962, professor de História da Filosofia Medieval e desde 1967, de História da Filosofia, dirigindo o departamento de Investigações Histórico-Filosóficas e Pedagógicas. Destacam os seus estudos sobre as transições do pensamento filosófico, científico e teológico entre o Medievo e o século XVII. Roberto Ciccarelli é jornalista do diário italiano Il Manifesto.






 




Embora centrada exclusivamente no estado da educação superior italiana, esta entrevista com o filósofo Tullio Gregory de Roberto Ciccarelli, em que critica com dureza os modos avaliação universitária no seu país, tem ecos e ensinos para todos aqueles que se inquietam pela aniquiladora mercantilização de uma universidade em que, segundo o mesmo Gregory, «se impôs uma linguagem bancária».
  
Vinte e cinco anos após a primeira avaliação da investigação impulsionada em 1986 por Margaret Thatcher na Inglaterra, também Itália pôs em marcha em 2011 a sua primeira experiência com a Agência Nacional de Avaliação do Sistema Universitário e da Investigação (em italiano, Agenzia Nazionale dei Valutazione do sistema Universitário e della Ricerca, ANVUR). Hoje, um sistema mau concebido, ao que primeiro o centroesquerda em 2007 e depois a posterior reforma Gelmini [1] outorgaram grande poder, mantém como refém a uma universidade desfalecida.

As «classificações» que deviam ter instituído uma gradação «objetiva» entre universidades «virtuosas» e «defeituosas» se revelaram bem pouco «objetivas» (se veja Il Manifesto do 26 de julho); clausura-a do processo de habilitações nacionais para estabelecer o "mérito" dos pesquisadores pospôs-se de novo ao 30 de novembro e demitiram 74 pesquisadores estrangeiros de 53 comissões sobre 184. O motor da avaliação tem-se embalado, enquanto na França o governo socialista anunciou em janeiro clausura-a do AERES (Agence d´Évaluation da Recherche et de l´Enseignement Supérieur), a agência que desde 2006 leva ocupando da avaliação das universidades e da investigação. «Um delírio burocrático» é como a definiu a Academia das Ciências. Na Itália, em mudança, segue-se por um caminho que não reportará benefícios e corre o risco de transformar a natureza mesma da investigação submetida a uma avaliação abstrata, imperativa e empresarial.

Assim o acha Tullio Gregory, um dos filósofos mais conhecidos da Itália, académico dos Lincei, [2] que vislumbra assim mesmo outro risco no modelo ANVUR: «A polémica em curso sobre a avaliação da investigação nas universidades italianas e por tanto sobre as classificações finais das diversas sedes - afirma - pode converter-se um espaço de exercícios retóricos ou de competições de campanário se não se vêem os limites das avaliações e se reajusta por tanto a sua importância».

Quais são os limites deste modelo de avaliação?

A sua abstração. A ANVUR pretende avaliar "entes" - com toda a vaciedade de um termo «metafísico» -, prescindindo também das infraestruturas (laboratórios, bibliotecas, e horários de abertura, incremento dos instrumentos científicos e dos patrimónios bibliográficos) e dos resultados efetivos da investigação dos indivíduos: o pesquisador fica reduzido a um «posto docente» (isto é, a uma lacuna de um sistema informático), o resultado do seu trabalho é um «produto» cujo valor se mede pelo sucesso no mercado. Como escreveu Sabino Cassese, aplicando «técnicas de engenharia» e métodos burocrático-administrativos, a ANVUR «matou a avaliação» e talvez «se matou a si mesma».

É possível imaginar uma alternativa a este sistema?

Faz falta redescubrir a investigação ? e o ensino ? no seu concreción individual, que escapa aos critérios da ANVUR. Pessoalmente, se tivesse que aconselhar a um estudante que opções cursar, prescindiría do tudo das avaliações da ANVUR. Se o jovem quisesse, por exemplo, estudar história da Filosofia Medieval, aconselhar-lhe-ia não só a Universidade do Salento, em Lecce, à que se avalia bem, senão também a Universidade de Bari, onde há também uma magnífica escola de Filologia Clássica. Neste caso, não teria em consideração nenhuma a classificação por parte da ANVUR desta sede, das últimas entre as grandes. Não consideraria em mudança  estudar Filologia Clássica, por mais que a ANVUR as avalie positivamente, nessas universidades, nas que se admite que se apresente também ao exame de literatura grega antiga quem não tem conhecimento da língua. E poderia dar muitos outros exemplos. 

Na sua opinião, é possível avaliar com critérios objetivos as opções escolhidas pelos estudantes ou os pesquisadores?

Não é possível avaliar universidades, faculdades, departamentos como se fossem realidades homogéneas no seu interior. A situação é extremamente fragmentaria e o único ponto válido de referência constituem-no os professores individualmente, o seu ensino, as investigações que promovem. Ainda que não se deva infravalorar o facto de que hoje o panorama universitário está mutando com a mudança dos ensinantes por translado ou aposentação. E isto incide muito sobre os critérios da eleição. 

A ANVUR é um dos pilares da reforma Gelmini. No atual estado de aplicação da reforma, como julga o futuro da Universidade? 

Acho que é um das feições que contribuiu ao declive da universidade italiana como local primordial da alta cultura e da investigação especializada. Tudo começou quando a universidade se viu acometida, sem reagir, por uma série de reformas inconexas impulsionadas por uma classe política, diferente segundo os anos, mas conforme na sua indiferença pela cultura e a investigação. Multiplicaram-se as matérias de ensino sem nenhuma motivação científica, criando um precariado inútil. Suprimiram-se as oposições para disciplinas individuais, negando por tanto a especialização que deveria caracterizar ao ensino universitário. Os exames reduzem-se à contagem dos chamados «créditos», exemplificação de um mundo no que se impôs uma linguagem empresarial e bancário. Ao fazer assim se quer reconduzir o labor de um estudante a determinadas horas de estudo em relacionamento com um número predefinido de páginas que estudar para o exame. As dezenas de textos, os milhares de páginas que se pediam antanho são hoje frutos proibidos, como a discussão na língua respetiva das teses em língua e literatura estrangeiras.  

Há alguma maneira de resistir à transformação empresarial das universidades? 

Se alguma universidade quisesse voltar a ser local de ensino e de formação superior, deveria recuperar a sua própria autonomia e a sua própria dignidade reduzindo radicalmente o número de matérias de ensino, ignorando de facto as disposições ministeriais. Assim me parece que se comportou Direito na Sapienza de Roma, propondo cursos do mais alto nível de especialização, selecionando a professores e estudantes de acordo com esta perspetiva.


Notas:

[1] A reforma Gelmini levada a cabo por Mariastella Gelmini (1973), ministra do governo Berlusconi entre 2008 e 2011, e titular da carteira cujo nome é, de certo, de "Instrução, Universidades e Investigação" responsável pelo Decreto Lei 180/2008 sobre "Disposições urgentes relativas ao direito ao estudo, a valoração do mérito e a qualidade do sistema universitário e da investigação". 

[2] A Accademia Nazionale dei Lincei, fundada em 1603, é a máxima instituição cultural italiana e a academia científica mais antiga do mundo.   

17/10/2013

Por que o governo 'Vermelho-Verde' da Noruega foi derrotado pela coligação de direita?

Asbjørn Wahl e Roy Pedersen. Artigo tirado do Esquerda.net (aqui). Artigo de Asbjørn Wahl (assessor do sindicato dos trabalhadores municipais e funcionários públicos de Noruega) e Roy Pedersen (presidente da Confederação de Sindicatos – LO - da Noruega). Tradução de Vicente Abella para sinpermiso.info e de Carlos Santos para esquerda.net

A evolução política da Noruega segue o padrão que temos presenciado país atrás de país na Europa onde os partidos à esquerda dos social-democratas se uniram a eles no governo. Todas estas experiências, sem exceção, passaram do negativo ao desastre. Por Asbjørn Wahl e Roy Pedersen.
Noruega: Manifestação dos trabalhadores do setor público em 2012
O governo da coligação Vermelha-Verde da Noruega, cuja plataforma política foi qualificada, quando assumiu o poder em 2005, como a mais progressista da Europa, sofreu uma amarga derrota nas eleições parlamentares de 9 de setembro. Uma coligação de partidos de centro-direita e direita, na qual se inclui um partido populista, obteve uma sólida maioria e está atualmente (27 de setembro) a negociar a plataforma política do novo governo.
Este acontecimento teve lugar num contexto em que os rendimentos do petróleo enchem as arcas públicas, a crise económica passa virtualmente sem ser sentida, a taxa de desemprego encontra-se no seu recorde mais baixo, os salários reais têm estado a aumentar de forma constante desde há bastante tempo e a maior parte do estado de bem-estar permanece incólume. Em pouco tempo, o país, com a sua abundância de recursos de petróleo e gás natural, e uma história de democracia e igualdade social consagradas, representa a afortunada exceção ao resto do mundo. Como é possível, então, que um governo Vermelho-Verde tenha perdido as eleições em tais circunstâncias?
Que aconteceu?
Comecemos por contar o que aconteceu. O governo derrotado era constituído por três partidos políticos (em parênteses a percentagem de votos nas recentes eleições e variação desde 2009): o Partido Trabalhista (30.8%, -4.5), o Partido Socialista de Esquerda (4.1%, -2.1) e o Partido do Centro (um partido principalmente rural ou camponês: 5.5%, -0.7). Este governo de maioria chegou ao poder em 2005 e foi reeleito em 2009. A oposição compunha-se principalmente (de direita a centro) de Partido do Progresso (16.3%, -6.6), Partido Conservador (26.8%, +9.6), Partido Liberal (5.2, +1.4) e os Democratas Cristãos (5.6%, -0.0).
O vencedor das eleições foi, portanto, o Partido Conservador, que tinha suavizado estrategicamente o seu discurso, em particular o dirigido ao movimento sindicalista, da mesma maneira que os Conservadores Suecos o fizeram com sucesso nas suas eleições, ainda que, depois de as ganhar, não suavizassem a sua prática política. A conjuntura no parlamento norueguês apresenta-se agora da seguinte maneira: os quatro partidos do Centro-Direita detêm 96 parlamentares, a aliança Vermelha-Verde 72, enquanto o neófito Partido dos Verdes obteve um. O Partido Vermelho não obteve nenhum mandato.
Existem fortes contradições no seio da coligação de Centro-Direita – particularmente entre o Partido do Progresso, por um lado, e os Democratas Cristãos e o Partido Liberal, pelo outro. Apesar de tudo, os quatro partidos asseguraram que a vitória eleitoral desse lugar a um novo governo de direita e, efetivamente, é o que vai ocorrer.
Os antecedentes
É importante conhecer os antecedentes do governo Vermelho-Verde derrotado para entender o que aconteceu nas eleições. Há que retroceder aos anos 2000-1, quando o Partido Trabalhista, já com Jens Stoltenberg como primeiro-ministro, liderava um governo de minoria. Esse governo levou a cabo um extenso programa de privatização e desregulamentação –e outras políticas de "Terceira Via" inspiradas em Toni Blair–, que fez com que a sua popularidade caísse entre os votantes tradicionais. O resultado foram umas eleições catastróficas em 2001, nas quais o Partido Trabalhista só obteve 24 por cento dos votos, o resultado mais baixo em eleições parlamentares desde 1924, que propiciaram um governo de Centro-Direita.
A situação deu a oportunidade de intervenção a um amplo setor do movimento sindicalista e outras forças progressistas. Formou-se então uma ampla coligação de forças sociais e, particularmente, o movimento sindicalista, sob a pressão de muitas das suas ramificações locais, adotou um papel político mais ativo e progressista. Em pouco tempo, estas forças empurraram o Partido Trabalhista para a esquerda e, pela primeira vez na história, forçaram-no a uma coligação com o Partido Socialista de Esquerda e o Partido do Centro. Com a pressão das mesmas forças, os três partidos empreenderam uma campanha por uma plataforma antiprivatização em 2005, ganharam as eleições e formaram um governo baseado na plataforma política mais progressista da Europa (ainda que a concorrência não seja muito dura).
Podem identificar-se quatro linhas principais que contribuíram para o sucesso:
1. Concentrar-se em análises alternativos – uma visão crítica sobre os acontecimentos atuais.
2. Construir alianças novas, mais amplas e menos tradicionais.
3. Desenvolver alternativas concretas à privatização e mercantilização.
4. Outorgar aos sindicatos papéis políticos mais independentes.
Entre outras coisas, a Confederação Norueguesa de Sindicatos (LO), pela primeira vez na sua história, apelou aos cidadãos a votarem por "um dos partidos Vermelho-Verdes", e não só pelo Partido Trabalhista, como tinha sido regra até então. Estes acontecimentos contribuíram para polarizar a campanha eleitoral entre a esquerda e a direita, algo que deu aos cidadãos alternativas políticas mais claras e os ajudou a mobilizarem-se por uma mudança progressista.
O governo Vermelho-Verde de 2005 começou o seu mandato implantando um grande número de políticas progressistas. Ainda assim, com a passagem do tempo e o declínio da pressão por parte dos movimentos, o governo retomou os posicionamentos políticos tradicionais e contrários ao Novo Curso que tinha prometido. Apesar de um amplo setor do movimento sindicalista ter ganho maior independência do Partido Trabalhista, outro setor mantinha-se ainda demasiado fiel para se opor e manter a pressão, quando disposições do Estado Social foram debilitadas ou orientadas para o mercado pelo seu "próprio" governo. Por outras palavras, o movimento sindicalista fracassou na sua tentativa de abordagem da transição do Partido Trabalhista da oposição para o governo. Este fracasso em manter a pressão sobre o Partido Trabalhista contribuiu provavelmente para a atual derrota eleitoral do governo Vermelho-Verde e transferiu parte da responsabilidade para o movimento sindicalista.
Os fundamentos do descontentamento
Com tudo isto, por que é que cada vez mais votantes vermelho-verdes estão descontentes com o "seu próprio" governo? Não se tratou só dos salários, dos rendimentos ou das condições de vida materiais dos cidadãos (à exceção dos exorbitantes preços da habitação, que fazem com que os jovens tenham cada vez mais dificuldades para aceder ao mercado dos imóveis). Está relacionado, sobretudo, com a evolução do mercado de trabalho (não todo, pois obviamente existe certa polarização). Aqueles que trabalhavam em condições mais duras não se sentiam representados pela aliança Vermelho-Verde. Muito pelo contrário, embora sob pressão por parte do movimento sindicalista, o governo introduziu algumas medidas importantes contra o dumping social.
A reestruturação do sector público através de políticas inspiradas na Nova Gestão Pública foi recebida com grande frustração e descontentamento –concretamente a reforma hospitalar sumamente impopular. Criou-se uma cultura da desconfiança –em particular como resultado do modelo de gestão por objetivos, o qual tem trazido consigo um crescente controle de cima, informes mais e mais exaustivos, uma maior centralização do poder juntamente com uma descentralização da responsabilidade, menos influência e controle sobre o trabalho próprio e maiores exigências de lealdade à gestão.
Em diversas partes tanto do setor público como do setor privado a crescente concorrência, fragmentação de empresas, externalização e incremento de investidores financeiros mais agressivos contribuíram para aumentar a intensidade do trabalho até um nível quase insuportável para muitos trabalhadores. Esta tendência está particularmente arreigada onde os sindicatos são débeis, ou onde os patrões, através da externalização, do trabalho concorrencial e do incremento dos empregos temporários, conseguiram não só debilitar mas inclusive desfazer os sindicatos. Esta crescente brutalização do trabalho cria uma sensação de impotência, resignação e frustração. As agressões e o descontentamento resultantes dirigem-se, certamente, aos políticos que estão no poder –e com razão.
Em última instância, a política de subsídios aos desempregados, orientada para aqueles que se encontram nas situações mais desprotegidas dentro do mercado de trabalho, não é entendida como uma ajuda por parte de um generoso estado do bem-estar, mas como um castigo repressivo e disciplinar. Certos componentes da ideologia do subsídio ao desemprego restauram parte da moral burguesa de finais do século XIX, segundo a qual os problemas sociais, o desemprego e a exclusão do mercado de trabalho deixam de ser considerados um problema social para, de novo, serem vistos como um problema individual –e a deontologia individual é o maior problema.
O governo Vermelho-Verde tinha-se tornado cada vez mais impreciso quanto às políticas de privatização e tinha fomentado uma comercialização extensiva de infentários. A reforma das pensões debilitou e individualizou o sistema de pensões ao excluir alguns grupos de salários baixos de um esquema de reforma antecipada, e também cortou as futuras pensões para os jovens. Tanto na pesca como na agricultura o governo seguiu políticas que contribuíram para introduzir a propriedade capitalista nessas indústrias, que no passado eram fortemente regulamentadas e organizadas de forma coletiva através de associações de produtores.
Ao contrário do que aconteceu na campanha eleitoral anterior, desta vez o governo Vermelho-Verde não propôs nenhuma reforma progressista para que os seus partidários pudessem mobilizar-se e com a qual pudessem obter o apoio e o entusiasmo necessários para uma nova vitória. “A alternativa política de direita é muito pior”, converteu-se no slogan extremamente defensivo para muitos integrantes do movimento sindical. Além disso, o governo Vermelho-Verde juntou-se às guerras imperialistas (Afeganistão, Líbia) e aumentou a sua cooperação com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, cooperação que na sua declaração de 2005 afirmou que reduziria. Podemos então observar o padrão claro de um governo que se afastou passo a passo da sua plataforma progressista e deslizou progressivamente para posicionamentos cada vez mais convencionais e suavemente neoliberais. Este é a razão por que perdeu as eleições, e é difícil explicar de outra forma que não seja constatar que o governo Vermelho-Verde caiu na sua própria armadilha.
O carácter do Partido Progressista
Muitos comentadores fora da Noruega expressaram a sua surpresa ao ver que o antigo partido político do terrorista Anders Behring Breivik, o Partido Progressista, vai fazer parte do novo governo, só dois anos depois dele ter perpetrado o assassinato em massa de 69 jovens social-democratas. Há anos que Breivik era membro da organização de jovens do Partido Progressista, mas na Noruega este partido nunca tinha sido condenado pelas suas ideias ou por ações terroristas. A ideologia extremada que Brevik expressou no seu manifesto e, de facto, os seus terríveis atos, desenvolveram-se estando ele em contacto com outras redes depois de abandonar o Partido progressista, ao qual criticou por excessivamente liberal.
O Partido Progressista da Noruega é um típico partido populista de direita, mas, comparado com muitos outros da mesma espécie, poderia parecer uma versão moderada. No entanto, é neoliberal no plano económico e anti-sindicalista. O partido, através da sua história, excluiu por um lado alguns membros que tinham expressado abertamente as suas opiniões racistas, mas pelo outro sempre fez o jogo de forma mais ou menos indireta ao sector xenófobo do eleitorado durante as campanhas políticas e, além disso, alberga certos membros anti-imigração. Detém alguns traços comuns com o Partido do Povo Dinamarquês e leva a cabo muitas das políticas dos Democratas Suecos, ainda que o próprio Partido Progressista não considere tais partidos como organizações irmãs.
Se o Partido Progressista conseguir fazer parte do novo governo de direita na Noruega, representará um avanço político para este tipo de partidos populistas de direita, o que poderá ser utilizado como ativo de marketing para partidos semelhantes noutros países.
Eleições de protesto
Nada sugere que exista uma exigência crescente de políticas de direita na Noruega. Os resultados das eleições são mais a expressão da frustração, do descontentamento e do protesto contra o governo, que estava em funções. As mudanças políticas, não obstante, rara vez são logicamente racionais. O partido populista de direita (Partido Progressista) sempre se mostrou hábil a explorar o descontentamento. Nas eleições deste ano também o Partido Conservador utilizou a sua habilidade para beneficiar do descontentamento generalizado com a aliança Vermelha-Verde. Suavizou a sua própria retórica política e tentou em vez disso apresentar-se como uma alternativa segura e compassiva aos Vermelho-Verdes, preocupando-se com os problemas do povo no dia a dia.
A realidade, certamente, será bem diferente. Na maior parte das áreas em que os cidadãos estão descontentes com os Vermelho-Verdes, o novo governo de direita será ainda pior. Haverá mais privatizações e mais comercialização dos serviços sociais, mais ataques aos acordos coletivos e à legislação de trabalho e cortes nos orçamentos públicos para financiar os seus cortes de impostos. A propriedade estatal será reduzida e o capital estrangeiro provavelmente aumentará a sua cota em sectores importantes da economia. Mais ainda, podemos esperar patrões e associações patronais mais agressivos e seguros de si próprios.
Dado o quadro de fundo sócio-político excecionalmente favorável na Noruega, com os seus abundantes rendimentos do petróleo e a sua maioria parlamentar assegurada, é fácil pensar que a coligação Vermelho-Verde poderia ter evitado a derrota eleitoral –não derramando o dinheiro do petróleo em causas mais merecedoras, mas democratizando o sector público em vez de mercantilizá-lo, regulamentando os mercados financeiros depois da crise em vez de resgatar unicamente os bancos, incrementando os impostos sobre os ricos em vez de manter os orçamentos públicos no mínimo, introduzindo uma política social de habitação, etc. Esta, de qualquer maneira, não parece ser a política favorita do preponderante Partido Trabalhista, e o Partido Socialista de Esquerda não foi capaz de mudar essa direção política.
A este respeito, a evolução política da Noruega segue o padrão que temos presenciado país atrás de país na Europa onde os partidos à esquerda dos social-democratas se uniram a eles no governo. Todas estas experiências, sem exceção, passaram do negativo ao desastre – em França, em Itália, na Noruega e agora está a ocorrer ainda mais rapidamente na Dinamarca – e os partidos políticos orientados mais à esquerda perdem a sua essência original em tais coligações.
Unir-se como sócio subalterno a um governo dominado por social-democratas numa situação em que os partidos social-democratas deslizaram muito para a direita, onde existe uma desregulamentação dos mercados financeiros e o neoliberalismo se constitucionaliza como modelo económico da Europa (ou pelo menos da União Europeia, pois ainda que a Noruega esteja formalmente fora, faz parte do mercado único), é, inevitavelmente, entrar num caldeirão sem saída. O que nos surpreende é que nenhum dos partidos de esquerda na Europa analise e aprenda com isso. Parece que o Die Linke na Alemanha, o Partido Socialista da Holanda e o Partido de Esquerda da Suécia estão todos a apontar a integração num governo dominado pela social-democracia.
Nós noruegueses devemos retomar o trabalho levado a cabo antes das eleições de 2005, para construir amplas alianças sociais, desenvolver um programa minimamente crítico com o sistema, lutar por um movimento sindicalista mais progressista e independente a nível político e forçar os partidos políticos a integrar-se no movimento laboral sob uma pressão cada vez maior. Devemos pugnar por uma mobilização real se queremos conseguir mudanças reais.

Noruega - Mandatos no Parlamento
2013
Mandato obtidos: SV – Partido Socialista de Esquerda; A – Partido Trabalhista; MDG – Partido dos Verdes; FRP – Partido Progressista; H – Partido Conservador; V – Partido Liberal; KRF – Democratas Cristãos; SP – Partido do Centro. Fonte: http://www.valgresultat.no/bs7g.html.
2009

23/12/2012

Corenta anos despois do informe ao Clube Roma. Entrevista

Entrevista a Dennis Meadows, tirada de Sin Permiso (aquí) e traducido por À revolta entre a mocidade.      
Declaracións recollidas en maio de 2012 por Hervé Kempf y Stéphane Foucart, periodistas de Le Monde. Dennis L. Meadows (1942) é profesor emérito da Universidade de Nova Hampshire, presidente do Laboratory for Interactive Learning, e coautor con Donella H. Meadows, Joergen Randers y William W. Behrens III do celebérrimo Informe ao Clube de Roma, Os límites del crecimiento. En 2004 publicouse unha versión actualizada Los límites del crecimiento: 30 años después (Galaxia Gutenberg, Madrid, 2004).


 

En marzo de 1972, en resposta a unha petición dun think-tank con sede en Zurich (Suíza) –o Clube de Roma-, investigadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) publicaban The Limits to Growth, un informe que estabelecía un modelo das posíbeis consecuencias de mantener o crecemento económico a longo prazo. Ao publicarse a última edición [francesa] de Limites à la croissance (Rue de l´Echiquier, colección “Initial(e)s DD, 2012), o seu primeiro autor, o físico norteamericano Dennis Meadows, de 69 anos de idade, responde a Le Monde.

¿Qué balance fai vostede do informe de 1972?

En primeiro lugar, non era un bo título. Todo científico comprende que hai límites ao crecemento da poboación, do consumo enerxético, do PIB, etc. As cuestións interesantes estriban máis ben en saber o que causa este crecemento e cales serán as consecuencias de toparse cos límites físicos do sistema.

No entanto, a idea común segue sendo que non hai límites. E cando demostras que os hai, respóndenche xeralmente que non é grave, porque nos acercaremos a eles de maneira tranquila e ordeada para deternos suavemente grazas ás leis do mercado. O que demostramos en 1972, e segue sendo válido corenta años despois, é que isto non é posíbel: franquear os límites físicos do planeta conduce ao afundimento.

Coa crise financeira, vese o mesmo mecanismo de franquear un límite, o do endebedamento: e vese que as cousas non suceden tan tranquilamente.

Que entende vostede por afundimento?

A resposta técnica es que o afundimento é un proceso que implica un “bucle de retroacción positiva”, é dicir, un fenómeno que reforza aquilo que o provoca. Por exemplo, en Grecia: a poboación perde a súa confianza na moeda. Retira, por tanto, os fondos dos seus bancos e, por tanto, debilítanse os bancos, polo cal a xente retira aínda máis cartos dos bancos, etc., o que leva ao afundimento.

Pódese dar unha respuesta que non sexa técnica: o afundimento caracteriza a unha sociedade que ten cada vez menos capacidade de satisfacer necesidades elementais: alimentación, sanidade, educación, seguridade.

Vense signos tanxíbeis deste afundimento?

Algúns estados xa están nesa situación, como Somalia, por exemplo. Do mesmo modo, a “primavera árabe”, que se presentou un pouco en todas partes como solución aos problemas, non é na verdade máis que o síntoma de problemas que nunca resolveran. A estes estados fáltalles auga, deben importar os seus alimentos, a súa enerxía, todo iso cunha poboación que aumenta. Noutros estados, como os Estados Unidos, andan menos cerca do afundimento, mais están nesa vía.

O crecemento mundial vai, xa que logo, a deterse inelutabelmente?

O crecemento vai deterse en parte en razón da dinámica interna do sistema e en parte en razón de factores externos, como a enerxía. A enerxía ten unha influencia moi grande. A produción petroleira pasou o seu pico e vai comezar a descender. Agora ben, non hai substituto rápido do petróleo para os transportes, para a aviación…Os problemas económicos dos estados occidentais débense en parte aos elevados prezos da energía.

Nos próximo vinte anos, entre hoxe e 2030 veremos máis mudanzas das que houbo nun século na política, no medio ambiente, na economía, na técnica... Os problemas da zona euro non representan máis que unha pequenísima parte do que imos ver. E esas mudanzas non se levarán a termo de maneira pacífica.

No entanto, a China mantén un elevado crecemento…

Descoñezo cal será o futuro da China. Engánase a xente que dice que, cun crecemento de 8% a 10% anual, China será o país dominante en vinte anos. É imposíbel facer que dure este xénero de crecemento. Nos anos 80, Xapón mantiña este tipo de ritmo e todo o mundo dicía que dominaría o mundo. Desde luego, non pasou iso, detívose.E deterase no caso da China- Unha razón pola que o crecemento é fortísimo na China é a política de fillo único, mudando da estrutura da poboación de maneira que cambiou a proporción entre a man de obra e os que dependen dela, é dicir, os mozos e os vellos. Durante un período que vai durar até por volta de 2030, haberá un aumento da man de obra. E despois deterase.

Amais, a China deteriorou considerabelmente o seu medio ambiente, particularmente os seus recursos hídricos, e os impactos negativos da mudanza climática sobre o país serán enormes. Algúns modelos climáticos suxiren así que no horizonte de 2030 podería ser pouco menos que imposíbel cultivar calquera cousa nas rexións que proporcionan actualmente 65% das colleitas chinesas... Que é que acredita vostede que farán entón os chineses? Que ficarán na casa sofrendo eles sós a fame? Ou que irán ao norte, para a Rusia? Non sabemos como reaccionará a China a este xénero de situación.

Qué consello lles daría a François Hollande, Angela Merkel ou Mario Monti?

 Ningún, porque lles importa ben pouco na miña opinión, mais supoñamos que eu fora un mago: a primera cousa que faría sería alongar o horizonte de tempo dos homes políticos. Para que non se pregunten que facer de aquí ás próximas eleccións senón que se pregunten:  "Se fago isto, que consecuencias terá en trinta ou corenta anos?" Se amplía o horizonte temporal, é máis probábel que a xente empece a comportarse dun modo bo.

Que pensa vostede da “política de crecimento” na zona euro?

Se a túa única política se funda no crecemento, non quererás ouvir nin falar da fin del crecemento. Porque iso significa que tes que inventar algo novo. Os nipóns teñen un proverbio interesante: "Se a túa única ferramente consiste nun martelo, todo parécese a unha punta". Para os economistas, a única ferramenta é o crecemento e todo aseméllase por tanto a unha necesidade de crecemento.

Igualmente, os políticos son elixidos para pouco tempo. O seu propósito consiste en parecer bos e eficaces durante o seu mandato; non se preocupan do que pasará despois. Xusto por iso téñense tantas débedas: pídese prestado sobre o futuro, para ter beneficios inmediatos, e cando se trata de devolver a débeda, que a contraeu xa non se ocupa desas cousas.




18/09/2012

Europa: Outono Quente para reconstruir democracia

Ignacio Ramonet. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Ignacio Ramonet é jornalista, editor do Le Monde Diplomatique, edição espanhola, e presidente da rede Memória das Lutas – Medelu. Para leres todos os artigos de Ignacio Ramonet em À revolta entre a mocidade preme aqui. Tradução: Antonio Martins Á revolta entre a mocidade é um projeto aberto a colaborações e desenvolvido completamente com achegas de militantes ligado com o Encontro Irmandinho e com Anova Irmandade Nacionalista.  Encorajamos-vos a colaborar para podermos continuar vertendo ao galego as vozes críticas do planeta. 

Ignacio Ramonet saúda novas mobilizações sociais e sustenta, em diálogo com Zygmun Bauman: “são caminho para novo sistema político”
Como se as férias de verão fossem um manto de esquecimento, que dissipasse a brutalidade da crise, os meios de comunicação tentaram distrair os europeus com doses maciças de embrutecimento coletivo: Copa Europa de futebol, Jogos Olímpicos, aventuras das “celebridades” na praia etc. Tentaram fazer esquecer a onda de cortes de direitos que se aproxima – de forma particularmente dolorosa, na Espanha. Mas não conseguiram. Entre outras razões, porque as audazes ações de Juan Manuel Sánchez Gordillo e do Sindicato Andaluz de Trabalhadores (SAT) romperam a amnésia e mantiveram o alerta social. O outono será quente.
Numa conversa pública que mantive em agosto passado (1) com o filósofo Zygmunt Bauman, coincidíamos na necessidade de romper com o pessimismo que prevalece em nossa sociedade, desiludida com o modo tradicional de fazer política. Devemos deixar de ser sujeitos individuais e isolados, e nos converter em agentes da mudança, em ativistas sociais interligados. “Temos o dever de assumir o controle das nossas próprias vidas – afirmou Bauman. Vivemos um momento de grave incerteza, onde o cidadão não sabe realmente quem está no comando. Isso nos leva a perder a confiança nos políticos e nas instituições tradicionais.
Os políticos condicionam os cidadãos a que tenham sempre medo, para assim poder controlá-los, reduzir seus direitos e limitar as liberdades individuais. Estamos num momento muito perigoso, porque as consequências de tudo isto afetam nossa vida diária. Repetem-nos que devemos ter segurança no trabalho e conservá-lo, apesar das duras condições de emprego e de precariedade, porque assim obteremos dinheiro para poder gastar… O medo é uma forma de controle social muito poderosa”.
Se o cidadão já não sabe quem está no comando, é porque produziu-se uma bifurcação entre poder e política. Até há pouco, eles confundiam-se. Numa democracia, o candidato (ou a candidata) que, pela via política, conquistava eleitoralmente o poder Executivo, era o(a) único(a) que podia exercê-lo (ou delegá-lo) com toda a legitimidade. Hoje, na Europa neoliberal, já não é assim. O sucesso eleitoral de um presidente não lhe garante o exercício do poder real. Porque, acima do eleito político, encontram-se (além de Berlim e Angela Merkel) dois supremos poderes não-eleitos, que o governante não controla e que ditam sua conduta: a tecnocracia europeia e os mercados financeiros.
Estas duas instâncias impõem a sua agenda. Os eurocratas exigem obediência cega aos tratados e mecanismos europeus, que são geneticamente neoliberais. Pela sua parte, os mercados punem qualquer indisciplina que expresse desvio da ortodoxia neoliberal. De tal modo que, prisioneiro destas duas margens rígidas, o rio da política avança obrigatoriamente em direção única, sem nenhum espaço real de manobra. Ou seja: sem poder.
“As instituições políticas tradicionais são cada vez menos criveis – disse Zygmunt Bauman – porque não ajudam a solucionar os problemas com que os cidadãos se viram envolvidos de repente. Produziu-se um abismo entre as democracias (o que as pessoas votaram), e os diktats impostos pelos mercados – que engolem os direitos sociais das pessoas, os seus direitos fundamentais”.
Estamos assistindo à grande batalha do Mercado contra o Estado. Chegamos a um ponto em que o Mercado, na sua ambição totalitária, quer controlar tudo: a economia, a política, a cultura, a sociedade, os indivíduos… E agora, associado aos meios de comunicação de massas que funcionam como o seu aparelho ideológico, o Mercado deseja também desmantelar o edifício dos avanços sociais, aquilo a que chamamos: “Estado de bem-estar”.
Está em jogo algo fundamental: a igualdade de oportunidades. Por exemplo, privatiza-se de forma silenciosa (ou seja: transfere-se para o mercado), a educação. Com os cortes, vai-se criar uma educação pública de baixo nível, na qual as condições serão estruturalmente difíceis, tanto para os professores como para os alunos. O ensino público terá cada vez mais dificuldades para estimular a emergência de jovens de origem humilde. Em troca, para as famílias ricas, a educação privada vai seguramente crescer. Vão-se criar de novo categorias sociais privilegiadas, que acederão aos postos de comando. E outras, que só terão acesso aos postos de obediência. É intolerável.
Nesse sentido, a crise provavelmente atua como o choque, de que fala a socióloga Naomi Klein no seu livro A Doutrina do Choque (2): utiliza-se o desastre econômico para permitir que a agenda do neoliberalismo se realize. Criaram-se mecanismos para vigiar e manter sob controle as democracias nacionais. Aplicam-se (como está acontecendo na Espanha e ocorreu antes na Irlanda, Portugal ou na Grécia), ferozes “programas de ajuste”, supervisionados por uma nova autoridade: a troika, composta pelo Fundo Monetário Internacional, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu: instituições não democráticas, cujos membros não são eleitos pelo povo. Instituições que não representam os cidadãos.
Estas instituições – com o apoio dos meios de comunicação de massas, que obedecem aos interesses de grupos de pressão econômicos, financeiros e industriais – são encarregadas de criar as ferramentas de controle que reduzem a democracia a um teatro de sombras e de aparências. Com a cumplicidade dos grandes partidos de governo. Que diferença há entre a política de cortes praticada, na Espanha, por Rodríguez Zapatero e Mariano Rajoy? Muito pouca. Ambos curvaram-se servilmente aos especuladores financeiros e obedeceram cegamente às consignas eurocráticas. Ambos liquidaram a soberania nacional. Nenhum dos dois tomou qualquer decisão política para pôr um freio à irracionalidade dos mercados. Ambos consideraram que, face aos diktats de Berlim e ao ataque dos especuladores, a única solução consiste – à semelhança de um rito antigo e cruel – em sacrificar à população, como se o tormento infligido às sociedades pudesse acalmar a ganância dos mercados.
Em semelhante contexto, os cidadãos têm a possibilidade de reconstruir a política e de regenerar a democracia? Sem dúvida. O protesto social não para crescer. E os movimentos sociais reivindicativos vão-se multiplicar. Por agora, a sociedade ainda crê que esta crise é um acidente e as coisas voltarão rapidamente a ser como eram. É uma miragem. Quando tomar consciência de que isso não ocorrerá e de que os ajustes não são “de crise”, mas estruturais – então o protesto social alcançará um nível importante.
Que exigirão os que vão protestar? Nosso amigo Zygmunt Bauman é claro: “Devemos construir um novo sistema político que permita um novo modelo de vida e uma nova e verdadeira democracia do povo”. Que estamos esperando?
–
(1) No quadro do Fórum Social organizado durante o Festival Rototom Sunsplash, em Benicàssim (Castellón) de 16 a 23 de agosto de 2012.
(2) Naomi Klein, A doutrina do choque: ascensão do capitalismo de desastre. Nova Fronteira, Rio de Janeiro,