Mostrando postagens com marcador Índia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Índia. Mostrar todas as postagens

12/03/2014

A Índia prepara sua maratona eleitoral

Nicolas Chernavsky. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui).

140312-India
Oitocentos milhões de eleitores escolherão, a partir de abril, novo governo. Polarizado, sistema político tem, este ano, novidade


Criado e editado por Nicolas Chernavsky, CulturaPolitica.Info é um blog especializado em estudar e refletir sobre os sistemas políticos e eleições, em dezenas de países do mundo.

A Índia vai realizar eleições parlamentares de 7 de abril a 12 de maio de 2014. Nesse período, haverá nove dias de votação. Em cada um desses dias, diferentes distritos do país irão votar [1]. No total, têm direito a voto cerca de 814 milhões de pessoas, caracterizando a democracia da Índia como a de maior número de eleitores do mundo. O país tem um parlamento bicameral, mas somente a câmara baixa é eleita diretamente, tendo mais poder que a câmara alta e escolhendo o primeiro-ministro, num sistema parlamentarista.

O mandato da câmara baixa, a ser eleita em abril e maio, é de 5 anos. O sistema de votação é distrital uninominal sem segundo turno. As duas principais coalizões que disputarão a maioria da câmara baixa são a Aliança Progressista Unida (UPA), liderada pelo Partido do Congresso Nacional Indiano (conhecido como “Partido do Congresso”), e a Aliança Democrática Nacional (NDA), liderada pelo Partido do Povo Indiano (BJP). Desde 2004, a UPA vem mantendo a maioria da câmara baixa junto com alguns outros partidos, ficando nesses dez anos no cargo de primeiro-ministro Manmohan Singh, do Partido do Congresso.


Apesar de que a liderança da nova coalizão de governo deve ficar ou com a UPA ou com a NDA, outras forças políticas tendem a ter considerável influência nestas eleições. Uma delas, o Partido do Homem Comum (AAP), é especialmente representativa de um movimento político de escala global que, possuindo características tanto de esquerda quanto de direita, pressiona no sentido de modificar a disputa em foco no espectro político (Leia, a respeito, texto de Boaventura Sousa Santos). Quanto a isso, a questão que se abre, tanto para o AAP, na Índia, quanto para outros movimentos deste tipo no mundo, é como estes se colocam no espectro político entre esquerda e direita, pois podem pender para ambos os lados (no caso do AAP, a primeira hipótese é mais provável).

A UPA, atualmente no poder, tem um perfil historicamente mais progressista, com tendências à esquerda do BJP. O Partido do Congresso, principal partido da UPA, venceu a grande maioria dos pleitos desde a primeira eleição democrática na Índia, em 1952, após a independência do Reino Unido conquistada em 1947. O principal líder histórico do Congresso Nacional Indiano, que originou o Partido do Congresso, foi Mahatma Gandhi, que liderou o processo de independência do país. Nessas eleições de 2014, o candidato a primeiro-ministro da UPA é Rahul Gandhi, enquanto que o candidato a primeiro-ministro da NDA é Narendra Modi. Apesar do sobrenome “Gandhi”, Rahul não é descendente de Mahatma Gandhi.

A conjuntura política atual da Índia é mais favorável a uma vitória da NDA do que da UPA. Um importante fator para isso é que a NDA dá mais destaque individual para Modi como candidato a primeiro-ministro do que a UPA para Rahul. Apesar disso, conforme a campanha avança, muitas mudanças podem ocorrer, até porque o nome de Rahul vai ficando mais consolidado junto à população como candidato a primeiro-ministro. De qualquer forma, o sistema de voto distrital uninominal sem segundo turno faz com que a imprevisibilidade da eleição aumente muito em comparação com um sistema de votação proporcional.

[1] Os dias de votação serão 7, 9, 10, 12, 17, 24 e 30 de abril, e 7 e 12 de maio.

10/03/2014

Boaventura: a surpresa que vem da Índia

Boaventura de Sousa Santos. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui).

140306-india4
Novo partido, que enfrenta sistema político e poder econômico, avança, reage a chantagens, mobiliza quem estava paralisado. Experiência pode ser reproduzida?

Escrevo esta crónica da Índia, onde tenho estado nas últimas três semanas. Na década passada, a Índia foi avassalada pelo mesmo modelo de desenvolvimento neoliberal que a direita europeia e seus agentes locais estão a impor no Sul da Europa. As situações são dificilmente comparáveis mas têm três características comuns: concentração da riqueza, degradação das políticas sociais (saúde e educação), corrupção política sistêmica, alastrando-se para todos os principais partidos envolvidos na governação e sectores da administração pública. A frustração dos cidadãos perante a venalidade da classe política levou um velho ativista neo-gandhiano, Anna Hazare, a organizar em 2011 um movimento de luta contra a corrupção que ganhou grande popularidade e transformou as greves de fome do seu líder num acontecimento nacional e até internacional. Em 2013, um vasto grupo de adeptos decidiu transformar o movimento em partido, a que chamaram o partido do homem comum (Aam Aadmi Party, AAP).

O partido surgiu sem grandes bases programáticas, para além da luta contra a corrupção, mas com uma forte mensagem ética: reduzir os salários dos políticos eleitos, proibir a renovação de mandatos, assentar o trabalho militante em voluntários e não em funcionários, lutar contra as parcerias público-privadas em nome do interesse público, erradicar a praga dos consultores, através dos quais interesses privados se transformam em públicos, promover a democracia participativa como modo de neutralizar a corrupção dos dirigentes políticos. Dada esta base ética, o partido recusou-se a ser classificado como de esquerda ou de direita, dando voz ao sentimento popular de que, uma vez no poder, os dois grandes partidos de governo pouco se distinguem.

Em dezembro passado, o partido concorreu às eleições municipais de Nova Déli e, para surpresa dos próprios militantes, foi o segundo partido mais votado e o único capaz de formar governo. O governo foi uma lufada de ar fresco, e em fevereiro o AAP era o centro de todas as conversas. Consistente com o seu magro programa, o partido propôs duas leis, uma contra a corrupção e outra instituindo o orçamento participativo no governo da cidade, e exigiu a redução do preço da energia elétrica, considerado um caso paradigmático de corrupção política. Como era um governo minoritário, dependia dos aliados na assembleia municipal. Quando o apoio lhe foi negado, demitiu-se em vez de fazer cedências. Esteve 49 dias no poder e a sua coerência fez com que visse aumentar o número de adeptos depois da demissão.

Perplexo, perguntei a um colega e amigo, que durante 42 anos fora militante do Partido Comunista da Índia e durante 20 anos membro do comitê central, o que o levara a aderir ao AAP: “fomos vítimas do veneno com que liquidamos os nossos melhores, favorecendo uma burocracia cujo objetivo era manter-se no poder a qualquer preço. É tempo de começar de novo e como militante-voluntário de base”. Outro colega e amigo, socialista e votante fiel do Partido do Congresso (o centro-esquerda indiano): “aderi quando vi o AAP enfrentar Mukesh Ambani, o homem mais rico da Ásia, cujo poder de fixar as tarifas de eletricidade é tão grande quanto o de nomear e demitir ministros, incluindo os do meu partido”.

Suspeito que tarde ou cedo vai surgir em Portugal o partido do homem e da mulher comuns. Já tem nome e muitos adeptos. Chamar-se-á Partido do 25 de Abril. Quarenta anos depois da Revolução, será a resposta política aos que, aproveitando um momento de debilidade, destruíram em três anos o que construímos durante quarenta anos. O 25 de Abril é o nome do português e da portuguesa comum cuja dignidade não está à venda no mercado dos mercenários, onde todos os dias se vende o país. Será um partido de tipo novo que estará presente na política portuguesa, quer se constitua ou não. Se se constituir, terá o voto de muitas e muitos; se não se constituir, terá igualmente o voto de muitas e muitos, na forma de voto em branco. Por uma ou por outra via, o Partido do 25 de Abril não esperará pelo próximo livro de Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel da Economia, onde ele explicará como o FMI destruiu o Sul da Europa com a conivência da UE.

07/02/2014

Crise dos "emergentes" ou do sistema?

Immanuel Wallerstein. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução: Antonio Martins.  O negrito é de nosso.

140206-Marx
Novas turbulências sugerem: vivemos época de bifurcação. Em declínio, capitalismo será superado – por algo bem melhor ou bem pior que ele…


Não faz muito tempo, os “especialistas” e os investidores viam os “mercados emergentes” – um eufemismo para China, Índia, Brasil e alguns outros – como salvadores da economia-mundo. Eram eles que iriam sustentar o crescimento e, portanto, a acumulação de capitais, quando os EUA, a União Europeia e o Japão declinavam, em seu papel tradicional de pilastras do sistema capitalista global.

Por isso, é chocante que, nas duas últimas semanas de janeiro, o Wall Street Journal (WSJ), o Financial Times (FT), o Main Street, a agência Bloomberg, o New York Times (NYT) e o Fundo Monetário Internacional tenham, todos, soado o alarme sobre o “colapso” destes mesmos mercados emergentes; e que tenham advertido, em especial, sobre a deflação, que poderia ser “contagiosa”. Tive a impressão de que estão em pânico, quase indisfarçável.


Primeiro, algumas palavras sobre deflação. Mercados “calmos” são aqueles em que os preços nominais não caem e sobem devagar. Isso permite aos vendedores e compradores prever, com razoável confiança, quais suas melhores decisões. Os mercados mundiais não estão calmos há bastante tempo. Muitos analistas associam o fim desta calma à crise, em 2008, do mercado de hipotecas norte-americano. De minha parte, vou além. Penso que o declínio começou no período entre 1967 e 73, e não foi interrompido desde então.

Os mercados não estão calmos quando há deflação ou inflação significativas. Estes dois fenômenos têm, ambos, impacto nas estatísticas de emprego e, portanto, na demanda mundial efetiva por todos os tipos de produção. Se os índices de emprego real caem, por uma das duas razões, há sofrimento agudo para a vasta maioria da população e um grande aumento das incertezas, que tende a paralisar novos investimentos produtivos. Isso leva a mais sofrimento e mais paralisia, num círculo vicioso.

É claro que alguns capitalistas são capazes de tirar proveito da situação, por meio de manipulações financeiras engenhosas, envolvendo especulação. O problema é que estão fazendo uma grande aposta – que pode levar tanto à valorização maciça de seus ativos quanto à falência. Mas, pelo menos, têm uma chance de lucrar muito. Para a maioria da população mundial, o prognóstico provável é perder, às vezes maciçamente.

O que dizem estes relatos de pânico? Michael Arnold pergunta, no WSJ: “A desvalorização das moedas levará os bancos centrais dos mercados emergentes a elevar as taxas de juros?” Ele diz que o desarranjo foi provocado por “estatísticas de crescimento desapontadoras” na China e pela desvalorização da moeda argentina. Arnold adverte, em especial, para a situação da Índia e Indonésia, que têm “alta carga de dívidas e dependência pesada de empréstimos externos – por isso, estão tentando reduzir a inflação. Ele menciona a Turquia como outra zona de problemas.

Hal M. Bundrick enfatiza, no Main Street, o contágio. Ele aponta tanto a mudança na política monetária dos EUA quando as preocupações com a economia chinesa – além das tensões políticas na Turquia, Argentina e Ucrânia – como “aceleradores do declínio”. Cita um banqueiro russo, que fala sobre a queda do rublo e a atmosfera “próxima ao pânico”. Afirma que tal sensação está “se deslocando dos mercados emergentes para os desenvolvidos”.

O título de uma matéria de Gavyn Davies, no FT, é “O mundo emergente descarrilhará a recuperação global?” O autor diz que as moedas emergentes estão “em queda livre”. Também ele vê a desaceleração chinesa como um fator principal, em particular por causar impacto nas “economias abastecedoras” (ou seja, países que vendem produtos primários à China) – em particular Brasil, Rússia e África do Sul. Ele diz que os riscos de uma bolha de crédito não são um problema apenas na China, mas também na Turquia, Índia e Indonésia. Se a redução do crescimento chinês se prolongar muito, ela poderá provocar “ampliação da recessão global”. Embora faça previsões moderadamente otimistas, ele imediatamente recua, ressalvando que suas simulações (que alimentam seu otimismo contido) baseiam-se em padrões antigos, que podem não mais funcionar.

No FT, Ralph Atkins fala no “espectro da deflação”. O fenômeno, mesmo que positivo a curto prazo, é “definitivamente negativo para os ativos”, no longo prazo. Sua preocupação particular dirige-se à zona do euro. Depois de citar argumentos de outros analistas, que veem os aspectos positivos, ele termina dizendo: “o espectro da deflação vestiu seu manto de invisibilidade”.

E ninguém menos que Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, afirmou, aos representantes do Establishment reunidos no Fórum Econômico Mundial, em Davos, que há uma ameaça ao mercado global, quando os Estados Unidos cortam seus estímulos monetários. Existe um “novo risco no horizonte, e ele precisa ser examinado de perto”. Ela cita as “repercussões… nos mercados emergentes”.

Naquele mesma semana, um editorial da agência Bloomberg começava assim: “As economias emergentes viveram uma semana brutal”. O texto vê estes mercados como muito ligados ao dólar e, portanto, “excessivamente sensíveis a flutuações – reais ou imaginárias – na política monetária norte-americana”. Por isso, pede que o FED, banco central dos EUA, “não feche a torneira muito cedo” e (previsivelmente), que os países emergentes “melhorem suas políticas”.

Não menos importante, Lando Thomas informa, no NYT, que a nova palavra da moda em Wall Street, substituindo os BRICS, é “os cinco fracos” [“the Fragile Five”]. A lista inclui três membros dos BRICS (Brasil, Índia e África do Sul) mais Turquia e Indonésia. Exclui tanto a China quanto a Rússia, cujo impacto geopolítico parece pesar decisivamente.

Todos parecem oferecer bons conselhos, certos de que, de alguma maneira, eles irão aliviar a situação. Poucos parecem admitir que a demanda efetiva global é o verdadeiro problema. Mas é nítido que, abaixo da superfície, já o detectaram. É por isso que estão em pânico, porque, então toda sua ênfase no “crescimento” – uma fé crucial – estará minada. Neste caso, a crise deixa de ser cíclica e torna-se estrutural: não pode ser resolvida com paliativos, mas com a invenção de um novo sistema. Esta é a famosa bifurcação, em que há duas saídas possíveis – uma melhor e outra pior que o sistema existente. Um jogo em que todos nós estaremos envolvidos.

30/10/2013

O regresso da crise dos mercados emergentes

Satyajit Das. À revolta entre a mocidade,blogue de esquerdas de criação coletiva, tirou e traduziu este artigo de Sin Permiso (aqui).


Para parafrasear a Robert Louis Stevenson, os mercados financeiros têm "uma grande memória para esquecer".

As múltiplas crises latinoamericanas de dívida e a crise de 1997/98 no emergente mercado asiático foram esquecidas. Agora, o risco de uma crise geral nos mercados emergentes é muito real.

BRICs reais

Os investidores têm estado de romance com os mercados emergentes, como pode se apreciar nas frivolidades com as economias BRIC (Brasil, Rússia, Índia e Chinesa), um termo desenhado por Jim O'Neill, de Goldman Sachs, em 2001. Aparentemente, o pueril CRIB foi recusado a favor do solidamente construtivo BRIC ["bric" significa tijolo em inglês, enquanto "crib" é berço; T.].

Posteriormente convertido em BRICS para incluir a África do Sul, porque o anterior agrupamento carecia de referência africana, o acrónimo converteu-se em símbolo do percebido auge das nações emergentes e da sua acrecido potencial económico. A lógica e as matemáticas subjacentes eram vadias, para além da usual verba de marketing sobre o volume de população, a extensão territorial e a abundância de recursos.

Em realidade, o crescimento dos BRICS e de outros mercados emergentes estava induzido por: o baixo ponto de partida ou base do desenvolvimento, a força de trabalho sem utilizar, o trabalho barato, as estruturas de baixo custo (por causa da regulação mínima e da falta de controlos medioambientais), (em alguns casos) a riqueza de matérias primas, as elevadas poupanças nacionais e as demografias favoráveis.

Nos 90 e começos de 2000, um forte crescimento alimentado pela dívida nas economias desenvolvidas, sobretudo em EEUU e Europa, atuou como catalisador no impulso dos mercados emergentes. Uma forte demanda para as exportações combinada com a relocalização e externalização da produção para os mercados emergentes com baixos custos impulsionou o crescimento.

Uma China em rápido crescimento emergiu como um grande mercado para matérias primas, impulsionando aos países emergentes com abundantes recursos. Economias emergentes mais pequenas, especialmente na Ásia, chegaram a integrar-se nas novas correntes de oferta manufatureira centradas na China. Como escreveu David Rothkopf em Foreign Policy: "Sem China, os BRICS seriam só BRI, um queijo macio e suave conhecido sobretudo pela sua associação com o vinho que lhe acompanha."

Um círculo virtuoso empenhado em confirmar a profecia impulsionou o crescimento dos mercados emergentes melhorando os níveis de vida ao menos de alguns cidadãos.

A crise financeira global de 2007/2008 pôs fim a essa fase de desenvolvimento. A ralentização do crescimento económico nas economias desenvolvidas resultou em uma drástica queda nas economias emergentes. Para restaurar o crescimento, os mercados emergentes tenderam a modelos de crescimento mais fundados no crédito. Um crescimento de duplo dígito do crédito impulsionou a atividade económica na China, Brasil, Índia, Turquia e muitas economias da Ásia, América Latina e Europa do Leste.

BRICs irreais...

A reviviscência, impulsionada pelo crédito, das economias emergentes trouxe consigo a expansão do crédito nacional interno, dirigido pelos governos para financiar  o crescimento do investimento e o consumo. Crescimento que se viu aumentado pelos fluxos de capital foráneo, atraídos pelo que percebiam como fundamentos económicos superiores dos mercados emergentes.

As políticas monetárias laxas nos países desenvolvidos -taxas de interesse baixas ou próximas a zero, flexibilização quantitativa e desvalorização monetária- estimularam o afluxo de capital para os mercados emergentes, em procura de maiores voltas e de apreciação monetária. Os bancos, inundados de liquidez, procuraram oportunidades de empréstimos nos mercados emergentes. Os investidores internacionais, como os fundos de pensões, os gestores de investimento, os bancos centrais e os fundos soberanos, incrementaram as suas atribuições aos mercados emergentes.

A propriedade foránea da dívida dos mercados emergentes incrementou-se drasticamente. Na Ásia, o 30-50% dos bonos públicos indonésios denominados em rupias estão em mãos estrangeiras (em 2008, menos de 20%). Aproximadamente um 40% da dívida pública de Malásia e Filipinas está em mãos estrangeiras.

Os aflujos de capital impulsionaram drásticas quedas nos custos do empréstimo nos mercados emergentes. Os rendimentos do bono brasileiro denominado em dólares caíram de 25% em 2002 a uma 2,5% recorde em 2012. Depois de promediar um 7% no período 2003-2011, os rendimentos do bono turco denominado em dólares caíram a um 3,17%, outra cifra recorde. Os rendimentos do bono indonésio denominado em dólares caíram também, batendo outro recorde: 2,84%. Também caíram as taxas de juro das moedas locais.

A acrescida disponibilidade de fundos e os tipos baixos estimularam o rápido incremento dos empréstimos e do investimento especulativo. Os preços dos ativos, assinaladamente o dos bens raízes, aumentaram drasticamente.

O efeito dos afluxos de capital viu-se exacerbado pelo volume relativo do investimento e dos mercados financeiros locais. Um 1% de incremento na atribuição de carteira pelos fundos de pensões e as asseguradoras estadounidenses equivale a 500 mil milhões de dólares, uma cifra muito superior à capacidade de absorção fácil dos mercados emergentes.

A banda deixa de tocar

Nos 12 últimos meses, aumentou a preocupação dos investidores pela evolução dos mercados emergentes, o que se reflete em um crescimento reduzido e em uma potencial reversão dos afluxos de capitais.

O crescimento da China caiu por embaixo do 7%. O crescimento da Índia está por embaixo do 5%. O crescimento do Brasil está a acercar-se a zero. As predições sobre o crescimento russo foram de menos a menos, até ficar agora por embaixo do 2%. A queda reflete o estancamento económico dos EEUU, Europa e Japão. Ademais, a ralentização do crescimento chinês afetou à demanda e aos preços das matérias primas, afetado, à sua vez a produtores como Brasil. A ralentização fluiu através das correntes de oferta afetado aos suministradores da indústria manufatureira chinesa.

A ralentização do crescimento vê-se agora atenuada por saídas de capitais impulsionadas pela preocupação suscitada pelas economias dos mercados emergentes mas que alteram também a dinâmica política estadounidense.

As melhorias nas condições económicas norte-americanas estimularam uma discussão sobre a "redução" das injecções de liquidez da Reserva Federal estadounidense, que atualmente tem um monto de 85 mil milhões de dólares mensais. As taxas de juro do bónus do Tesouro norte-americano aumentaram, tendo subido os tipos do bónus a 10 anos cerca de um 1% anual (antecipando um crescimento mais robusto, mais inflação e maiores tipos oficiais de interesse). Os tipos em outros países desenvolvidos como Alemanha também aumentaram drasticamente.

À medida que os investidores reassociam os seus ativos de regresso às economias desenvolvidas, especialmente os EEUU, teve significativas saídas de capitais procedentes dos mercados emergentes, resultando em drásticas quedas do valor das moedas e vigorosos aumentos das taxas de juro creditício. Em 2013, o real brasileiro perdeu cerca de um 13%, a rupia índia, cerca de um 15%, o rublo russo, cerca de um 8%, a lira turca, cerca de um 10%, a rupia indonésia, em torno de um 12%, o ringgit malasio, em torno de um 7%, o bath tailandês, um 4% e o rand sul-africano, cerca de um 18%. Essas quedas aceleraram-se nos últimos três meses.

A capacidade de endividamento viu-se reduzida. O custo de financiamento incrementou-se. Os rendimentos dos bónus brasileiros denominados em dólares cresceram cerca de um 5%, bem por acima dos baixos níveis de 2,5% do passado ano. Os rendimentos dos bónus Turcos denominados em dólares aumentaram cerca do 6%, partindo de um modesto 3,17%. Os rendimentos dos bónus indonésios denominados em dólares estão agora acima do 6%, muito superiores àquele modesto 2,84% do passado ano.

Os bancos centrais dos mercados emergentes, excluindo a China, experimentaram saídas de reservas por um montante próximo aos 80 mil milhões de dólares (em torno do 2% das reservas totais). Nos passados 3 meses, Indonésia perdeu cerca do 14% das reservas do seu banco central; Turquia perdeu o 13%; e a Índia perdeu em torno do 6%.

Como uma maré em refluxo que deixasse ao descoberto os traiçoeiros baixos ocultos quando as águas estão altas, a relentização do crescimento e a retirada de capitais deixa agora aos vista problemas de fundo calado, especialmente elevados níveis de dívida, problemas do sistema financeiro, déficits por conta corrente e comerciais, bem como deficiências estruturais.

O romance com os BRICS degradou-se, e agora falamos de BIITS, o acrónimo acuñado para descrever os mercados emergentes atualmente mais vulneráveis: Brasil, Índia, Indonésia, Turquia e África do Sul.

Dinheiro barato, problemas caros

Os níveis de dívida nos mercados emergentes aumentaram significativamente, com um crescimento total do crédito desde 2008 que oscila entre o 10% e o 30%, segundo os países. O crescimento do crédito foi especialmente forte na Ásia. Uma dívida total em relacionamento com o PIB acima do 150-200% do PIB é agora comum. A intensidade do crédito também se incrementou drasticamente. O crédito neto que se precisa para gerar a cada dólar extra de PIB se multiplicou por dois, até se precisar agora entre 4 e 8 dólares pela cada dólar de crescimento do PIB.

O crédito bancário aumentou rapidamente e está acima dos níveis de 1997 (como percentagem do PIB) na maioria de países. Também teve um rápido crescimento nos títulos de dívida emitidos por prestamistas de mercados emergentes, tanto em moeda local como estrangeira.

O empréstito varia entre os setores, dependendo dos países. O crédito ao consumo cresceu fortemente em muitos países asiáticos e também no Brasil. A dívida de consumo em Malásia e Tailândia cresceu até situar-se em torno de um 80% do PIB, drasticamente acima dos níveis de 2007. O desenvolvimento económico vai estreitamente unido ao crescimento do crédito ao consumo. Maiores empréstitos a lares com baixos rendimentos significam maior vulnerabilidade. Em Tailândia, os pagamentos de dívidas representam já mais de 33% do rendimento, aproximadamente o duplo que nos EEUU antes da crise financeira de 2008.

O empréstito às grandes empresas varia também. Muitas grandes empresas na China, Coreia do Sul, Índia e Brasil estão muito apalancadas. A dívida bruta combinada de 10 maiores conglomerados industriais da Índia cresceu um 15% no passado ano, atingindo os 102 mil milhões de dólares. Muitos prestatários vêem-se ultrapassados por um fluxo inadequado de caixa à hora de honrar os pagamentos de interesses e principal, especialmente em um médio económico débil.

O crescimento nos mercados de dívida locais significa que as grandes empresas podem tomar prestado em moeda local, reduzindo o risco de divisas No entanto, os prestatários dos mercados emergentes, atraídos por cupões muito baixos, têm dívidas significativas contraídas em divisas fortes. Brasil tem empréstimos pendentes em dólares por um monto de 172 mil milhões de dólares (22% do PIB). Índia  tem uma dívida exterior pendente próxima ao 20% do seu PIB.

Com notáveis exceções como China e a Índia, os níveis de dívida pública não são altos. No entanto, o envolvimento do Estado nos bancos e as indústrias significa que o nível efetivo das obrigações públicas é superior ao que consta.

Os níveis sustentáveis de dívida pública são mais baixos para os países dos mercados emergentes, dadas a sua renda e riqueza per capita mais baixas. As nações emergentes caracterizam-se também por uma "estrutura de dívida investida" (um conceito atribuível a Michael Pettis no seu livro The Volatility Machine [A máquina de volatilidade]); os níveis de empréstito soberano aumentam rapidamente quando uma economia se enfrenta a problemas.

Má banca...

Bancos e investidores expostos a mercados emergentes correm riscos significativos. Tomou-se erroneamente prestado para financiar o consumo e o investimento em projetos de infraestrutura  com taxas incertas de volta ou especulação.

Com 20 biliões de dólares de todos os bónus públicos (48% dos pendentes) rendendo menos de ou em torno de um 1%, os investidores em bónus sustentaram a prestatários de uns mercados emergentes a cada vez mais marginais com preços por baixo do risco

Uma emissão de bónus a 10 anos por 400 milhões de dólares do estado africano de Ruanda com um cupão de 6,875% teve uma sobre-subscrição dentre nove e dez vezes maior. Os fundos conseguidos (cerca de um 5% do PIB) iam financiar um centro de convenções em Kigali, Ruanda. Panamá emitiu bónus a 40 anos ao 4,3%, um resultado notável dado que os bónus do tesouro norte-americano apenas se venderam por embaixo do nível de cupão para o 10% da história. Honduras foi capaz de emitir bónus a 10 anos para conseguir 500 milhões, apesar de que se enfrenta a grandes dificuldades para honrar as suas obrigações.

Em muitos países emergentes, os servidores públicos dos bancos quase-públicos financiaram projetos patrocinados pelas elites e os empresários politicamente promiscuos. As práticas crediticias foram débeis, ajudando a financiar as propriedades caras e a permitir projetos vaidosos duvidosamente económicos.

Muitos prestatários brigarão para pagar a dívida. As perdas ocultam-se normalmente por uma política oficialmente sancionada de reestruturação da carteira vencida. Os empréstimos maus ou reestruturados dos bancos índios chegam já ao 12% do total de ativos, o duplo que faz quatro anos. No Brasil, os problemas de solvência do antigo magnata Eike Batista e os seus vários negócios resultarão em grandes perdas para os prestamistas, bem como para o banco do desenvolvimento, um banco público brasileiro.

Problemas no estrangeiro...

Os afluxos de capital foráneo em curto prazo financiaram as contas externas, maquilhando os balanços subjacentes.

O excedente por conta corrente dos países de mercados emergentes caiu até o 1% do PIB conjunto; em 2006 rondaba o 5%. O deterioro é maior, pois os excedentes comerciais da China  e dos exportadores de energia distorceram o resultado geral. As quedas refletem a relentização do crescimento dos mercados de exportação, a diminuição dos preços das matérias primas, o aumento dos preços de importação dos alimentos e da energia, bem como o consumo interior impulsionado pelo excessivo crescimento do crédito.

Índia, Brasil, África do Sul e Turquia têm grandes déficits por conta corrente que devem se financiar em ultramar. Índia tem um déficit por conta corrente por volta dos 6-7% e um déficit orçamental (governo federal e dos estados federados) próximo aos 10% que precisa de financiamento. Os países dependentes da exportação de matérias primas são também vulneráveis, dados a queda de preços e o anémico crescimento económico global.

Os países emergentes precisam em torno de 1,5 biliões de dólares anuais em financiamento externa para subvir às suas necessidades financeiras, incluída a dívida próxima a vencimento. Um deterioro do ambiente de financiamento combinado com uma queda das reservas de divisas, redução da abrangência para as importações e os empréstitos em curto prazo, moedas em declive e minguadas perspetivas económicas incrementaram a sua vulnerabilidade.

Problemas em casa...

O difícil ambiente exterior pôs ao descoberto inveteradas debilidades estruturais.

Os investidores temem que muitos mercados emergentes fiquem atrapados em uma armadilha de rendimentos médios, onde os países experimentam um drástico declive no crescimento económico quando o PIB per capita chega aos 15.000 dólares.

As economias emergentes seguem estreitamente unidas às economias desenvolvidas através do comércio, da necessidade de capital para o desenvolvimento e do investimento das reservas da mudança exterior, que totalizam um excedente de 7,5 biliões de dólares. O débil crescimento nos mercados desenvolvidos e a decrescente qualidade crediticia dos bónus soberanos dos países desenvolvidos podem resultar perjudiciais para os mercados emergentes. Os países emergentes perderam também competitividade, um resultado dos custos crescentes, particularmente do trabalho.

Os investidores preocupam-se pelo mau investimento e pela falta de investimento. Os projetos troféu como os Jogos Olímpicos de Beijing (com um custo de 40 mil milhões de dólares), as Olimpíadas de inverno russas em Sochi 2014 (51 mil milhões) e a Copa do Mundo de Futebol em 2014  e Olimpíadas em 2016 no Brasil absorveram recursos escassos a expensas de infraestruturas essenciais.

A desigualdade de rendimentos, a corrupção, os ambientes hostis e difíceis para os negócios, a excessiva concentração do poder económico em corporações estatais muito subsidiadas e as rigidezes políticas complicam crescentemente os problemas de dívida e saídas de capital. A instabilidade política exacerba os problemas económicos, por exemplo, no Brasil, Turquia, África do Sul e a Índia.

Essas preocupações deram pé a um novo acrónimo para os mercados emergentes mais vulneráveis; BIITS (Brasil, Índia, Indonésia, Turquia, África do Sul). Diríase que os BRICS se estão a converter em BIITS!

Momento da verdade...

Os políticos cansos de batalhas não querem achar sequer na possibilidade de uma crise dos mercados emergentes. Acham, como o antigo Secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, que "não pode ter uma crise na semana que vem; a minha agenda já está cheia".

O verdadeiro é que há espantosos parecidos com os 90. Então, políticas monetárias laxas promovidas pela Reserva Federal estadounidense e o Banco do Japão trouxeram consigo enormes afluxos de capital aos mercados emergentes, especialmente na Ásia. Em 1994, o presidente da reserva Federal Alan Greenspan retirou a liquidez, o que redundou em umas taxas de juro estadounidenses que se multiplicaram por duas em 12 meses.

Na conhecida como "Grande Massacre dos Bonos" de 1994, os tedores de bónus estadounidenses sofreram perdas por volta dos 600 mil milhões. As perdas na negociação de bónus levaram à bancarrota do Orange County em Califórnia, ao fechamento de Kidder Peabody e à quebra de muitos fundos de investimentos. Desencadeou crise de mercados emergentes em México e América Latina. Precipitou a crise monetária asiática, que precisou da intervenção do FMI para resgates na Indonésia, Coreia do Sul e Tailândia. Ásia precisou mais de uma década para recuperar das perdas económicas.

Muitos temem agora uma repetição disso disparada pelas rápidas saídas de capital e ainda dólar à alça. A trajetória básica é familiar: as velhas vias são com frequência a melhor via.

As debilidades na economia real e as vulnerabilidades financeiras retroalimentar-se-ão rapidamente em um círculo vicioso. Ainda se se diferira a redução da excessiva laxitude monetária nas economias desenvolvidas, o verdadeiro é que as fragilidades fundamentais dos mercados emergentes -os déficits por conta corrente, as inadequadas voltas dos investimentos e os elevados níveis de dívida- revelar-se-ão problemáticas.

As retiradas de capital causarão debilidade da moeda, ou que à sua vez induzirá caídas nos preços de ativos como os bónus, as ações e as propriedades imobiliárias. Uma diminuída disponibilidade financeira e uns crescentes custos de financiamento incrementarão a pressão sobre prestatários sobreendividados, o que disparará os problemas bancários e repercutirá, assim, na economia real. As degradações da qualificação do crédito e do investimento estenderão o ciclo através de repetições iteradas.

As respostas políticas complicarão os problemas

Compra-las de divisas, as intervenções no mercado monetário ou os controlos de capitais por parte dos bancos centrais reduzirão as reservas ou acelerarão as saídas de capital. Taxas de juro mais elevadas para sustentar a moeda e contrarrestar a inflação importada reduzirão o crescimento, exacerbando os problemas dimanantes de uma dívida elevada. Índia, Indonésia, Tailândia, Brasil, Peru e Turquia já puseram por obra algumas dessas medidas.

Uma moeda mais débil afetará os preços dos produtos de primeira necessidade, alimentos, azeite de cozinha e gasolina. Os subsídios para manter baixos os preços debilitarão as finanças públicas. A necessidade de sustentar o sistema financeiro e o conjunto da economia exercerá uma grande pressão sobre as balanças públicas.

A gentalha aficionada ao "desta vez é diferente" sustenta que se fez já em frente às vulnerabilidades críticas -taxas de mudança fixas, baixas reservas de mudança exterior, endividamento em moeda estrangeira-, evitando o risco da familiar espiral da morte nos mercados emergentes. É um ponto de vista manifesta e exageradamente otimista. Pode que as mudanças estruturais atrasem o estourido da crise. Mas a economia real e as debilidades financeiras apontam a que os riscos são elevados.

Enquanto a dívida em moeda local aumentou, os níveis de dívida em moeda estrangeira sem abrangência são significativos. Onde a dívida é denominada em moeda local, a propriedade foránea é significativa, especialmente em Malásia, Indonésia, México, Polónia, Turquia e África do Sul. As debilidades da moeda causarão a saída de investidores estrangeiros, o que aumentará os custos do empréstimo e reduzirá a capacidade de financiamento.

As debilidades fundamentais e um ambiente exterior débil limitam as opções políticas. A capacidade de assistência do FMI vê-se limitada por causa de crises concorrentes, especialmente na Europa.

Retrocesso económico...

Na reunião de banqueiros centrais que teve local em Jackson Hole em agosto de 2013, os políticos ocidentais negaram o papel jogado pelas economias desenvolvidas nos problemas a que agora se enfrentam os mercados emergentes e sustentaram que os seus políticos teriam "beneficiado" os mercados emergentes. Mas as economias desenvolvidas enfrentam-se agora a um sério retrocesso económico.

Desde 2008, os mercados emergentes contribuíram em 60-79% ao crescimento económico global. Uma relentização afetará rapidamente às economias desenvolvidas. Baixará a demanda de exportações que promoveram até agora a atividade económica. Cairão os rendimentos das empresas transnacionais à medida que declinem os seus rendimentos por operações em ultramar. As perdas em investimentos afetarão aos fundos de pensões, aos gestores de investimentos e aos investidores individuais. As perdas crediticias e comerciais afetarão aos bancos internacionais ativos nos mercados emergentes.

Os mercados emergentes têm em torno de 7,4 biliões de dólares em reservas de divisas investidas primordialmente em títulos públicos estadounidenses, japoneses, europeus e britânicos. Se os bancos centrais dos mercados emergentes vendem títulos a fim de apoiar as suas débeis moedas ou de sustentar à economia nacional, então o drástico incremento das taxas de juro atenuará o incremento decorrente da redução de estímulo monetário. Isso resultará em grandes perdas imediatas para os tedores. Também incrementará a tensão financeira, repercutindo negativamente na frágil recuperação das economias desenvolvidas.

A debilidade das moedas dos mercados emergentes está a impulsionar uma subida nas moedas principais, como o dólar. Isso erosionará as melhorias em estruturas de custos e em competitividade conseguidas através da avaliação da moeda com baixas taxas de juro e flexibilização quantitativa. O dólar mais alto truncará qualquer recuperação incipiente.

Com o tempo, o efeito desestabilizador das ações nacionais e complexas correntes políticas cruzadas podem acelerar a tendência a fechar das economias, magoando as perspetivas de crescimento global.

Em realidade, o que as economias desenvolvidas procuraram exportar é mais que bens e serviços: trataram de exportar as cargas do ajuste requerido pela crise de 2008 para as economias emergentes. Como um homem a ponto de se afogar que se agarra a outro que mal sabe nadar, as políticas seguidas bem poderiam trazer consigo o hundimiento de uns e de outros, das economias desenvolvidas e das economias emergentes.

12/04/2012

BRICS: a possível virada em Délhi

 Prem Shankar Jha.  Tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução: Tadeu Breda.  Prem Shankar Jha é analista e jornalista indiano nascido em 1938. Já trabalhou para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), além de vários veículos de comunicação da Índia. Foi também consultor do Banco Mundial, membro da comissão indiana da Unesco e professor-visitante da universidades de Harvard, Virginia e Richmond, nos Estados Unidos



A Índia hospeda uma série de conferências internacionais todos os anos, e 90% delas não consegue nem mesmo ser citada pela imprensa internacional. Mas a cúpula dos BRICS, concluída em 29 de março, rompeu com essa tradição. Em apenas dois dias, a conferência virou notícia em pelo menos 624 jornais de grande circulação e canais de tevê em todo o mundo. O que possibilitou tamanha repercussão? A resposta mais curta é que, talvez, a mídia internacional tenha sentido que a bicentenária hegemonia do Ocidente está sendo desafiada por um mundo novo e cada vez mais interdependente.

Esse desafio ao poderio ocidental (e norte-americano, em particular) foi construído ao longo do tempo: está refletido na crescente determinação da China em manter os mares ao sul de seu território livres da presença militar e da influência econômica estrangeiras; é visível já há alguns anos na atuação do grupo islâmico radical Al Qaeda; foi demonstrado pelos vetos russo e chinês às resoluções do Conselho de Segurança que buscavam legitimar a queda do regime de Bassar Assad na Síria. Nesse contexto, o encontro dos BRICS — grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — em Nova Délhi adquire especial relevância.

Apenas três dias antes da cúpula, um colunista do International Herald Tribune classificou os BRICS como “um bloco artificial construído em cima de um slogan”. Diferente da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e de outras agrupações, afirmou o articulista, não existe justificação regional ou comercial para os BRICS. Pelo contrário, todos os seus membros possuem relações econômicas prioritárias com o Ocidente. Além disso, a sigla que dá nome ao grupo foi inventado por um executivo da Goldman Sachs, cujo objetivo era aconselhar corporações transnacionais sobre a melhor forma de expandir suas atividades nas regiões que estavam em rápido crescimento após o início da globalização e da gradual desindustrialização do Ocidente.

Mais que uma sigla

Hoje, porém, os BRICS se transformaram em algo que vai muito além de sua sigla. A declaração de Délhi contém não apenas a mais abrangente crítica que jamais foi feita aos fracassos do Ocidente desde o final da Guerra Fria, como também traz esboços de um projeto alternativo para gerenciar um mundo cada vez mais interdependente — ou seja, o nosso.

A tarefa de elaborar esse plano B foi imposta aos BRICS pelas falhas do Ocidente. Tanto a crise financeira de 2008 como a recessão mundial iniciada em 2009 foram produtos da ganância e do desgoverno capitalista, que reinaram soberanos enquanto sucessivos países se esforçavam para desregulamentar todos os mercados, nacionais e internacionais, em nome da liberdade econômica e da produtividade. Só o que conseguiram foi transformar o mercado num terreno de caça para predadores econômicos.

Não devemos surpreender-nos, portanto, com as primeiras exigências dos BRICS, feitas lá atrás, em junho de 2009: todas se relacionavam à reforma das instituições financeiras internacionais, à uma reestruturação do sistema financeiro, à segurança energética, à mudança climática e ao comércio. E o tom era de cooperação: o objetivo dos BRICS — seus presidentes apressaram-se em dizer — era “expandir o consenso estratégico, consolidar a confiança mútua, coordenar-se entre si para enfrentar a crise” e traçar um plano para o desenvolvimento futuro do sistema econômico internacional.

Mas, na medida em que o caos financeiro se aprofundou e se espalhou para a política, os BRICS foram forçados a ampliar sua agenda e afinar o tom de suas declarações. A atuação do grupo deixou de ser exclusivamente econômica durante a terceira cúpula de chefes de Estado, realizada em Hainan, China, em abril de 2011, quando os BRICS expressaram “profunda preocupação com a turbulência no Oriente Médio” e prometeram “continuar com a cooperação na Líbia dentro do Conselho de Segurança.

Mas a OTAN não quis aprender as lições da Líbia e ignorou um fato importante: a remoção forçada de um regime autoritário não é um caminho indolor rumo à liberdade, democracia e paz, mas conduz a um vazio de poder que, inevitavelmente, acaba sendo preenchido pelos elementos mais brutais e preconceituosos da sociedade. A OTAN saiu da Líbia com a crença de que finalmente havia descoberto uma “nova forma de guerra”, que cumpriiu o objetivo de mudar o governo de um país de forma barata e acessível — mesmo para potências economicamente falidas. Assim, a Líbia foi seguida pela Síria, e Síria está em perigo de ser seguida pelo Irã.

É essa perspectiva profundamente perturbadora do caos e da guerra em franca expansão que deu ao BRICS a possibilidade de desafiar a hegemonia do Ocidente de uma maneira tão madura como a que foi revelada em Délhi.

Uma crítica

A declaração Délhi expressa este desafio mais claramente em seis de seus 50 parágrafos. O primeiro é uma crítica à má gestão monetária da Europa — e, por consequência, dos Estados Unidos —, que produziu dívidas nacionais irresgatáveis, criou um excesso de liquidez internacional e agravou a recessão global. O segundo oferece uma crítica igualmente dura à inabilidade política do Ocidente em relação ao Oriente Médio. Um terceiro parágrafo lembra aos EUA e à União Europeia que a paz no Oriente Médio não poderá ser obtida sem uma “solução ampla e duradoura do conflito árabe-israelense”, e afirma que os BRICS estão muito interessados em ajudá-los na empreitada.

Um quarto parágrafo reafirma de forma inequívoca a necessidade de respeitar a soberania, a independência e a integridade territorial de todos os Estados, mas faz uma referência específica à Síria. Os BRICS expressam “profunda preocupação [com o ataque à soberania da] Síria”, conclamam a “um cessar-fogo imediato” e apoiam o plano de seis pontos proposto pelo ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan: fim das hostilidades e a instauração de “um processo político inclusivo e liderado pelos sírios” para criar “um novo ambiente para a paz”.

A declaração de Déhli reserva sua observação mais incisiva para o final: “A situação no Irã”, diz o texto, “não deve degenerar-se em conflito. Reconhecemos o direito do Irã ao uso pacífico da energia nuclear, em consonância com as suas obrigações internacionais, e apoiamos a resolução das divergências por meio de instrumentos políticos e diplomáticos e do diálogo entre as partes, incluindo entre a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e o Irã, e em conformidade com as disposições das determinações do Conselho de Segurança”. Tais observações ficam apenas um pouco aquém de um aviso mal disfarçado.

Os parágrafos sobre a Síria e o Irã constitui a rejeição mais inequívoca já feita à doutrina da “paz através do ataque preventivo” formulada pelo governo George W. Bush na sequência do 11 de Setembro. Desde então, sua aplicação repetitiva tem sido justificada não só pelo combate ao terrorismo, mas também pela defesa dos direitos humanos, a promoção da democracia e o exercício do “dever de proteger”. A verdade é que, desde a libertação do Kosovo, em 1999, até a destruição da Líbia, em 2011, temos assistido a uma sistemática violação do artigo 2º, a mais fundamental cláusula da Carta das Nações Unidas. A declaração Délhi é uma reafirmação de que os princípios consagrados pela ONU continuam vigentes e, portanto, é também um alerta ao Ocidente contra o uso da ONU e suas instituições — nomeadamente o Conselho de Segurança — para destruir a própria ONU.

Mesmo as duas iniciativas concretas delineadas pelos BRICS (o desenvolvimento de um sistema de pagamentos internacionais que dispense o uso do dólar e a criação de um banco internacional alternativo) não apenas possuem um objetivo econômico imediato, que é proteger suas economias da instabilidade monetária, mas tem também a finalidade política de libertar-se de um sistema bancário internacional que se tornou ferramenta do Ocidente para impor sanções, sequestrar fundos e, assim, estrangular e submeter países menores.

Resposta muda

Até agora, a resposta ocidental à declaração de Délhi permanece muda. Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, e renomados economistas, como Nicholas Stern, Matthia Romani e Joseph Stiglitz, saudaram a ideia de um banco dos BRICS, observando sarcasticamente que tal instituição “poderia desempenhar um forte papel no reequilíbrio da economia mundial, canalizando o dinheiro duramente economizado pelos mercados emergentes e países em desenvolvimento para finalidades mais produtivas do que as bolhas de financiamento do mercado imobiliário dos países ricos”.

Porém, uma reação conservadora virá e, caso seja destacada pela mídia, poderia facilmente transformar em ameaça aos EUA e à OTAN o que hoje em dia não passa de um puxão de orelha nas potências hegemônicas do Ocidente. É imperativo aos BRICS garantir — e ao mundo, perceber — que a declaração de Délhi não é o começo de uma nova Guerra Fria.

A desorganização dos sistemas econômicos nacionais e internacionais causada pela globalização espalhou-se, hoje, para o sistema político mundial. Os BRICS encontraram sua raison d’etre na tentativa de deter que os malefícios se propaguem ainda mais. Não tem nada a ver com fazer tudo sozinho. Para citar Diena, um jornal letão, “seria exagero dizer que esta aliança mais ou menos informal é dirigida contra os Estados Unidos. Mas todos os países que formam os BRICS estão convencidos de que querem viver um mundo policêntrico, e não num planeta unipolar dominado pelos Estados Unidos.” A Letônia é membro da União Europeia.

20/03/2012

Comércio mundial de armas cresceu 24 % entre 2007 e 2011

Artigo tirado de Esquerda.net (aqui).

O comércio mundial de armas convencionais cresceu 24 por cento entre 2007 e 2011 em relação ao quinquénio anterior (2002-2006). Os Estados Unidos continuam a ser o maior vendedor, a grande distância da concorrência, a Índia passou a ser o maior comprador e a China tornou-se mais exportador do que comprador.



O comércio mundial de armas convencionais cresceu 24 por cento entre 2007 e 2011 em relação ao quinquénio anterior (2002-2006), de acordo com um relatório divulgado em Estocolmo pelo Instituto Internacional de Estudos para a Paz (Stockholm International Peace Research Institute – SIPRI). Os Estados Unidos continuam a ser o maior vendedor, a grande distância da concorrência, a Índia passou a ser o maior comprador e a China tornou-se mais exportador do que comprador. O maior negócio das últimas duas décadas foi o fornecimento de caças F-15SG pelos Estados Unidos à Arábia Saudita em 2011.

De acordo com o relatório, os cinco maiores exportadores mundiais de armamento – Estados Unidos, Rússia, Alemanha, França e Reino Unido – concentraram 75 por cento das vendas durante o período em análise . A quota dos Estados Unidos é de cerca de um terço do total (30 por cento) e subiu 24 por cento entre 2007 e 2011 em comparação com o período anterior.

Todos os principais importadores são agora países asiáticos: Índia (10 por cento), Coreia do Sul (seis por cento), Paquistão (cinco por cento), China (cinco por cento) e a minúscula Singapura (quatro por cento). De 2002 a 2011 a China passou de maior importador para quarto e tornou-se o sexto maior exportador, com um aumento de 95 por cento, situando-se agora a curta distância do Reino Unido. Pequim tem como principal cliente o Paquistão.

Por regiões, a Ásia e Oceania importaram 44 por cento do total, a Europa 19 por cento, o Médio Oriente 17 por cento, a América 11 por cento e a África nove por cento.

O maior negócio dos últimos 20 anos foi a compra pela Arábia Saudita aos Estados Unidos de 84 caças F-15SG, que incluiu a modernização de 70 comprados anteriormente. O valor envolvido foi calculado na altura em 60 mil milões de dólares.

As "Primaveras Árabes" não alteraram o facto de os Estados Unidos serem os maiores fornecedores do Egipto e da Tunísia e a Rússia o da Síria – que se reforçou em 580 por cento.

A Rússia está com uma quota de mercado de 12 por cento e tem a Índia como melhor cliente, sendo também o principal fornecedor da Síria. A Alemanha subiu à terceira posição, ultrapassando a França, e tem a Grécia como principal destino das suas exportações. Atenas caiu do quarto posto como comprador em 2002-2006 para o 10º mundial em 2007-2001; no entanto, e apesar da crise, fez dois contratos de compra à Alemanha em 2011.

As importações de armas no continente americano cresceram 61 por cento no quinquénio em análise, com os Estados à cabeça, oitavo importador mundial. Na América do Sul os maiores importadores são o Chile e a Venezuela, mas o Brasil tem contratos em execução com a França e a Itália que o incluirão entre os mais compradores. As despesas da Venezuela com armas convencionais cresceram 555 por cento, tornando o país o 15º importador mundial quando era o 46º entre 2002 e 2006.

O relatório do SIPRI considera que se registaram "aumentos significativos" de compra de armamento em regiões como o Norte de África, Sudeste Asiático e o Sul do Cáucaso.

O continente africano gastou mais 110 por cento em armas do que no quinquénio anterior, em especial devido à subida da quota do Norte do continente de 33 para 59 por cento, com um aumento de despesas de 273 por cento. Argélia, África do Sul e Marrocos são os maiores compradores; os gastos deste país aumentaram 443 por cento no último quinquénio analisado.

17/01/2012

Wallerstein: "Veñen anos de incertidume e caos mundial"

Immanuel Wallerstein. Artigo tirado de Rebelión (aquí) e traducido por nós.

O destacado académico das ciencias sociais, Immanuel Wallerstein, é un dos máis connotados expoñentes do pensamento crítico contemporáneo, e durante a súa recente visita a Ecuador ALAI conversou con el sobre a actual crise de débeda que golpea duramente a Estados Unidos e as súas consecuencias para os países emerxentes e América Latina.

O investigador principal da Universidade de Yale considera que o dólar entrou nun proceso grave e irreversíbel de perda de valor como moeda de reserva mundial, subliñando que era "o último poder serio que mantiñan os Estados Unidos".

Wallerstein pensa que as diferentes medidas de emerxencia que se están implementando no seu país simplemente están a atrasar a bancarrota mundial. "Os danos son feitos concretos, a situación dos Estados Unidos é grave e non é recuperábel", recalca.

Estima que o desenlace ocorrerá dentro de dous ou tres anos, con resultados caóticos para o sistema mundial porque "non haberá unha moeda de reserva internacional" e tampouco existen condicións para que outra moeda poida ocupar ese rol. Entón co fin do dólar como reserva mundial "van existir cinco, seis ou sete moedas importantes, unha situación caótica porque haberá fluctuaciones enormes continuas".

"Nin os gobernos nin as firmas transnacionales, nin os mega-bancos, nin os individuos saberán que facer. Unha incerteza enorme paralizará o mundo, especialmente aos inversionistas", advirte o académico estadounidense.

Mentres isto ocorre nun nivel macro da economía estadounidense, paralelamente tamén nun plano máis local veñen producindo serios problemas económicos. "Comunidades urbanas pequenas están a entrar á bancarrota e por exemplo non poden pagar as xubilacións", indica o científico social.

O investigador considera que no seu país a clase media é a máis afectada porque dun día a outro as familias perden posición e os traballadores que perderon o seu emprego non poden achar outro posto, especialmente as persoas entre 40 e 60 anos, chegando mesmo a perder as súas casas. É unha situación que actualmente non ten solución e non se observa posibilidade de atopar unha válvula de escape.

Ademais, Wallerstein sinala que "a situación en Estados Unidos vai empeorar porque se vai a eliminar a posibilidade que o goberno sosteña gastos necesarios neste momento, creándose unha situación peor que a actual. A fantasía do Tea Party está a levar a Estados Unidos e a consecuencia a todo o mundo en dirección dun crac".

Tendo en conta estas consideracións o prognóstico do teórico estadounidense para os próximos anos é bastante pesimista. "Eu vexo guerras civís en múltiples países do norte, sobre todo en Estados Unidos onde a situación é moito peor que en Europa occidental, aínda que alá tamén hai posibilidades de guerra porque hai un límite até o cal a xente ordinaria acepta a degradación das súas posibilidades".

China e países emerxentes

Ante a crise de Estados Unidos e Europa os países emerxentes polo momento parecen vivir ben, con todo, desde o punto de vista de Wallerstein, esconden unha falsa realidade porque todos estamos nunha mesma canastra.

Tendo en conta que China é o principal tedor de bonos estadounidenses, ese país afronta unha disxuntiva moi delicada. Wallerstein considera que se por unha banda "deixa de comprar bonos de Estados Unidos vai perder a oportunidade de colocar produtos chineses nese mercado, un problema moi serio para a China. Ao mesmo tempo, cando o dólar perda a súa posición relativa ás outras moedas os seus bonos non van valer moito".

Entón, China está a arriscarse a perder enormemente tanto se se retira ou se continúa no mercado de bonos estadounidenses. Fronte a esta situación considera que "o máis probable é que a China se vaia retirando aos poucos". Xustamente o problema está en determinar cando é o momento perfecto para deter os investimentos, o cal é imposíbel de sinalar porque se o soubésemos seriamos todos ricos, agrega o investigador.

Ademais deste serio problema que afronta China, explica que o país asiático atravesa por unha situación moi fráxil desde o punto de vista da súa economía interna, "porque os bancos chineses están na mesma situación que os bancos estadounidenses fai dous ou tres anos". Así mesmo, a inflación limita posibilidades a China e a outros países emerxentes como, por exemplo, a Brasil.

Neste contexto considera que os países emerxentes, e no caso de Suramérica a Unasur, deberán achar os mecanismos dun "proteccionismo a curto prazo a fin de minimizar os danos que serán para todo o mundo. Non haberá países que escaparán dos danos pero serán máis grandes para uns que para outros".

Preguntado sobre a construción dunha nova arquitectura financeira rexional, con iniciativas como o Banco do Sur ou dunha moeda rexional como o Sucre, o académico valorou positivamente esas posibilidades para os pobos de América do Sur. "A creación eventual dunha moeda verdadeira común será un elemento de forza económica nesta situación". Nese sentido citou como exemplo que a pesar das dificultades en Europa co euro, a decisión de salvagardar a moeda común "vai permitirlles unha posición política importante".

Finalmente, como unha mensaxe para América Latina convidou a continuar coa reflexión sobre a necesidade de garantir alimentos suficientes para o seu pobo, auga para o seu pobo, enerxía para o seu pobo, como cuestións mínimas e esenciais que deben facer todos os gobernos do Sur.

02/01/2012

Economias da União Europeia despenham-se no Top 10 mundial

Nada será como hoje no top 10 das economias mundiais em 2020, segundo o estudo do Centro de Investigações Económicas e de Negócios, com sede em Londres.

Em 2020, as economias emergentes tomarão os lugares das principais economias da União Europeia, diz o CEBR.
Em 2020, as economias emergentes tomarão os lugares das principais economias da União Europeia, diz o CEBR.
 
Um estudo divulgado pelo Centro de Investigações Económicas e de Negócios (CEBR), com sede em Londres, prevê profundas alterações até 2020 no ranking das economias mundiais através de subidas das chamadas economias emergentes para os lugares das principais economias da União Europeia. No documento conclui-se que a quinta posição é agora ocupada pelo Brasil, que ultrapassou o Reino Unido, relegado para o oitavo lugar daqui a oito anos.

Nada será como hoje no top 10 das economias mundiais em 2020, segundo o estudo do CEBR.

Confirmando as previsões do FMI para cerca de 2016, a China ultrapassará os Estados Unidos no topo dos mais poderosos e apenas o Japão conservará o seu lugar, o terceiro, até ao fim da década em cursoA Alemanha, apesar da utilização que faz da União Europeia em defesa dos seus interesses, cairá do quarto para o sétimo posto; e a França, que acompanha Berlim nessa estratégia, será nona em 2020.

O estudo do CEBR considera que o Brasil já ultrapassou o Reino Unido no sexto posto, de onde continuará gradualmente a cair até oitavo dentro de 20 anos.

Entre as subidas destaca-se a da Rússia, que deverá ocupar o quarto lugar agora em poder da Alemanha; a Índia ascenderá à quinta posição, relegando a França para lugares inferiores; o Brasil é, actualmente, a sexta economia mundial.

As subidas da Rússia e do Brasil assentam na capacidade exportadora de matérias primas, beneficiando particularmente Moscovo do seu potencial de petróleo e gás natural.

A China e a Índia assentam o crescimento das suas economias na vastidão dos recursos humanos disponíveis em condições de baixo custo, precariedade de direitos sociais e situações de exploração. A China expande-se através do domínio sobre o comércio mundial e a Índia distingue-se pela especialização de trabalho de baixo custo em áreas de crescimento rápido, designadamente as tecnologias de informação.

As previsões do CEBR são particularmente pessimistas para a Zona Euro, que deverá sofrer uma recessão de 0,6 por cento em 2012 “mesmo que se resolva a crise do Euro”, o que considera improvável. Neste caso, a contracção da economia será de dois por cento. O jornal britânico The Guardian comenta o estudo sublinhando que a União Europeia, embora continue a ser o maior bloco comercial do mundo, vive “uma década perdida” de baixo crescimento depois “da euforia a crédito dos últimos 20 anos”.

Os índices de crescimento económico utilizados pelo CEBR, tal como o FMI, são os que se baseiam no valor absoluto do PIB. O facto não traduz o modo como o crescimento económico se reflecte nas sociedades que o produz, designadamente nas de crescimento mais rápido, em muitos casos através de agravamento de fossos entre minorias muito ricas e vastos estratos de pobres, desrespeito pelos direitos humanos e ausência de direitos laborais elementares.

20/12/2011

Os Estados Unidos contra todos

Immanuel Wallerstein. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Immanuel Wallerstein é professor-sênior do Departamento de Sociologia da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Seu saite é www.iwallerstein.com. Tradução: Daniela Frabasile.

Immanuel Wallerstein sustenta: giro estratégico de Washington rumo à Ásia parece precocemente comprometido. País coleciona série impressionante de fracassos diplomáticos


Houve um tempo em que Estados Unidos tinham muitos amigos, ou pelo menos seguidores relativamente obedientes. Hoje em dia, parece que não têm nada além de adversários, de todas as cores políticas. E parece que o país não vai muito bem na disputa com seus antagonistas.

Veja o que aconteceu em novembro de 2011 e tem acontecido na primeira metade de dezembro. O país sustentou divergências com a China, Paquistão, Arábia Saudita, Israel, Irã, Alemanha e América Latina. E não se pode dizer que deu-se bem em nenhuma das controvérsias.

O mundo interpretou a presença e os anúncios do presidente Barack Obama na Austrália como um desafio aberto à China. Ele disse ao Parlamento australiano que os Estados Unidos estão determinados a “alocar os recursos necessários para manter nossa forte presença militar na região”. Para finalizar, Washington está instalando 250 marines na base aérea australiana em Darwin — no futuro, possivelmente poderá aumentar o número para 2.500.

Essa é apenas uma de muitas jogadas similares que se executam no tabuleiro da exibição militar. Enquanto os Estados Unidos saem (ou são forçados a sair) do Oriente Médio, por razões tanto políticas como financeiras, estendem seus músculos em direção à região da Ásia-Pacífico. A estratégia seria viável, diante da urgente demanda por redução os gastos — mesmo com o exército — e da crescente relutância dos norte-americanos em relação ao envolvimento do país em questões externas? Até agora, a “resposta” da China tem sido virtualmente a não-resposta. É como se os governantes chineses soubessem que o tempo está ao lado de seu país — mesmo em suas relações com os Estados Unidos, ou especialmente nas suas relações com os Estados Unidos.

Há, também, o Paquistão. Os Estados Unidos lançaram os desafios: Islamabad deve acabar com os movimentos islâmicos. Deve parar de tentar sabotar o governo de Hamid Karzai, no Afeganistão. Deve parar de ameaçar a Índia com ações militares na Caxemira. Se não… o quê? Eis o problema. Ao que parece, pelos documentos que vazaram, os Estados Unidos acreditavam que o último amigo que lhe sobrou no Paquistão — o atual presidente Asif Ali Zardari —poderia demitir o líder do exército, o General Ashfaq Parvez Kayani. Como resposta, o General Kayani articulou para que Zardari realizasse tratamento médico em Dubai, nos Emirados Árabes. O potencial golpe arranjado pelos Estados Unidos falhou. E, se Washington tentar retaliar a manobra paquistanesa cortando ajuda financeira, sempre haverá a China, para tomar seu lugar.

No Oriente Médio, o que Obama mais quer é que nada dramático aconteça entre Israel e os palestinos até, pelo menos, sua reeleição. Isso não satisfaz realmente as necessidade da Arábia Saudita ou do primeiro-ministro israelense, Benyamin Netanyahu. Por isso, do ponto de vista norte-americano, ambos estão procedendo de maneira fazer marola. E os Estados Unidos estão muito mais numa posição de implorar a judeus e sauditas do que comandá-los ou controlá-los.

Ainda na Ásia, há o Irã, supostamente a principal preocupação imediata dos Estados Unidos — e também da Arábia Saudita e Israel. Washington está usando seus aviões supersecretos não-tripulados (os chamados drones) para espionar os iranianos. Nada surpreendente, exceto pelo fato de que, ao que parece, e de algum modo, um desses drones pousou no Irã — eu digo “pousou” porque a questão crucial é como e por que pousou.

A CIA, dona do avião, diz de maneira pouco convincente que o incidente deveu-se a alguma falha mecânica. Os iranianos, por sua vez, insinuam que derrubaram o drone com um ataque cibernético. Os Estados Unidos garantem que não, que seria “impossível” — mas Debka, a voz da internet israelense, diz que é verdade. Eu acredito que seja provável. Além disso, agora que os iranianos têm o avião, estão trabalhando em desvendar todos seus segredos técnicos. Quem sabe? Eles podem publicar esses segredos para que o mundo todo saiba. E então, quão secretos serão os drones supersecretos?

Ah, sim, a Alemanha. Como todos sabem, existe uma “crise” na zona do euro. E a chanceler alemã Angela Merkel tem trabalhado duro para que os países da zona do euro comprem uma “solução” que irá funcionar para ela — tanto politicamente, dentro da Alemanha, quanto economicamente, na Europa. Merkel tem pressionado um novo Tratado Europeu que iria impor automaticamente sanções aos países signatários que violem suas disposições.

Os Estados Unidos pensaram que essa seria uma abordagem equivocada. Para Washington, trata-se de uma ação de médio prazo que não resolveria imediatamente o problema financeiro da Europa. Obama enviou ao Velho Continente seu secretário do Tesouro, Timothy Geithner, a fim de insistir em suas sugestões alternativas. Os detalhes não importam, nem qual é a melhor opção. O importante é notar que Geithner foi totalmente ignorado e os alemães conseguiram o que queriam.

E, finalmente, os países da América Latina e do Caribe se encontraram na Venezuela para estabelecer uma nova organização: a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). Todos os países americanos assinaram o tratado, exceto os dois que não foram convidados — Estados Unidos e Canadá. A CELAC foi desenhada para suplantar a Organização dos Estados Americanos (OEA), que inclui os Estados Unidos e o Canadá, e que suspendeu Cuba. Pode levar algum tempo até que a OEA desapareça e que somente a CELAC permaneça. Ainda assim, não é exatamente algo que Washington esteja celebrando.

28/10/2011

Europeus vão à China pedir ajuda contra crise

Cíntia Cardoso. Artigo tirado de RFI (aqui).


Além do esforço interno para tirar a Europa da crise, os emergentes também serão chamados a cooperar. Klaus Regling, o encarregado pelo Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, irá à China amanhã para discutir como o país poderá ajudar.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, também está empenhado em obter a ajuda. Ele tefefonou para seu homólogo chinês, Hu Jintao, nesta quinta-feira. A China já havia manifestado o interesse de continuar a comprar papéis das dívidas soberanas de economias europeias. Mas ainda não se sabe com quanto os chineses poderão participar desse resgate da zona do euro. Os europeus sabem, porém, que essa ajuda terá um preço. A diplomacia chinesa diz que ps países europeus terão que "receber melhor" os investimentos diretos chineses. Tradução: a Europa terá que se abrir mais a empresas chinesas e comprar mais produtos "Made in China".

No plano bilateral, a República Popular da China também espera contar com o endosso europeu na Organização Mundial de Comércio. Há vários anos, a China espera ser reconhecida como economia de mercado pela OMC. Com esse novo status, as exportações chinesas seriam beneficiadas com a redução de barreiras alfandegárias.

A recuperação da zona do euro é essencial para a economia chinesa que tem, na Europa, seu principal parceiro comercial. A economia chinesa já é um dos maiores credores da Europa. Segundo analistas, ele teria, nas suas reservas, algo entre entre 400 e 600 bilhões de euros. A China também investiu pesado nos títulos da dívida americana e detém cerca de US$ 2 trilhões.

As autoridades europeias também não descartam o apoio do Brasil e da Rússia, mas os dois deixaram claro que poderiam eventualmente intervir por meio do Fundo Monetário Internacional e não diretamente na compra de títulos. A Índia e Rússia, também não manifestou a intenção de adquitir títulos da dívida europeia. A turnê europeia para reforçar o pacote de salvamento passa também por outros parceiros do mundo desenvolvido. Regling irá ao Japão, que acumula neste ano compra de 2,28 bilhões de euros de bônus europeus e à Noruega.

22/10/2011

Índia: 8 mil trabalhadores da Suzuki terminam greve

Tirado de Esquerda.net (aqui).
Greve pelo reconhecimento do Sindicato dos Trabalhadores da Maruti Suzuki


A greve dos 8 mil trabalhadores da Suzuki na Índia, em três unidades, foi um dos movimentos mais importantes protagonizados durante este ano neste país, que hoje vive uma guerra civil e um governo desacreditado com tantos casos de corrupção.
A greve que terminou esta sexta-feira, após 14 dias de ocupação da Maruti/Suzuki, em Manesar, foi engrossada com a greve de solidariedade dos trabalhadores de mais duas unidades, a Suzuki Powertrain India Ltd, e a Suzuki Motorcicle India Pvt Ltd.
A greve de solidariedade, que não se vê facilmente no movimento sindical, é uma grande demonstração de que os trabalhadores compreendem a necessidade de unir as suas forças para lutar contra um inimigo comum. Ajuda-nos a compreender que, se queremos derrotar a actual recessão mundial, igualmente, temos de nos solidarizar com as lutas existentes nos diversos países.
É uma longa e heróica luta que se trava desde Junho, quando os trabalhadores fizeram uma greve de algumas horas.
Em 29 de Agosto, os trabalhadores da Maruti Suzuki entraram numa greve que durou 33 dias, lutando para exercer um direito elementar, o reconhecimento do seu Sindicato dos Trabalhadores da Maruti Suzuki. Como sempre, a patronal respondeu com repressão.
Isso levou a uma nova greve, onde os trabalhadores lutavam pela volta dos 1.200 temporários e dos efectivos suspensos pela empresa.
A greve teve um resultado parcial, com os trabalhadores a conseguir o regresso dos 1.200 temporários e 64 efectivos, mas 30 efectivos continuam suspensos, por “mau comportamento”.
A partir desta greve, foi formado um comité tripartido entre representantes da empresa, dos trabalhadores e também do governo, que participou das negociações.
A greve, mais do que qualquer resultado imediato, permite-nos ver que, na Índia, que possui um dos mais poderosos proletariados do planeta, a luta apenas começou e promete ser grandiosa. Na Índia, com a invasão de empresas estrangeiras nos últimos anos, formou-se um dos mais jovens proletariados do mundo. Que agora está a ir à luta.

10/10/2011

Alguma coisa está fora da ordem

Ignácio Ramonet. Tirado de Outras Palavras (aqui).
Diante dos terremotos que abalam o mundo, Ignacio Ramonet propõe a reinvenção da política para reencantar os seres humanos

Agora que os atentados de 11 de setembro acabam de completar uma década, e passados três anos da quebra do banco Lehman Brothers, quais são as características do novo “sistema-mundo”?

A regra vigente hoje em dia é a dos terremostos. Terremotos climáticos, terremotos financeiros, terremotos nas bolsas de valores, terremotos energéticos e alimentares, terremotos comunicacionais e tecnológicos, terremotos sociais e geopolíticos, como os que causaram as insurreições da “Primavera Árabe”…


Existe uma falta de visibilidade geral. Acontecimentos imprevistos irrompem com força sem que nada — ou quase nada — os faça emergir. Se governar é prever, vivemos uma evidente crise de governança. Os dirigentes atuais não conseguem prever nada. A política se revela impotente. O Estado que protegia os cidadãos deixou de existir. Existe uma crise na democracia representativa: “não nos representam”, dizem com razão os “indignados”. As pessoas constatam a falência da autoridade política e reclamam que ela volte a assumir seu papel de condutora da sociedade, por ser a única que dispõe da legitimidade democrática. Insistem na necessidade de que o poder político limite o poder econômico e financeiro. Outra constatação: uma carência de liderança política em escala nacional. Os líderes atuais não estão a altura dos desafios.

Os países ricos (América do Norte, Europa e Japão) padecem do maior terremoto econômico-financeiro desde a crise de 1929. Pela primeira vez, a União Europeia vê ameaçada sua coesão e sua existência. E o risco de uma grande recessão econômica debilita a liderança internacional da América do Norte, ameaçada também pelo surgimento de novos pólos de poder (China, Índia, Brasil) em escala internacional.

Em discurso recente, o presidente dos Estados Unidos anunciou que dava por terminadas “as guerras do 11 de setembro” — ou seja, as do Iraque e do Afeganistão — contra o “terrorismo internacional”, que marcaram militarmente a última década. Barack Obama recordou que “cinco milhões de americanos vestiram o uniforme nos últimos dez anos”. Isso não significa que Washington tenha saído vencedor nesses conflitos. As “guerras do 11 de setembro” custaram ao orçamento estadunidense entre 1 bilhão e 2,5 bilhões de dólares: carga financeira astronômica, que teve repercussões no endividamento dos Estados Unidos e, consequentemente, na degradação de sua situação econômica.

As guerras têm-se revelado pírricas. No fim das contas, o Al-Qaeda em certa medida se comportou com Washington do mesmo modo que Ronald Reagan com Moscou quando, nos anos 1980, impôs à URSS uma extenuante corrida armamentista que acabou esgotando o império soviético e provocando sua implosão. A “desclassificação estratégica” dos Estados Unidos começou.

Na diplomacia internacional, a década confirmou a emergência de novos atores e de novos pólos de poder, sobretudo na Ásia e na América Latina. O mundo se “desocidentaliza” e é cada vez mais multipolar. Destaca-se o papel da China, que aparece, em princípio, como a grande potência que nasce no século XXI — embora a estabilidade do Império do Meio não esteja garantida, pois coexistem em seu seio o capitalismo mais selvagem e o comunismo mais autoritário. A tensão entre essas duas forças causará, cedo ou tarde, uma fratura. Mas, por hora, enquanto o poder dos Estados Unidos declina, a ascensão da China se confirma. Já é a segunda potência econômica do mundo (à frente do Japão e da Alemanha). Além disso, por deter parte importante da dívida estadunidense, Pequim tem nas mãos o destino do dólar…

O grupo de Estados gigantes reunidos no BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) já não obedece automaticamente as grandes potências ocidentais tradicionais (Estados Unidos, Reino Unido, França), ainda que estas continuem se autodesignando como “comunidade internacional”. Os BRICS demostraram recentemente, na crise da Líbia e da Síria, que se opõem às decisões das potências da OTAN e no âmbito da ONU.

Dizemos que existe crise quando, em qualquer setor, algum mecanismo deixa de funcionar, começa a ceder e acaba se rompendo. Essa ruptura impede que o conjunto da máquina continue funcionando. É o que está ocorrendo na economia desde que a crise eclodiu, em 2007.

As repercussões sociais do cataclismo econômico são de uma brutalidade inédita: 23 milhões de desempregados na União Europeia, e mais de 80 milhões de pobres… Os jovens aparecem como as vítimas principais. Por isso, de Madri a Telavive, passando por Santiago do Chile, Atenas e Londres, uma onda de indignação levanta a juventude do mundo.

Mas as classes médias também estão assustadas porque o modelo ultraliberal de crescimento as abandonou na beira da estrada. Em Israel, uma parte delas uniu-se à juventude para rechaçar o integrismo ultraliberal do governo de Benjamín Netanyahu.

O poder financeiro (os “mercados”) se impuseram ao poder político, e isso irrita os cidadãos. A democracia não funciona. Ninguém entende a inércia dos governos frente à crise econômica. As pessoas exigem que a política assuma sua função e que intervenha para corrigir os erros. Não será fácil: a velocidade da economia é hoje a mesma que um raio, enquanto a velocidade da política é a mesma que um caracol. Será cada vez mais difícil conciliar o tempo econômico com o tempo político — e também crises globais com governos nacionais.

Os mercados financeiros reagem de forma exagerada frente a qualquer informação, enquanto os organismos financeiros globais (FMI, OMC, Banco Mundial) são incapazes de determinar o que vai acontecer. Tudo isso provoca, nos cidadãos, frustração e angústia. A crise global produz perdedores e ganhadores. Os ganhadores se encontram, principalmente, na Ásia e nos países emergentes, que não têm uma visão tão pessimista da situação quanto os europeus. Também existem muitos ganhadores no interior dos países ocidentais, cujas sociedades se encontram fraturadas pelas desigualdades entre ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres.

Na realidade, não estamos suportando uma crise, mas um feixe de crises, uma soma de crises mescladas tão intimamente umas com as outras que não conseguimos distinguir as causas e os efeitos. Porque os efeitos de umas são as causas das outras, e assim até formar um verdadeiro sistema. Ou seja, enfrentamos uma crise sistêmica do mundo ocidental que afeta a tecnologia, a economia, o comércio, a política, a democracia, a guerra, a geopolítica, o clima, o meio ambiente, a cultura, os valores, a família, a educação, a juventude…

Vivemos um tempo de “rupturas estratégicas” cujo significado não compreendemos. Hoje, a internet é o vetor da maioria das mudanças. Quase todas as crises recentes têm alguma relação com as novas tecnologias de comunicação e de informação. Os mercados financeiros, por exemplo, não seriam tão poderosos se as ordens de compra e venda não circulassem na velocidade da luz pelas pistas da comunicação que a internet colocou à sua disposição. Mais que uma tecnologia, a internet é um ator das crises. Basta lembrar o papel do WikiLeaks, Facebook, Twitter nas recentes revoluções democráticas no mundo árabe.

Desde o ponto de vista antropológico, essas crises estão se traduzindo em aumento do medo e do ressentimento. As pessoas vivem num estado de ansiedade e incerteza. Voltam os grandes pânicos frente a ameaças indeterminadas, como a perda do emprego, os choques tecnológicos, as biotecnologias, as catástrofes naturais, a insegurança generalizada… Tudo isso constitui um desafio para as democracias. Porque esse terror se transforma às vezes em ódio e repulsa. Em vários países europeus, esse ódio se dirige hoje contra os estrangeiros, os imigrantes, os diferentes. Está aumentando a rejeição contra todos os “outros” e crescem os partidos xenofóbicos.

Outra grave preocupação mundial: a crise climática. A consciência do perigo que representa o aquecimento global aumentou. Os problemas ligados ao meio ambiente estão voltando a ser altamente estratégicos. A próxima cúpula internacional do clima, que acontecerá no Rio de Janeiro, em 2012, constatará que o número de grandes catástrofes naturais aumentou, assim como sua espetacularização. O recente acidente nuclear em Fukushima aterrorisou o mundo. Vários governos já deram passos para trás em relação à energia nuclear e apostam agora — em um cenário marcado pelo fim próximo do petróleo — nas energias renováveis.

O curso da globalização parece suspenso. Cada vez mais se fala em desglobalização, de declínio… o pêndulo foi longe demais na direção ultraliberal e agora poderia ir na direção contrária. Já não é mais tabu falar em protecionismo para limitar os excessos do livre comércio, e pôr fim às realocações e à desindustrialização dos Estados desenvolvidos. Chegou a hora de reinventar a política e reencantar o mundo.